Leandro Hassum na medida da excelência

Leandro Hassum na medida da excelência

Rodrigo Fonseca

12 de novembro de 2021 | 16h03

Leandro Hassum realfabetiza nosso afeto em “Amor Sem Medida”: dia 18 na Netflix

Rodrigo Fonseca
Só quem teve o gáudio de ver Leandro Hassum no teatro, coadjuvando em “Orlando Silva – O Cantor das Multidões” ou assoprando “Três Apitos” em “Aracy de Almeida no País da Araca”, sabe dimensionar quão amplo é o ferramental cênico esmerilhado pelo comediante de maior sucesso do cinema brasileiro nos últimos nove anos. Em 2012 completa-se uma década de sua promoção para protagonista em longas-metragens, tendo como marco zero o fenômeno que foi “Até Que a Sorte Nos Separe”. O primeiro filme da franquia vendeu 3.435.824 ingressos e faturou R$ 34.802.906,00. Os dois títulos seguintes, que arremataram o conceito estético de neochanchada (uma crônica de costumes voltada para a ascensão das classes C, D e E sob o cogito do “consumo, logo existo”), contabilizaram respectivamente 3.988.386 pagantes/ R$ 45.355.454,00 e 3.329.770 espectadores/ R$ 42.251.460,00. Entre eles, ele ainda emplacou “O Candidato Honesto”, visto por 2.298.445 pessoas, faturando R$ 25.067.100,00. São cifras que só vimos parecidas, neste século, com “Se Eu Fosse Você” I e II (2005-2009) e com abiloladas (e encantadoras) tramas protagonizadas por Ingrid Guimarães. Mas, em meio à sua trajetória de Midas, Hassum teve a inteligência de atentar para o chamado da evolução do mercado e notar que a streaminguesfera estava se estabelecendo como uma força inclusiva. Sem abrir mão das telonas, que o consagraram – como comprava sua zepelíntrica participação em “O Auto da Boa Mentira”, lançado em circuito no primeiro semestre -, LH topou fazer rir nas veredas da Netflix e acertou no milhar. Nos mesmos moldes do que Adam Sandler fez nos EUA, a partir de “Os 6 Ridículos” (2015), ele passou a emendar projetos com o Grande N, começando por “Tudo Bem No Natal Que Vem”, em 2020.

Com aquela história natalina, lançada via streaming em meio à pandemia, Hassum contaminou o planisfério internauta de alegria, e surpreendeu quem não conhecia (o povo que não vai ao teatro) com uma interpretação devastadora, brincando de James Stewart. Agora, quando menos se espera, ele promete comover miocárdios e alargar esgares realizando uma vontade antiga, ao refilmar “Corazón de León” (2013). É uma empanada do diretor Marcos Carnevalle sobre um tiozão de estatura PP e charme GG, celebrizando “na gringa” por Guillermo Francella. De tão bem sacada, a produção argentina foi refilmada na França, em 2016, com Virginie Efira e Jean Dujardin, sob a direção de Laurent Tirad. No dia 18, a Netflix mostra o que o diretor Ale McHaddo (de “Osmar, a Primeira Fatia do Pão-de-Forma”) fez em “Amor Sem Medida” a partir da premissa de nossos Hermanos, apoiado na covalente química entre Leandro e uma Juliana Paes com ares de Gina Lollobrigida em “Quando Setembro Vier” (1961). O repertório gestual de JP só faz crescer e é usado com sabedoria aqui.
Cartografia de intolerâncias, “Amor Sem Medida” foge da trivialidade, amparado num par de estrelas que nos dão quaquaquá, mas vão além dele, promovendo autopsias em corpo vivo do que seus personagens têm de mais machucado por dentro. Assim como Virginie e Dujardin levavam a trama de Carnevalle a abismos mais profundos, acolchoando a imersão da plateia no Ortobom do carisma, Juliana e Hassum fazem a advogada Ivana e o cardiologista Leão avançarem múltiplas casas no tabuleiro do humanismo. Ela é uma empoderada artesã da Justiça, que aprende a lidar com a frustração no finado casamento e com o cabresto imposto pela mãe (uma Elizângela em estado de graça). Ele é um ás da cirurgia cardíaca, que luta contra o desdém do mundo para com sua altura quase diminuta. Da aproximação de ambos brotam confusões que nos levam ao riso frouxo (como um duelo de dança com Rafael Portugal) e quiprocós que nos sensibilizam. A menção a um ícone da música breganeja – capaz de nos lembrar de que “nada fica, nada ficará” – é uma sacada singular (como piada interna) do roteiro de Michelle Ferreira. Mas o ponto de ebulição está na maneira como Hassum e Juliana nos mostram que é possível fazer RomComs (comédias românticas) por aqui. E esse nunca foi nosso forte.

Um beijo que serve de analgésico às angústias da plateia entre Ivana (Juliana Paes) e Leão (Hassum)

Nunca faltou o casamento de namoro e piada no nosso cinema clássico, graças às chanchadas. Mas o tom do gênero – a comédia carnavalesca – era outro, mais musical. Apesar de um arranque memorável, em nosso cinema moderno, com “Todas as Mulheres do Mundo” (1966), de Domingos Oliveira (1936-2019), o filão nunca teve muito realce num país que herdou do neorrealismo (por conta de chagas sociológicas) um apreço maior pela comédia de costumes. Foi o que se viu em pérolas como “Vai Trabalhar, Vagabundo” (1973), de Hugo Carvana (1937-2014). Mesmo seu seminal “Bar Esperança” (1983) aponta mais prum balanço geracional pós ditadura, e para um certo fino da fossa, do que para a doçura da RomCom. Tivemos “Lua de Cristal” (1990), que fez de Xuxa sua Meg Ryan e de Sérgio Mallandro seu Tom Hanks. Mas, ali, estávamos mais próximos da fábula. No teor mais realista, raras exceções brotaram de nossa filmografia neste século, como “Separações” (2002); “Mais Uma Vez Amor” (2005), que tinha Juliana e era uma lindeza; e “Malu de Bicicleta” (2010). Daí a importância de “Amor Sem Medida”.
Nele, de novo (só que melhor), Juliana conversa com a tradição das heroínas românticas, lembrando a Jane Fonda de “Descalços no Parque” (1967). Nele, Hassum faz a gente entender que a rotina tem seu encanto, que da vida nada se leva e que a felicidade não se compra. É um ator que realfabetiza nossa afetividade pela cartilha da compreensão do próximo. Que esse casamento dele com a Netflix possa render algo à altura do que “Joias Brutas” esteve para Adam Sandler. Porque é doído perceber que nossos cineastas que investem em universos do drama não tenham ainda percebido a fera na selva que pode sair da alma de Hassum. Quem viu sua Aracy a conhece. Quando Ankito (1924-2009) certa vez disse “Hassum é do tamanho do Brasil”, parte do que sua frase quer dizer é: Hassum tem tanta diversidade quanto o Brasil. Fica a dica.

p.s.: Escrito pela estreante Beatriz Malcher durante as atividades da 6ª turma do Núcleo de Dramaturgia Firjan SESI, o drama “Onde está Liz dos Santos?”, que estreia em 19 de novembro no Teatro Firjan SESI Centro, reflete sobre as relações de poder nas sociedades autoritárias e a memória e força das vítimas nas narrativas históricas. Com direção de Tatiana Tiburcio, o espetáculo se desenrola em uma cidade dominada por um grupo de milicianos, onde a posse de armas está liberada. Maria das Graças busca sua filha, Liz, que desapareceu após ser levada à delegacia local. A busca expõe uma trama de violência que envolve o Estado, a alta burguesia agrária e a igreja. Paralelamente, o pastor da cidade se confronta com o seu papel ambíguo neste cenário. Para escrever a dramaturgia, a autora se inspirou em entrevistas que leu com pessoas que moram em zonas de milícia. No elenco, estão Anderson Guimarães, Clarissa Menezes, Fernanda Dias, João Mabial, Julio Wenceslau e Luciana Lopes. “Li bastante sobre milícia nos últimos meses para construir a trama, mas a peça parte de um ambiente dominado por esse grupo para refletir sobre as posturas autoritárias, violentas e fascistas que fazem parte da história do Brasil e do mundo. De tempos em tempos, essas posturas ficam mais afloradas”, avalia Beatriz.

p.s.2: No dia 31 de dezembro, a Cinemateca Francesa vai projetar “Stallone Cobra”, em 70mm, consagrando a estética de George Pan Cosmatos (1941-2005).

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