Leandro Hassum prova (de novo) ser um dos maiores atores do Brasil

Leandro Hassum prova (de novo) ser um dos maiores atores do Brasil

Rodrigo Fonseca

21 de maio de 2018 | 17h41

Valente (Leandro Hassum, majestoso) e Emma (Manuela Kfouri) em “Não Se Aceitam Devoluções”: dia 31 nas telas

Rodrigo Fonseca
Há uns 12, 13 anos, Leandro Hassum dividiu uma mesa de debates – na TV Brasil – com um mito da chanchada dos anos 1950 e 60, Ankito (1924-2009) defendendo o valor do humor de bordão, usado no Zorra Total da época, com paixão tão grande que fez o veterano comediante tocar no ombro do colega mais jovem com admiração, dizendo: “Bravo, palhaço!”. Eram dias de televisão e teatro para Hassum, antes de sua transformação no mais rentável ator de nosso cinema, entre 2012 e 2016. Eram dias em que ainda se lembravam dele como ator teatral com tato para o risco, tendo brilhado em Aracy de Almeida no País de Araca (de 2001, com ele no papel da própria cantora) e se virado em várias figuras no musical Orlando Silva, o Cantor das Multidões (2004). Com o sucesso da franquia Até Que a Sorte Nos Separe (2012-2015), seu posto passou a ser o de midas do humor, lotando salas de exibição com variações dignas de PA (progressão aritmética) e PG (progressão geométrica) de seu ilimitado ferramental gestual. Só que o velho Leandro, o dos palcos, o de Aracy, com seu diapasão dramático, nunca saiu dele. É o que fica de saldo do saboroso Não Se Aceitam Devoluções, um documento imprescindível da evolução de um dos poucos astros do audiovisual (no mundo) hoje cujo nome é uma certeza de bilheterias fartas. Estreia dia 31 de maio. É o melhor trabalho de sua carreira, de longe, pelo esforço de expandir sua dramaturgia para além dos limites da gargalhada, num enredo sobre o ônus e o bônus da paternidade, baseado no fenômeno mexicano Não Aceitamos Devoluções, de Eugenio Derbez.

Com uma direção de arte delicadíssima, sobretudo no uso almodovariano das cores, o novo longa-metragem da Total Filmes é a segunda adaptação para outras línguas do sucesso de Derbez: antes veio Uma Família de Dois (2016), da França, com Omar Sy. A premissa dele e da dramédia com Hassum é a mesma, sendo a nossa mais triste, num ato de coragem do diretor (e músico) André Moraes, preciso na alternância agridoce entre prantos e esgares. Ele teve o Zhang Yimou do Brasil, Hsu Chen, como diretor assistente, alcançando alquimia harmônica, que vira ouro sempre que Hassum improvisa gags ou dá rubricas jocosas aos diálogos. E há uns picos de galhofa quando Zéu Britto entra em cena como um amigo do Guarujá.
 
Alternando-se entre os espinhos e as pétalas da rosa do amor paterno, Como Se Aceitam Devoluções é um Kramer vs. Kramer sabor rolinho primavera: usa-se até a cartilha judicial das tramas de tribunal para temperar sua dimensão de folhetim. Valente, seu protagonista, dá a Hassum uma gradação de sentimentos que vão da apatia ao desamparo. Malandro sem eira nem beira do Guarujá, ele é obrigado a criar um bebê depois que a mãe (Laura Ramos) deixa a menininha em seus braços alegando que ela é filha dele. Toda a sorte de apuros vai se passar com Valente, testando sua coragem, a fim de que ele crie a garota (Manuel Kfouri). Mas, como o Melodrama é um moleque travesso, ele vai aprontar das suas e trazer a mãe da guria de volta, a exigir a guarda da criança pra si.

Hassum em dobradinha com o ótimo Jarbas Homem de Mello: lucidez

Toda virada preserva um espaço para o riso, pelo menos nos espaços em que a dor não alcança esta história sobre o medo da perda. Hassum aqui dribla fórmulas, dribla saídas fáceis, dribla a própria persona que criou pra si, num trabalho de ator-autor. O corpanzil de sua fase GG do passado deu lugar ainda uma silhueta esquálida por fora, mas obesa de comicidade e de surpresas por dentro, sobretudo nas cenas compartilhadas com Jarbas Homem de Mello, um dos maiores talentos de nossos palcos (vide Chaplin e Cabaret) ainda pouco usado no cinema. Ele é o empresário de Valente: um lampejo de lucidez na vida deste pai apaixonado. Valente é príncipe no reino da fantasia das famílias improvisadas do presente. O que André Moraes faz com Hassum a partir do original de Derbez é abrir uma reflexão sobre as novas composições de clã que temos hoje, rascunhando um potencial blockbuster a partir do desejo de reinvenção de um de nossos melhores atores em atividade nas telas.
Para sintetizar o que Hassum significa para o nosso cinema, talvez fosse o caso de pedir licença aos anjos e dizer: “Bravo, palhaço!”. Segue em frente…