Lelouch traz nova dose de ‘chabadabada’ a Cannes

Lelouch traz nova dose de ‘chabadabada’ a Cannes

Rodrigo Fonseca

17 de maio de 2019 | 12h36

Rodrigo Fonseca
Neste domingo, mesmo dia em que recebe Alain Delon para a entrega de uma Palma de Ouro honorária, o Festival de Cannes vai acolher outro monstro sagrado das telas francesas para uma revisão crítica de sua própria história: o diretor Claude Lelouch. E com ele vem uma espécie de “parte três” de um marco da década de 1960. Filme da vida de muitos cinéfilos desde 1966, quando conquistou a Palma de Ouro de Cannes e um par de Oscars, “Um homem, uma mulher” tem uma continuação para estrear este ano: “Les plus belles années d’une vie” vai marcar o reencontro de Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimée uma vez mais sobre a direção deste mestre das tramas afetivas. A première mundial acontece na seleção Hors Compétition da Croisette. Já octogenário, mantendo uma média de trabalho de um longa-metragem novo a cada dois anos, Lelouch aposta em sucesso comercial para este drama com tintas românticas que narra o reencontro de Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier, que viveram momentos idílicos em Deauville nos anos 1960. “Será uma celebração do viver, um ensaio sobre a resistência da vida na luta contra a morte, pelas vias do prazer e da alegria”, antecipou Lelouch em uma entrevista ao “Le Monde”, sem antecipar detalhes sobre a produção.

A maior peleja do cineasta foi convencer Trintignant a atuar de novo, uma vez que o ator, abatido por câncer, decidiu se retirar das telas. Mas a chance de reviver um dos longas mais míticos da década de 1960 animou o astro. E é uma chance de se ouvir de novo a trilha sonora de Francis Lai, com Pierre Barouh , Baden Powell e Vinicius de Moraes, que embalou gerações ao som da melodia “chabadabada”.

“Nenhum crítico de cinema é mais implacável do que o Tempo: se você quiser saber se um filme transcende as convenções dos sucesso, basta checar se ele resiste, inteiro, vivo, no imaginário cinéfilo depois de décadas de seu lançamento. Aquela história que Anouk, Jean-Louis e eu contamos resistiu: passaram-se cinco décadas e ela está aí”, disse Lelouch ao P de Pop, ao lançar “Chacun as vie”, seu último longa, no início de 2018. “Em ‘Um homem, uma mulher’, em 1966, quando Anouk Aimée envia um telegrama para Jean-Louis Trintignant, durante o Rally de Monte Carlo, aquele gesto produz um momento mágico, de espera, de surpresa. Mas este momento parece  impensável no cinema de hoje, em que a tecnologia apressa tudo, até a magia da tela”.

Avesso ao legado intelectual da Nouvelle Vague, o movimento que renovou o cinema francês nos anos 1960, com Godard, Truffaut, Agnès Varda e Eric Rohmer, Lelouch vê o cinema como um espaço para o afeto e não para equações teóricas, contrariando o tom ensaístico e experimental de seus colegas de juventude. Seus filmes, a partir de “Um homem, uma mulher”, fizeram das vicissitudes do querer seu objeto de estudo, vide “Retratos da vida” (1981) e “A nós dois” (1979). “Desde que comecei a filmar, o desejo que me movia era a vontade de fazer filmes que falassem aos corações dos espectadores, não aos cérebros deles. Estávamos num tempo em que a França queria ganhar o mundo com filmes que obedeciam a critérios políticos e não a desígnios da liberdade poética. Muitas pessoas tentam intelectualizar ‘Um Homem, Uma Mulher’, assim que ele saiu, em um esforço de dissecar possíveis aspectos narrativos que não faziam parte do meu olhar, do meu modo de fazer filmes. Muita gente ficou intrigada com o fato de eu alternar sequências em cor e sequências em preto e branco como se fosse uma questão estética. As pessoas não faziam ideia de que aquilo era apenas uma questão de orçamento: eu não tinha dinheiro para rodar tudo em cor, por isso usei película P&B em alguns trechos. Era o que tinha à mão. Quando se é autodidata, como eu, a escola é a vida. A lógica do cinema é a tentativa e o erro”, disse Lelouch ao Estadão, na projeção de seu clássico no Festival Varilux, no Rio, em 2016. “Eu sou um observador do mundo, aberto ao acaso. É daí que vem a minha fabulação”.

Em “Les plus belles années d’une vie”, Lelouch usa como mote a viuvez dos protagonistas do longa original, hoje ambos com cerca de 80 anos. Em luta para reconstruir suas vidas diante do peso da saudade, eles voltam a Deauville para um inusitado reencontro que passa em revista feridas e belezas do passado. Em 1986, o diretor já havia ensaiado um revival para a love story de Jean-Louis Duroc e Anne Gauthier, em “Um homem, uma mulher – 20 anos depois”. Mas, agora, o peso da idade é mais doloroso, tanto na ficção quanto na realidade de seus astros. Monica Bellucci está no elenco este novo longa

“Aqueles dois personagens são frutos de uma vivência dos meus 25,  26 anos. Meus primeiros filmes não tinham funcionado e um deles ‘Les Grands Moments’, não tinha encontrado distribuidor. Eu estava à beira da falência. Um dia, em desespero, peguei o carro e sai dirigindo à toda, até que cheguei a Deauville, em plena madrugada, e lá fiquei, sem saber como refazer minha vida. Ao acordar, diante de um sol encantador, abri os olhos e avistei uma mulher que andava na praia, acompanhada de um menino e de um cachorro que se espreguiçava pelo caminho. A imagem era fantástica. Ela me deu a ideia do projeto Un Homme Et Une Femme nasceu naquele segundo. Corri para um bistrô e, durante duas horas, escrevi o filme. O futuro se abria para mim ali, apenas por estar de olhos abertos para a beleza da vida”, disse Lelouch. “Na segunda metade da década de 1960, parecia que aquele filme era uma necessidade para todos. Fazia falta a poesia. E ela ainda faz falta, por isso eu sigo filmando”.

Hoje, sexta, 17 de maio, é dia de Almodóvar na Croisette, e não de um Almodóvar qualquer: a “Cahiers du Cinéma” dá um espaço apaixonado ao devastador “Dolor y Gloria” em sua edição deste mês, acreditando que o cineasta espanhol enfim possa ser reconhecido com a Palma de Ouro que tanto merece com a história do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta (Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. O desempenho de Banderas é de doer na alma, pela tradução plena da fragilidade e do desamparo. No roteiro, o cineasta faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa. Na briga por prêmios, na competição oficial, este “almodrama” vem com força para ganhar, tendo que driblar o queridinho da crítica até agora, “Os miseráveis”, do francês de origem maliana Ladj Ly. Ele e Mati Diop, realizadora de origem senegalesa, no páreo com o belíssimo “Atlatique”, são os únicos diretores negros da disputa: ambos trouxeram longas visualmente requintadíssimos para o certame.

Maior surpresa do dia na Croisette? “Zombie Child”, de Bertrand Bonello (França): Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. Onde: Quinzena dos Realizadores

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