Lembranças da ditadura fervem o Na Real_Virtual

Lembranças da ditadura fervem o Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca

12 de novembro de 2020 | 11h43

A sala de zoom do Na Real_Virtual

RODRIGO FONSECA
Aberto com uma comovente homenagem ao cineasta Cadu Barcellos, um dos realizadores de “5xFavela, Agora Por Nós Mesmos” (2010), morto a facadas na madrugada do dia 10, o seminário online Na Real_Virtual de quarta-feira ferveu na ebulição das lembranças da ditadura militar, trazida por Lúcia Murat e Silvio Da-Rin. Para saber mais do que se passou no papo entre a diretora de “Quase Dois Irmãos” (2004) e o diretor de “Hércules 56” (2006) – e para acompanhar os próximos colóquios – basta acessar o link desta maratona documental: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. Quem conduziu a troca entre Lúcia e Da-Rin (e sempre conduz os debates) foram os curadores do simpósio: o cineasta Bebeto Abrantes e o crítico Carlos Alberto Mattos. A produção é de Márcio Blanco, da Imaginário Digital, que prestou reverência ao legado de Cadu, cujo filme “Deixa Voar” (um dos segmentos de “5xFavela…”) encantou Cannes, há dois anos. O tema do encontro do 11/11 foi Memórias de Chumbo, revisitado a partir das recordações e reinvenções de Murat e Silvio sobre o governo de farda e seu terror. Da obra de Lúcia foi selecionado “Uma Longa Viagem” (Kikito de melhor filme em Gramado, em 2011) e, do cinema de Silvio, escolheu-se o feérico “Missão 115”, destaque do É Tudo Verdade em 2018.
Lembrando de seu primeiro longa de sucesso, “Que Bom Te Ver Viva” (troféu Candango de melhor filme no Festival de Brasília em 1989), Lúcia falou sobre a mistura de linguagens entre .doc e ficção. “Falar sobre a tortura é documental, mas falar sobre a vivência desse processo, interiorizado pela dor, é algo de que só a ficção pode dar conta”, disse a diretora, lembrando do crítico José Carlos Avellar (1936-2016). “O grande Avellar organizou uma mostra documental com filmes que partiam da vivência de os quem dirigia, como ‘Santa Fé’, um longa paraguaio (‘Hamaca Paraguaya’), um longa meu… Curiosamente eram filmes de mulheres realizadoras, que partiam de suas vivências”.
Da-Rin abriu sua fala, centrada na experiência do “Missão 115” (sobre os bastidores do atentado no Rio Centro), questionando a fragilidade do regime democrático brasileiro. “Herdamos do processo da Abertura um estado de direito limitado. (…) E os terroristas daquela época ainda estão aí”, diz Silvio, respondendo uma questão de Mattos sobre a natureza de thriller do longa. “Eu busquei desenvolver uma narrativa capaz de recriar os atentados criados por um grupo secreto militar que atentava contra a Abertura”.
Nesta sexta-feira, o Na Real_Virtual recebe Eryk Rocha, diretor laureado com o troféu L’Oeil d’Or de Cannes por “Cinema Novo”. No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck, Susanna Lira e Walter Salles. Esses papos rolam sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção. E o aplauso. É “O” evento do ano no cinema nacional.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: