Lembranças de Agnès Varda: saudades e sucessos

Lembranças de Agnès Varda: saudades e sucessos

Rodrigo Fonseca

29 de março de 2019 | 10h42

Rodrigo Fonseca
Numa rotina dividida entre homenagens nos mais prestigiados festivais do mundo e uma luta serena, sem alarde, contra o câncer de mama que a matou nesta madrugada, a diretora belga Agnès Varda (1928-2019) divertiu o público cinéfilo de Marrakech, em dezembro, ao fazer um balanço do que é filmar aos 90 anos: “Eu não sei como cheguei aqui, como durei tanto, mas já que estamos de pé, vamos fazer cinema”. Disposição nunca faltou à realizadora de “Cléo das 5 às 7” (1962), ficção mais famosa de um prolífica obra iniciada em 1954 (ela dirigiu cerca 54 produções, incluindo cinema e TV), que, segundo rumores, vai ser revisitada durante o 72º Festival de Cannes (14 a 25 de maio), em sua seleção de clássicos. Em 2015, ela saiu de lá com uma Palma de Ouro honorária. Dois anos depois, voltou, ao lado do fotógrafo JR, para receber o troféu L’Oeil d’Or (a Palma dos documentários) por “Visages villages”, seu maior sucesso em seis décadas de trabalho.

“Não tenho muito mais a dizer como conselho para diretores iniciantes que não seja dizer ‘siga em frente’. Tudo é questão de gastar energia com foco. Eu tenho muita energia ainda para pôr em documentários que me permitem enxergar o mundo pelas lentes da subjetividade”, disse Varda, cujo nome real era Arlette, em Marrakech. “A questão de se seguir filmando é crer no poder do cinema como veio de expressão”.

Cannes anunciou esta semana a escalação da libanesa Nadine Labaki, entusiasta confessa de Varda, como presidente do júri da seção Un Certain Regard. Tem uma penca de mulheres pra entrar nos júris oficiais do evento, que anunciou ontem a escolha de John Carpenter, um dos mestres do terror nas telas, como o detentor da Carroça de Ouro de 2019: o prêmio é uma láurea honorária da Quinzena dos Realizadores. Agnès recebeu uma também, em 2010. “É sempre bom ver uma mulher num espaço onde os homens são maioria, pois é sempre bom que a gente se lembre do desnível que existe entre o número de cineastas na ativa de cada sexo”, disse Agnès ao ser laureada este ano com a Berlinale Camera, pelo conjunto de seus filmes, na capital alemã.

Neste momento em a disparidade profissional entre gêneros (agravada pelo sexismo) torna-se uma das pautas centrais do cinema, dentro e fora das telas, Agnès – que ganhou notoriedade global como diretora por fazer da afirmação do feminino o eixo dramático e ético de seus longas-metragens – sai de cena… mas deixa um filme inédito: “Varda par Agnès”. Lançado há um mês no Festival de Berlim e já exibido na França, a produção começa a ser pedida por exibidores dos circuitos de arte e por cinematecas de toda a Europa. Todos querem prestar loas à realizadora que foi um pilar da Nouvelle Vague, o movimento que modernizou a maneira de se filmar na França, a partir de um engajamento com os pleitos revolucionários do período, revelando gênios como Truffaut, Godard, Chabrol. Estima-se sua exibição na TV, como série.
“Tem um mistério no que existe de inconsciente e existencial nos desejos das pessoas que a gente sente quando a câmera segue um personagem. É esse mistério que pauta o meu olhar quando eu opero uma câmera, dando alguma objetividade ao que faç”, disse Agnès em Berlim.

Pioneira da modernização política e narrativa da produção audiovisual, a diretora de “As duas faces da felicidade” (Prêmio Especial do Júri no Festival de Berlim de 1965) e “Os renegados” (Leão de Ouro em Veneza, em 1985) tinha em seu currículo um Oscar especial, em tributo a seu histórico de feitos. Nas fotos oficiais da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, ela aparece representada por um boneco de papelão de si mesma: preferiu não ir. “Eu sei que o Brasil não vai nada bem em termos políticos, mas não sei explicar bem as razões, por ser uma europeia, que só sabe de vocês pelos jornais. Mas eu aprendi que, onde existem manifestações populares nas ruas, existe coragem”, disse Agnès em 2013, ao ser entrevistada sobre as passeatas populares daquela mítica data. Quatro anos antes, ela esteve por aqui pra participar do Festival do Rio e lançar “As praias de Agnès”, onde começou um movimento de revisão de sua escrita fílmica.

Escrita essa que começou a ser construída a partir de 1954, quando finalizou “La Point-Courte”. Hoje, afirma-se que este é o filme-gênese do fluxo de modernização da arte audiovisual na França, que gerou a “Nova Onda” francófana nas telas, entre 1958 e 1970. Foi uma época revolucionária, na qual ela foi casada com o mestre europeu dos musicais Jacques Demy (1931-1990), realizador de “Os guarda-chuvas do amor” (1964). Viveu com ele de 1962 até a morte do diretor, com quem teve um filho, o ator Mathieu Demy, hoje com 46 anos.

“Estamos cuidando da recuperação da obra de Jacques, para que seus filmes não venham a ser esquecidos e para que as novas gerações conheçam o que ela fez”, disse Varda em Marrakech.

Antes de Mathieu, numa relação com o ator Antoine Bourseiller (1930-2013), a diretora teve uma filha, Rosalie Varda, uma aclamada figurinista, que, nos últimos anos, trabalhou como produtora de Agnès. Foi Rosalie quem estruturou a equação financeira de “Varda par Agnès”, que acompanha uma jornada da cineasta de Paris até Los Angeles e, de lá, pra China, passando em regista 60 anos de imagens produzidas a partir de um instinto autoral.

“Cinema é pra ser vivido e essa vivência envolve levar o mundo para os sets, para os diálogos, para as conversas ao fim dos filmes”, disse Agnès ao P de Pop, em recente conversa na Espanha, em meio ao lançamento de “Visages, villages” na Europa. “A função social de um artista é investigar a brutalidade e a beleza, para instigar a emoção e o pensamento. Intervir na sociedade pela expressão poética é parte do processo de criação e faz do cinema uma ferramenta de denúncia e de transcendência”.

Em várias enquetes respeitadas de melhores filmes de todos os tempos, encontra-se o nome de Agnès, quase sempre representado por “Cléo das 5 às 7” (1962), lançado no ápice da Nouvelle Vague. Esse manifesto da força feminina, indicado à Palma de Ouro, entrou na lista dos cem maiores longas de língua não inglesa apurado pela BBC de Londres com mais de 200 críticos do planisfério cinematográfico todo. O recorrente (e merecido) carinho dos críticos com Agnès é uma gratidão à sua contribuição para novas (e livres) formas de representação da mulher no cinema. “Ideologias à parte, as mudanças na cultura são graduais e que dependem da integração de todos”, disse Agnès em um recente colóquio em Marrakech. “A liberdade é tudo, ela é a nossa arma contra a Morte. Tenho a liberdade de fazer cinema sobre pessoas do cotidiano, das ruas, de classes e gerações diferentes”.