‘Le Loup’, o uivo da BD

‘Le Loup’, o uivo da BD

Rodrigo Fonseca

22 de março de 2020 | 13h31

Rodrigo Fonseca
Espécie de “Fernão Capelo Gaivota” dos anos 2010, de mirada ecológica e existencialista, “Le Loup”, doída HQ escrita e desenhada pelo pintor e quadrinista Jean-Marc Rochette (de “O Perfuraneve”, filmado por Bong Joon-ho), é um best-seller (35 mil exemplares vendidos) que se impõe como um bálsamo afetivo nesta quarentena em sua observação sobre os processos de convivência das forças da Natureza. Baseado em uma conversa que o artista gráfico francês de 63 anos teve com profissionais do pastoreio, e alimentado por suas próprias vivências como guia de montanhas, a BD (banda desenhada, nome que parte da Europa dá a graphic novels) é uma das aquisições mais esperadas pela indústria de animação de sua pátria. Julien Bisaro está preparando um desenho animado com base no gibi laureado com Prix Wolinski de la BD du Point13, hoje em circulação com o selo de qualidade da FNAC na França. Com ecos de “O Velho e o Mar” e de Jack London, a narrativa poética de Rochette – centrada na solidariedade em instâncias de solidão – aborda a relação (inicialmente de ódio; depois, de respeito) entre um pastor, o velho Gaspard, e um lobo no Maciço dos Écris, nos Alpes Franceses. Em sua retidão e seu estado de abandono, tendo como único parceiro o cachorro Max, o pastor de Rochette atira contra feras que ameaçam seu rebanho, sem se preocupar com o fato de haver relações de maternidade entre as bestas que abate. Mas o rifle de Gaspard e as presas lupinas podem ter o mesmo potencial de destruição em um ambiente gelado, de desolação. Mais difícil do que morder ou atirar é estender sua mão para o inimigo. É essa a reflexão que Rochette nos oferece, amparado nas cores exuberantes de Isabelle Merlet. Os diálogos são curtos, à moda Hemingway, mas de uma precisão cirúrgica. Que a tradução dele chegue entre nós em breve.

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