‘Legado explosivo’ do celacanto Tiraboschi

‘Legado explosivo’ do celacanto Tiraboschi

Rodrigo Fonseca

08 de janeiro de 2021 | 11h27

Nas bancadas dos estúdios de dublagem desde 1985, Armando Tiraboschi, que chega aos 70 anos neste 8/1, é um dos maiores atores da voz do país, em cartaz nas telonas na versão brasileira de “Legado Explosivo”

RODRIGO FONSECA
Celacanto é nome de peixe, de uma espécie óssea rara, mas é também o signo fantástico de uma força da natureza capaz de provocar maremoto, como era o monstro de “National Kid”, imortalizado em pichações revolucionárias no Rio de Janeiro dos anos 1970 e no imaginário da cultura pop como símbolo do que é grandiosos. Celacanto é também – por todas as excelentes razões acima arroladas – o epíteto que qualifica o paulista de Barretos Armando Tiraboschi como um dos mais geniais atores em dublagem que os tímpanos do povo brasileiro já ouviram. Basta ver as cópias dubladas de “Legado Explosivo” (“Honest Thief”), com Liam Neeson – no papel de um ladrão de bancos regenerado e acossado por agentes corruptos do FBI – para ver a potência e a poesia que a voz de Tiraboschi é capaz de alcançar. Dono de uma trajetória impecável nos palcos, com passagens pelo Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e com um currículo invejável no cinema de São Paulo, com direito à pérola “Amor de Perversão” (1982), de Alfredo Sternheim (1942-2018), ele dubla, além de Neeson, Samuel Jackson, Bryan Cranston (e logo em “Breaking Bad”), Jeff Bridges, Richard Gere, Colin Firth (inclusive em “O Discurso do Rei”, pelo qual o inglês ganhou o Oscar) e até Bruce Lee (1940-1973). A delicadeza que imprime, ressaltando os conflitos internos de seus “bonecos” (jargão em “dublês” para os astros e personagens recorrentemente “envozeirados” por um mesmo dublador), fez dele um alvo do respeito de colegas de prestígio, como é o caso de Mabel Cezar, a intérprete da Minnie Mouse e da Jessie de “Toy Story” em português.
“Tirabosch é aquele profissional irresistível!”, exclama a atriz e professora, que está ao lado de Armando em “Legado Explosivo”, dublando Kate Walsh. “Impecável e talentoso no ofício, Tira é um delicioso colega de trabalho”.

Kate Walsh e Liam Neeson em “Legado Explosivo”: Mabel e Liam

Dubladores do mais alto quilate dramático já deram suas vozes a Neeson no Brasil, como Dario de Castro (em “A Lista de Schindler”), Garcia Júnior (“Darkman – Vingança Sem Rosto”), Élcio Romar (“Batman Begins”), Márcio Seixas (“A Casa Amaldiçoada”), Carlos Campanille (“Os Miseráveis”) e, mais recentemente, Mauro Ramos. Este, um titã em sua classe, amado por gerações por ser o gogó nacional do Shrek e do Pumba, encarou as múltiplas ferramentas cênicas de Neeson em “Sem Escalas” (2014), “Noite Sem Fim” (2015) e “Vingança a Sangue Frio” (2019). “Além do talento, Tiraboschi é um ator que possui uma vivência de teatro muito grande e atua na dublagem como um ator interpretando”, elogia Mauro. “Posso defini-lo com uma palavra: generosidade. Ele é uma pessoa muito generosa com os colegas. Nunca trabalhei com ele dividindo bancada, mas, certamente, acredito que dividir a bancada com alguém como ele é ficar exposto à generosidade. É ver ele contracenar com você tentando te ajudar em alguma dificuldade. Tiraboschi sempre me tratou com muito carinho e sempre foi muito generoso. Eu fui chamado para dublar uns três filmes do Liam Neeson e ele nunca me destratou por causa disso, porque compreende que isso é um trabalho, para o qual nós fomos convocados por um cliente. O comportamento dele demonstra o talento como profissional que ele tem e sua generosidade como ser humano”.

Por mais associada que esteja à sobriedade austera de Neeson, a voz aveludada a serenidade do Celacanto Tiraboschi provoca maremotos ainda mais regados de adrenalina quando sai da boca de um ferrabrás da ação: o inglês Jason Statham. Desde meados dos anos 2000, Statham soa um ator shakespeariano quando é dublado pelo dínamo de São Paulo, como se escuta em “Hobbs & Shaw” (2019), divertidíssimo derivado da franquia “Velozes & Furiosos”. Nele, Jason divide os holofotes com Dwayne The Rock Johnson, por aqui “vozificado” por Guilherme Briggs, popstar da voz. “Tiraboschi é um lorde, que faz tudo com muito carinho e trata todo mundo muito bem, pois gosta de dublar”, diz Briggs.
Nesse trabalho, ele e Armando formando dirigidos por Pádua Moreira, atual dublador de Michael Caine no Brasil. “Tive o prazer de dublar com o Tiraboschi, que é um artista raro e completo. Gosto muito do trabalho dele, pois é um profissional competente, com uma voz belíssima e com uma interpretação irretocável, sempre atento e focado. Ele é um dublador que abrilhanta cada personagem que faz”, diz Pádua. “Eu só o dirigi nesse personagem, o Shaw, porque ele mora em São Paulo e a gente trabalha no Rio. Mas ele, com certeza, é artista da maior qualidade e um dos grandes dubladores do Brasil”.
Statham tem hoje 53 anos. Neeson tem 68 anos. E Tiraboschi, neste 8 de janeiro, chega aos 70 anos, consagrado e admirado. Na entrevista a seguir, ele fala de sua arte e esbanja a elegância que celebrizou seus dotes para interpretar. Parabéns, Celacanto Sagrado.

O que existe de mais peculiar na voz e na interpretação de Neeson e qual é o desafio de dublar esse ator que, há maduro, virou um astro de ação?
ARMANDO TIRABOSCHI:
Liam Neeson está bombando como um ator de ação em uma idade já… “adulta”. Eu também já sou um… “adulto”, digamos assim. É engraçado porque a minha carreira se encontra com a dele. Na dublagem, tenho feito vários trabalhos muito importantes em que é necessária uma dedicação maior, por se tratarem de performances de atores que possuem uma interpretação mais profunda. O fato de o Liam Neeson estar fazendo sucesso agora é consequência de ele ser um grande ator… de ser um ator basicamente de teatro. Os personagens dele são mais introspectivos. Ele vive o personagem. O tipo de interpretação a que ele recorre para fazer seus personagens é um mergulho no comportamento, no pensamento, no raciocínio, nas reações das figuras que encarna. Ele se despe um pouco do Liam para viver os personagens. O que acontece de ele fazer muitos filmes de ação é porque o primeiro (“Busca Implacável”, de 2008) fez muito sucesso e a indústria continua fazendo com que ele trabalhe em outros. Ultimamente, fiz um filme dele com muita sensibilidade – “Nosso Amor”, chamado originalmente “Ordinary Love”, dirigido por Lisa Barros d’Sa e Glenn Leyburn. É um filme que é seu personagem e a esposa dele, no qual Liam trabalha com muito carinho e uma emoção muito refinada. A voz dele cabe na minha por termos um timbre muito parecido e por encararmos a interpretação de maneira parecida. A minha base artística é o Teatro e eu também gosto de entrar muito no personagem. A minha dublagem não é interpretando o personagem, é interpretando o ator fazendo o personagem. Como tenho uma carreira artística em teatro solida, de certa forma, fiz vários trabalhos muito interessantes, encontrei diretores interessantes que fizeram com que eu crescesse na arte de interpretar. Para mim não é tão difícil viajar no ator e, não necessariamente, no personagem que ele está fazendo. Assim, eu posso dar para ele uma veracidade que o ator tanto trabalhou para dar no filme. O que busco de revelação no Liam é essa forma de ele focar na interpretação profunda e não ficar tanto na superficialidade e na aventurinha. Mesmo num filme de aventura, ele tem dramas. O silêncio dele é uma interpretação. A gente que trabalha com isso sabe que uma pausa é muito mais importante que várias palavras que acabaram de ser ditas.

Como você avalia os filmes que ele faz, uma vez que tem dublado vários? O que mais te chama a atenção nessa trama de “Legado Explosivo”, sobre um ladrão que se redime?
ARMANDO TIRABOSCHI:
Acho que ele é um ator que tem um projeto. Ele também é de teatro. Há muito tempo, no século passado, em Nova Iorque, eu o encontrei em um camarim. Eu fui cumprimentar um amigo que fez um trabalho na Broadway. Foi uma grande surpresa percebê-lo na classe teatral, sendo uma pessoa dos nossos. Os filmes que ele faz tem muito a ver com a indústria. Quando se faz um grande sucesso, como ele fez nos primeiros filmes de ação, ele tende a continuar nesse gênero. Mas ele tenta trazer um pouco mais de reflexão nas obras que participa. Nessa, por exemplo, o fato de um ladrão tentar se redimir coloca em xeque a hipocrisia do nosso sistema, universalmente falando. Há uma certa hipocrisia na intensão da justiça do nosso sistema prisional de realmente recuperar a pessoa. Se ela realmente tiver a vontade de se redimir, se ela deveria ter o apoio da sociedade para isso. No filme, a gente percebe que não é isso que acontece no momento. Aliás, estamos vivendo em um momento tão tumultuado e cheio de reviravoltas, onde nada nos dá certeza. Este começo de século tem sido muito complicado. O sistema precisa se rever e se situar para os próximos cem anos. É aquilo que o Tomasi di Lampedusa fala na sua obra “O Leopardo”, “é preciso mudar para que tudo continue como está”. Acho que estamos vivendo esse momento. Existe certa hipocrisia nesse momento de mudança, mas quando você olha para dentro do sistema são os mesmos personagens que vão continuar mandando e vivendo. Não existe uma mudança, é um show pirotécnico para que tudo continue como está. Acho o Liam uma pessoa muito consciente da carreira que tem e a voz dele passa a mesma sinceridade que busco quando dublo.

Que personagens ou atores você dubla com mais frequência? Seu espaço de trabalho é majoritariamente SP? Quais são os estúdios mais recorrentes aí?
ARMANDO TIRABOSCHI:
Um tempo atrás, eu dublava muito o Mel Gibson. Ele eu tenho dublado bastante e vou fazer mais um essa semana. Dublei o Richard Gere, o Laurence Fishburne e dublei Bryan Cranston, por quem me apaixonei pelo trabalho. Foi muito gratificante poder tê-lo feito em “Breaking Bad”, na voz do Walter White, que ele fez dando uma aula de interpretação. Para quem é ator, dublar o Bryan Cranston é uma aventura fascinante. Da forma como eu dublo, fico vendo quais foram as possibilidades que ele resolveu tocar para que o trabalho dele chegasse no ponto que chegou. É uma viagem: o cara é muito bom. Dublo muito em São Paulo, pois é a minha base. Antes da pandemia, eu ia para o Rio dublar alguns personagens. O Mario Jorge (voz oficial de Eddie Murphy) me chamava, mas a minha base é São Paulo. Agora, na pandemia, estou trabalhando em home studio, tive que montar um estúdio em casa. No começo, o pessoal ficou meio reticente em trabalhar com as pessoas em home studio, mas superamos as dificuldades e nos aparelhamos. Tivemos que fazer um esforço e mudar, para estar sintonizado com o momento histórico em que se vive. Você precisa se reciclar, mudar e tentar fazer o melhor possível. Montamos o home studio e, com isso, muitos de nós estamos trabalhando de casa. Faço alguns trabalhos para alguns estúdios do Rio. O home studio me trancou em casa, mas me abriu para trabalhar com mais possibilidade em outros estúdios fora de SP.

Desde quando você dubla? Quantos anos de carreira você tem hoje?
ARMANDO TIRABOSCHI:
Dublo desde 1985. Comecei na Álamo. Eu fazia um espetáculo que se chamava “Fogo na Terra”, do Benedito Ruy Barbosa, com direção do Mario Manzetti. Era um musical que falava sobre os problemas do campo. Era um texto engajado e muito bonito. Os diretores de dublagem da Álamo foram assistir ao espetáculo, porque um dos atores do espetáculo dublava. Eles me viram e convidaram para fazer um teste. Já fazia cinema. Fiz o “Asa Branca”, fiz alguns filmes com o Alfredo Sternheim. Foi Alfredo quem me abriu as portas do cinema. Fiz muitos comerciais, alguns de grande sucesso. O do Epocler criou um bordão e foi um grande sucesso. Depois parei com o comercial porque achei que não era muito a minha praia. Eu tinha um público muito legal e fiel, não queria seguir trabalhado assim. Como eu não era um ator muito conhecido, não tinha muito poder de discussão sob o produto que estava vendendo. Saí do mercado porque poderia vender algo que não iria fazer bem para as pessoas que me seguiam. Eu estava ganhando muito bem com comerciais, mas achei que eu não deveria usar minha carreira de forma inconsciente. Depois dei algumas entrevistas para jornais e comecei a perceber que nem o jornalista que fazia a entrevista tinha muito controle sob o que ele escrevia. Eu falava uma coisa e saia outra. Comecei a ficar preocupado com o meio em que estava vivendo. Resolvi não vender tanto a minha imagem, comecei a dublar e achei que eu tinha uma carreira muito legal ali. Eu entrei em um mundo em que me aproximava intimamente dos trabalhos de pessoas que eram meus ídolos. Isso foi muito fantástico. Era uma forma de me afastar um pouco, de me preparar como ser humano, de aprender e de estudar mais. Achei que a minha carreira poderia me levar a ser uma pessoa séria, que se respeita e respeita o público. Queria ser alguém com consciência do que está fazendo. Nunca fui muito deslumbrado com a carreira, mas o sucesso às vezes te dá a impressão de que você é algo que não é. Muito cedo, resolvi parar com tudo e resolvi mergulhar na dublagem. Aproveitei para mergulhar mais nessa carreira anônima, tanto que não dava entrevista há muito tempo. Agora na pandemia, eu apareci em uma live que o dono da UniDub, o Wendel Bezerra, realizou. Wendel fez vários trabalhos comigo. No começo da carreira dele, nós fizemos o “Tistu, o Menino do Polegar Verde”. Eu fazia o jardineiro e ele o próprio Tistu.

Tiraboschi no teatro, de bigodão, em montagem de “Hamlet”, no TBC, o Teatro Brasileiro de Comédia, sob a direção de Antônio Abujamra, no papel de Laertes, ao lado de Emílio dI Biase, Miguel Magno, Armando Azzari, Denise Stoklos, Katia, Yeta Hansen e Paulo Yutaka

Como aconteceu a sua imersão no Teatro?
ARMANDO TIRABOSCHI:
No tetro, fiz “Hamlet”, com o Abujamra. Fui assistente de direção e trabalhei como ator no espetáculo “Peru”, do Zé Renato. Eu estava indo bem na carreira no teatro, mas resolvi parar tudo. O ator estava bom, mas o ser humano por trás estava precisando aprender muito sobre avida. Aproveitei o anonimato da dublagem para crescer como pessoa. Fui estudar a minha parte política, social e me entender no mundo que vivo como um ser mais interessante. Fui tentar fazer as cosias crescerem fora da exposição. Você crescer em público é muito complicado e eu era muito ingênuo. Nasci em Barretos. Vim para São Paulo com 18 anos e, com 19, já estava tentando procurar o meu mundo. Com 23 anos, já estava começando a carreira artística e não parei mais. Fiz o curso de teatro do Sesi, do Osmar Rodrigues Cruz. Antes de terminar o curso, fui convidado para fazer o espetáculo “Compram-se mentiras e verdades”. Era um espetáculo mambembe, com commedia dell’arte. Achei que era minha chance de me testar fazendo viagens pelo Brasil. Era um caminhão, cuja carroceria virava o palco. Não poderia existir teste melhor para saber se era essa carreira que eu queria seguir ou não. Quando voltei para São Paulo, começaram a me convidar para espetáculos. Para mim era um deslumbre o mundo que estava me metendo.

Como você avalia o ofício da dublagem hoje no Brasil?
ARMANDO TIRABOSCHI:
Estamos passando por um momento complicado, como a mudança do século. Na dublagem, estamos também, sofrendo mudanças muito grandes. Temos uma invasão de animes e trabalhos japoneses que estão criando um novo público, do qual já faço parte. Já dublei personagens ícones dessa turma e é um mundo totalmente novo. Como eu era muito fechado e não dava entrevistas, eu não sou uma pessoa muito conhecida desse público. Sou conhecido pelos trabalhos que fiz, mas não como pessoa. Não sou um especialista nesse mercado, mas é uma nova tendência que começou com o “Pokémon”. Eu dublei o Meowth em “Pokémon” e foi um personagem ícone, que ganhou o coração de muita gente. No começo de tudo, antes de o anime pintar, fui um dos desbravadores desse mundo. A gente dublou, na Álamo, o “Changeman”. Eu era o Change Pegasus. É muito tempo que estou na carreira e deu certo o que fiz. Queria privilegiar a minha voz e fiz com ela um trabalho muito legal, tanto que hoje, eu, como Liam Neeson estou fazendo sucesso depois de certa idade. Estou meio que bombando na dublagem com 70 anos. Quando falo 70 anos, levo até um susto. Nunca ajo como se tivesse 70 anos. Ajo como se eu tivesse com todas as idades que tenho. Um dia eu acordo e visto a idade que quero. Eu não sei o que é ter 70 anos, mas sei todas as idades que vivi. Quando acordo, às vezes, tenho 18 anos, 12, 30. Mas depois de viver tudo isso eu acordo com 108. É como se o peso do mundo estivesse nos meus ombros. Mas a dublagem dá alegria, pois é uma carreira muito legal. Na época em que entrei, ela era muito criticada e o pessoal não gostava muito. Os meus amigos de teatro não curtiam. Quando falei que iria começar a dublar, eles torceram o nariz. Hoje, eles querem entrar na dublagem. Era um preconceito meio bobo. Grandes atores, como o Lima Duarte começaram na dublagem com trabalhos maravilhosos e depois foram para televisão. Eu fiz o caminho inverso: eu me preparei no teatro, na televisão e no cinema e fui dublar. Sinto que a minha carreira, o ofício que me agrada muito e me dá muito prazer, é a dublagem.

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