Legado de Darth Vader revive nas HQs e na TV

Legado de Darth Vader revive nas HQs e na TV

Rodrigo Fonseca

25 de junho de 2021 | 16h07

RODRIGO FONSECA
Em meio há tudo o que há de quadrinho de excelência em nossas bancas – e não é muita coisa – numa linha mais pop, “Star Wars – Alvo Vader”, escrito por Robbie Thompson, sob o apoio de uma horda de desenhistas (Marco Failla, Stefano Landini, Marc Laming, Cris Bolson, Georges Duarte e Roberto Di Salvo) é uma das mais exuberantes provas de que uma narrativa clássica ainda dá gosto de ser saboreada, quando bem preparada. Houve um capricho singular da Panini Comics na edição brasileira, a começar pela boa tradução de Mateus Alencar, narrando um complô pra matar o mais temível dos vilões do cinema. Amparado pelo vozeirão de James Earl Jones nos filmes dos anos 1970 e 80, o mais assustador dos Sith foi concebido a partir de referências das armaduras dos samurais, em especial os de Akira Kurosawa, de quem George Lucas era fã. E como o personagem fez falta na nova fornada da franquia, pilotada por J. J. Abrams, e lançada de 2015 a 2019. Embora ele estivesse lá espiritualmente, como pode ser comprovado neste “Domingo Maior” da Globo, quando “O Despertar da Força” vai ser exibido, às 23h25, em versão dublada. Saca só a excelência do time de dubladores: Adriana Torres é Daisy Ridley (Ray); Renan Freitas cuida de John Boyega (Finn); Philippe Maia dá voz a Oscar Isaac (Poe Dameron); Guilherme Briggs assume as carrapetas vocais de Harrison Ford (Han Solo); Mabel Cezar veste o manto da Princesa Leia, cedendo o gogó à atriz Carrie Fisher; e Sérgio Cantú cuida (muito bem) da versão para o Português das falas de Adam Driver, como Kylo Ren. A produção custou US$ 245 milhões e faturou US$ 2 bilhões.

Resquícios de Darth Vader em “O Despertar da Força”

Em meio à inquietação política da década de 1970, “Star Wars” nasceu da carência de novos heróis com fibra para repaginar o conceito jurássico do bom mocismo à luz da rebeldia junkie, flower power, black power, cinéfila. E na tarefa de dar continuidade à tradição que George Lucas sedimentou nessa era rebelde, Abrams deu conta do risco prestando um tributo ao ethos histórico que originou Luke Skywalker e cia. e indo além disso. Ontem e hoje – ou passado e presente – são uma matéria-prima só no espetáculo narrativo que eleva o realizador nova-iorquino ao status de mestre, arrancando o melhor de suas atrizes e de seus atores, elevando à fervura máxima a montagem de Maryann Brandon e Mary Jo Markey.
Autoralidade é a palavra bússola para se entender “O Despertar da Força”. Às vésperas de preparar as primeiras exibições públicas de “Star Wars – Episódio IV: Uma Nova Esperança”, em 1977, George Lucas, cabeça por trás da saga milionária, convocou seu melhor amigo (e incentivador), o cineasta Brian De Palma (“Os Intocáveis”), para ver os copiões e lhe dar suas impressões sobre o longa-metragem que apresentaria Lorde Darth Vader à Terra. De Palma viu e, ao fim da projeção, recomendou: “Lucas, venda tudo o que você tem, pois você acaba de preparar aquele que vai ser tornar o pior de todos os fracassos da história do cinema”. Prognóstico mais equivocado poucas vezes já se ouviu. Mas ali, mais do que protecionismo de irmão mais velho postiço e mais do que desencontro de expectativas (artesão do suspense, De Palma gosta de sangue e tripas e meias verdades, não de fantasia), havia a miopia frente ao léxico do pop, que, naquela frente, começava a se configurar como uma cartilha e como uma filosofia de mundo. E o pop de Lucas era uma mistura de seriados dos anos 1930 (Flash Gordon), HQs (Buck Rogers) e de épicos samurais de seu deus Kurosawa. De Palma errou, Lucas acertou e o público ganhou um colírio com cores mais reluzentes que a do LSD, permitida para menores e atraente para maiores. Duas trilogias nasceram dali.

Com um roteiro impecável, de viradas, surpresas e homenagens, bronzeado pelo Sol dos Sóis do script americano dos anos 1980, Lawrence Kasdan, “Star Wars – Episódio VII: O Despertar da Força” (“The Force Awakens”) se concentra num momento em que um novo exército imperialista ameaça a paz do Universo: a Primeira Ordem. No comando dela está uma criatura de voz gutural, o Supremo Líder Snoke (Andy Serkis, o Gollum de “O Senhor dos Anéis”). Seus feitos pelo cosmos são mantidos em sigilo. Seu acólito mais sanguinário é o espadachim Kylo Ren, um vilão de primeira grandeza, capaz de ombrear a maldade de Lorde Vader, mas prejudicado por tormentos existenciais relativos à sua origem, que lhe dão tridimensionalidade dramática. As ações da Primeira Ordem abrem as sequências iniciais do longa numa caça ao dróide BB-8, um primo pós-moderno de R2-D2, de igual fofura. Ele detém um arquivo com o paradeiro de Luke Skywalker (Mark Hammil), desaparecido há anos. E Snoke quer destruir o Jedi. Daí começa um jogo de caça e rato pelas estrelas, regado a lirismo. E algo parecido se dá nas páginas de “Alvo Vader”, quando mercenários de diferentes galáxias saem a caça de Seu Anakin Skywalker. Salve o santo Jedismo!

p.s.: Esperado pelo circuitão, após o sucesso que fez nos EUA, “Na Mira do Perigo” (“The Marksman, no original), o mais trabalho de Liam Neeson como protagonista, vai estrear na TV a cabo e no streaming brasileiros neste sábado, no Telecine. A sessão na TV será às 22h. E ele entra ainda no Telecine Play. Na trama, o veterano astro irlandês é um fazendeiro na fronteira do Arizona que se torna o improvável defensor de um jovem mexicano. O rapaz foge desesperadamente dos assassinos do cartel que o perseguiram até os EUA e só o velho rancheiro, armado até os dentes, pode ajudá-lo. É o segundo sucesso seguido do ator desde que a pandemia começou. O primeiro êxito dele, “Legado Explosivo” (“Honest Thief”) acaba de entrar pra streaminguesfera, nas plataformas iTunes, Google Play, Youtube, Net Now, Vivo Play e Sky Play. No Brasil, Armando Tiraboschi é o dublador habitual de Neeson.

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