Leandro Hassum faz ‘Ho!Ho!Ho!’ no streaming

Leandro Hassum faz ‘Ho!Ho!Ho!’ no streaming

Rodrigo Fonseca

04 de dezembro de 2020 | 11h53

Leandro Hassum entra nas veredas onde Adam Sandler é rei com fome de rabanadas e aplausos: “Tudo Bem No Natal Que Vem”

Rodrigo Fonseca
Avesso a maçãs na maionese, cansado da piadinha “é pavê ou pá cumê” e inconformado com o uso da uva passa em pratos salgados, Jorge, a medida de humanismo da rabanada “Tudo Bem No Natal Que Vem” (na streaminguesfera desde ontem), evoca um velho rito midiático desta temparada de festas de fim de ano. Apoiado num trabalho de maquiagem pautado pela delicadeza (assinado por Martín Macías Trujillo) e amparado numa direção de arte primorosa de Rafael Targat, o novo longa-metragem da Netflix, estrelado pelo Chevy Chase da Ilha do Governador (aka Leandro Hassum), puxa uma lembrança inevitável da história da menina Virginia O’Hanlon Douglas (1889-1971). Ao longo dos anos 1990, em Ramos, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, o professor de Inglês José Ricardo Fazolo costumava presentear estudantes com o causo de Virginia, filha de um médico de Nova York, que, em 1897, mandou uma cartinha para o jornal “The Sun”, perguntando: “Papai Noel existe?”. À época, os editores resolveram publicar a enquete dela, seguida de uma resposta: “Sim, VIRGÍNIA, o Papai Noel existe. Ele existe tanto quanto o amor e a generosidade e a devoção existem, e você sabe que eles abundam e dão à sua vida sua mais beleza e alegria. Como este mundo seria triste se não existisse o Papai Noel. Seria tão sombrio como se não existissem VIRGINIAS”. Aluno do Fazolo, que partia desse episódio do século XIX para congraçar turmas na homilia da humildade, o P de Pop se arrisca a completar: como o mundo seria mais azedo se não houvesse filme de Natal; e como o cinema brasileiro seria sem graça se não houvesse Leandro Hassum.

Quem teve a sorte de vê-lo em cena, nos palcos, em “Aracy de Almeida no País da Araca” (2001) ou em “Orlando Silva, o Cantor das Multidões” (2004) tem a medida do reator nuclear que existe por sob seu tom varejão de fazer rir. E, mesmo no riso, ele criou um estilo autoral, na estratégia do comentário (repare que ao fim de seus melhores diálogos, ele muda sua entonação e faz um comentário irônico, hilário). Brilha ainda na estratégia do descontrole, onde grita e esbugalha os olhos em uma máscara plástica de múltiplas moldagens. Hassum é o Brasil: a figura pícara que usa a malandragem para debelar os desafios, deslizando na manteiga dos afetos quando o calo da solidão aperta. Hassum é o melhor do humor do Brasil: é deboche e é carinho; é o bacon da farofa Yoki. E seu atual personagem, Jorge é uma figura afetivamente rica para um astro que encarnou a essência da neochanchada com a franquia “Até Que a Sorte Nos Separe” (2012-2015): há nele, o simbolismo da subjetivação de classes sociais mais pobres que alcançam, na emergência do $, alguma chance de fugir da invisibilidade. O diferencial de “Tudo Bem No Natal Que Vem” é a sacada de olhar para esses novos atores/ atrizes sociais pelo prisma de um trauma pessoal: no caso, uma absoluta rejeição aos folguedos de 24/12. Jorge nasceu no dia de Natal e, como ele mesmo diz, é impossível concorrer com o outro aniversariante da data, o menino Jesus. E ele mantém esse enfado até o fim, embatucado com as ceias de seu clã, enfurnado em conversas por telefone com um pai ausente que, num momento preciso, entra em cena na figura de Daniel Filho, um titã do riso. Soa oportuno (e comovente) a opção de chamar um dos realizadores de maior sucesso de público do país (em cartaz com “Boca de Ouro”) para contracenar com um campeão de público GG como Hassum. Na trama, um acidente faz com que ele fique preso em loop, sempre na véspera de o Cristo nascer. E a cada volta, descobre algo novo sobre si e sobre a convivência com seus pares, aprendendo com a mulher, Laura (Elisa Pinheiro, impecável em cena), a ter filtro e a saber pedir desculpas. O Fazolo lá do Natal de Ramos diziam que pessoas especiais gravitam entre a paixão e a razão, ansiosas por resultados, como se vê em Jorge. Mas ele também dizia para suas turmas que é necessário dar um passo atrás e saber refletir, saber aprender. É essa a dinâmica desse doce filme. De cada parente chega um aprendizado, sendo a prova mais difícil imposta pela filha, Aninha (Arianne Botelho), um achado do filme.

O Bom Velhinho do humor nacional

Construído pelo duo Bebeto x Romário do humor nacional (o roteirista Paulo Cursino e o diretor Roberto Santucci) com passes a gol, “Tudo Bem No Natal Que Vem” brinca com a matéria mais preciosa do cinema nos anos 2000/2010: a memória. Lembro, logo existo é o cogito cartesiano do audiovisual, não apenas pela marcha do “recordar é viver”, mas pelo exercício político da recordação como um substantivo concreto da afirmação da subjetividade e querência. Nos gramados do pop, o tema rendeu, na década passada, duas obras-primas, ambas de 2004: “Brilho Eterno De Uma Mente Sem Lembranças” e “Como Se Fosse a Primeira Vez”. Este último parece ser o farol ideal para se iluminar a dinâmica de Santucci e Cursino, por razões que estão na tela e fora dela. A primeira, quase óbvia, é que ninguém no audiovisual deste país conseguiu ser mais Drew Barrymore na construção de uma figura feminina forte e eivada de amor do que a já citada Elisa Pinheiro. A sequência em que ela, no papel de Laura, combalida pelas cacetadas da vida, olha para Jorge com olhos de panetone Bauducco e diz “eu espero este dia para olhar para trás e encontrar aquele Jorge de dez anos atrás” é de espatifar o peito. É uma atriz em seu apogeu, num equilíbrio raro entre doçura e tensão, como já demonstrara em “Os Espetaculares”, hoje no catálogo da Amazon Prime.

Ainda na similitude com “Como Se Fosse…”, destaca-se nesta produção de André Carreira a recorrência como dispositivo dramatúrgico: uma mesma situação se reitera, ano a ano, numa repetição de situações que, a cada retorno nietzscheanamente calculado, voltam ainda mais divertidas. E a direção de Santucci é suficientemente madura para explorá-las e acomodá-las na estrutura narrativa de crônica familiar. Estrutura essa que evoca ainda outro sucesso com foco na desatenção do esquecimento: “Click” (2006). Tanto “Click” quanto “Como Se Fosse…” têm o mesmo protagonista: Adam Sandler, hoje o astro rei da Netflix. Imortalizado em nossos tímpanos na dublagem de Alexandre Moreno, Sandler tornou-se, entre 1998 (com “O Rei da Água”) e 2011 (com “Cada Um Tem a Gêmea Que Merece”), o ator de arrecadação mais polpuda e estável da comédia americana, emplacando uma média de US$ 100 milhões por filme. E quando sua conexão com o público pagante deu sinais de cansaço (com “Juntos e Misturados”, em 2014), ele partiu para as plataformas digitais e, lá, virou imperador. Quem sabe “Tudo Bem no Natal Que Vem” não pode ter a mesma função na trajetória de Hassum, que dominou as telas do Brasil entre 2012 e 2015, num acerto atrás do outro, com especial brilho em “O Candidato Honesto” (2014). A analogia com Sandler ganha aí mais um vértice. Este ano, Adam ganhou o Independent Spirit Award de melhor ator por “Joias Brutas” (“Uncut Gems”), dos irmãos Josh e Benny Safdie, um thriller que, esta semana, apareceu na lista dos melhores de 2020 da revista “Les Cahiers du Cinéma”, a bíblia da cinefilia.

A família do longa dirigido por Roberto Santucci e escrito por Paulo Cursino

Ao abrir seu pódio para os Safdie, a “Cahiers” consagra Sandler como um gigante, assim como fez, nos anos 1960, com Jerry Lewis, com quem Hassum contracenou em “Até Que A Sorte Nos Separe 2” (2013). Sandler já ia muito bem, obrigado, sem essa distinção, mas ela tem algo de simbólico para a História. Ela quebra com o ranço do esnobismo contra ídolos do cinemão e abre espaço para que, no futuro, Sandler seja estudado em suas singularidades. Hassum já fez participações em filmes fora da seara do riso. E é inexplicável o fato de ele não ter ganho todos os prêmios de melhor coadjuvante por seu desempenho como Carlos Imperial em “Simonal” (2018), um filme potente pacas. Quem sabe, a “Cahiers” ou uma “Cahiers” qualquer um dia não passe em revista tudo de bom que ele construiu como marca identitária para a comédia no Brasil. Quem sabe o cinema de Santucci e Cursino – hoje também na Amazon com o hilário “No Gogó do Paulinho” – não possa ser visto, algum dia, com o respeito que merece, de modo a se entender a crônica de costumes que eles têm edificado longa após longa, acerca das mudanças na pirâmide econômica deste país. Será que esse reconhecimento virá? Talvez Papai Noel o traga. Aquele mesmo Bom Velhinho que instigava a imaginação da menina Virginia e as aulas inesquecíveis do professor Fazolo. Aquele mesmo Bom Velhinho sem o qual o mundo fica um lugar triste. Tão triste quanto é um mundo que não valoriza Adam Sandler e não para pra dizer um “muito obrigado” a Leandro Hassum. Feliz Natal, grande ator.

p.s.: Na medida da excelência em “Veneza”, de Miguel Falabella, Danielle Winits é outro dos bons motivos para se ver “Tudo Bem No Natal Que Vem”, brincando de chanchada no papel da femme fatale que tira Jorge do prumo. A sequência do vídeo que ela grava com ele é impagável.

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