Legado explosivo como a carreira de Liam Neeson

Legado explosivo como a carreira de Liam Neeson

Rodrigo Fonseca

07 de janeiro de 2021 | 12h52

Rodrigo Fonseca
Semana que vem os cinemas americanos receberão “The Marksman”, um thriller sobre um rancheiro do Arizona disposto a pegar em armas para defender um jovem mexicano de um cartel hostil. O tal fazendeiro, que tem uma relação digna de avô x neto com esse rapaz gringo, enquadra-se em uma linhagem de heróis que, entre os anos 1970 e 80, Charles Bronson interpretava como ninguém. Quando este morreu, em 2003, e quando Clint Eastwood optou por se dedicar mais à direção do que a interpretar durões, a vaga ficou vazia, esfriando ao longo de uns seis anos, até ser ocupada pelo irlandês Liam John Neeson. Este, hoje, tem 68 anos. E tem filme novo dele em cartaz no Brasil: um longa-metragem de eficiência comercial e artística inquestionável, chamado aqui de “Legado Explosivo”. Aparentemente banal, apoiando-se em uma trama de caça ao rato baseada em um reflexão moral sobre integridade, “Honest Thief” (título original desta produção de US$ 29 milhões, lançada pela Imagem Filmes) vai além do que sua embalagem “lugar comum” pressupõe, não apenas pela descarga de adrenalina que libera nas telas, mas pelo simbolismo ético de seu protagonista. Nos últimos 12 anos, Neeson humanizou de modo radical o arquétipo do vigilante experiente, tridimensionalizando papéis antes representados de modo raso, resumidos a suas jornadas. Neste lançamento do fim de semana no Brasil, ele vive o ladrão arrependido Tom Dolan, que transborda dilemas existenciais. Nas cópias com versão brasileira, o personagem ganha a voz aveludada de Armando Tiraboschi, um dos mais talentosos dubladores do país, capaz de uma engenharia vocal única em sua profissão. Dolan é um ás de roubo de bancos que decide se entregar depois de se regenerar. O que faz ele cansar da rapinagem é a flechada do Cupido, expressa na convivência calorosa com uma namorada cheia de mel: Annie (Kate Walsh, precisa em cena). Mas os dois agentes corruptos do FBI a quem ele confessa seus delitos – Hall, vivido por Anthony Ramos, e o crudelíssimo Niven, que Jai Courtney interpreta com maldade no olhar – não ligam para seu arrependimento. A dupla só quer embolsar os milhares de dólares que o ex-assaltante planejava devolver. Para fazer dele um alvo da Lei, os dois acusam-no do assassinato de um outro federal (Robert Patrick, o T-1000 de “Exterminador do Futuro 2 – O Julgamento Final”). A traição deles deflagra uma série de fugas e perseguições que o prolífico roteirista e sazonal diretor Mark Williams (de “Um Homem de Família”) conduz com eficácia e tensão. Sua direção faz jus ao histórico de tipos marcados pela brutalidade encampados por Neeson desde 2009, quando “Busca Implacável” (“Taken”), um thriller de US$ 25 milhões (ninharia para um produto da Fox), dirigido pelo francês Pierre Morel e produzido por Luc Besson, explodiu nas bilheterias, faturando US$ 226 milhões. Dele ainda surgiram mais duas sequências e uma série, exibida pelo Amazon Prime. Em sua sequência, chegou ao circuito o ótimo “Desconhecido” (2011), do espanhol Jaume Collet-Serra, de quem Liam virou astro fetiche, atuando em títulos como “Sem Escalas” (2014), “Noite Sem Fim” (2015) e o ótimo “O Passageiro” (2018). “Legado…” estreou nos Estados Unidos e na Europa em outubro, em um dos períodos mais crônicos do circuito exibidor, em 2020, por conta da pandemia, e ficou quase um mês entre os títulos mais vistos, faturando cerca de US$ 30 milhões. É mais uma certeza de que a grife Neeson é um sinônimo vivo de excelência pura.

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