Lázaro Ramos na ‘medida provisória’ da direção: visita ao set do novo cineasta do país

Lázaro Ramos na ‘medida provisória’ da direção: visita ao set do novo cineasta do país

Rodrigo Fonseca

13 de maio de 2019 | 13h33

Taís Araújo em cena fotografada com a luz de Adrian Teijido em “Medida provisória”, a estreia de Lázaro Ramos na direção de longas-metragens: distopia e conflito racial

Rodrigo Fonseca
Frente à forte expectativa na Europa acerca de “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, o novo longa-metragem do cearense Karim Aïnouz, no Festival de Cannes, cuja 72ª edição começa amanhã, abriu-se uma conversa sobre cinema brasileiro no balneário, entre os críticos mais chegados à América Latina, e o papo caiu em “Madame Satã” (2002) e em seu astro, Lázaro Ramos, que agora passa à direção. Primeiro sucesso mundial de Karim, a saga inspirada nos feitos do malandro capoeirista da Lapa revelou o talento de Lazinho ao audiovisual em uma projeção na Croisette, que, hoje, encara com forte expectativa e bons augúrios a empreitada do ator baiano no posto de cineasta: “Medida provisória”, cujas filmagens terminaram há uma semana. Seu primeiro longa-metragem fala sobre um amanhã distópico de maneira engraçada, mas consciente dos dilemas raciais do Brasil. O P de Pop, do Estado de S. Paulo, visitou um dos sets no Rio, na Praça da Harmonia, no bairro da Gamboa, no centro da cidade. Taís Araújo, Seu Jorge e o anglo-brasileiro Alfred Enoch, o Dean Thomas da franquia “Harry Potter”, estrelaram a sequência que acompanhamos, numa descida de ladeira, num papo descontraído. Suas fotos de divulgação são de Elisa Bessa.

Taís é a médica Capitu que testemunha um rebuliço no país, causado por uma decisão do governo que pode expatriar os negros residentes no Brasil. Enoch é o namorado dela, Antonio, um advogado aguerrido em suas causas, que tem um primo jornalista – papel de Seu Jorge. O elenco ainda traz duas titãs da TV: Adriana Esteves e Renata Sorrah.
“Essas três mulheres são atrizes que se apropriam de seu espaço, sendo autoras de seu estar no mundo com intérpretes, cada uma com sua estratégia”, diz Lazinho, apelido que sintetiza o afeto com que Luiz Lázaro Sacramento Ramos é tratado entre seus colegas. “Renata tem uma vitalidade de quem está no começo de carreira, mas, ao mesmo tempo, expõe uma doçura ao se colocar na corda bamba para se renovar. Adriana se emociona à cada take, apiedando-se e apaixonando-se pela personagem, com uma energia que pula em cima da gente. Já Thais… é difícil até fazer elogios a ela, não só porque eu convivo de perto com ela, mas porque sei de sua dedicação e de sua paixão pela profissão. Fizemos uma cena de thriller com ela cujo resultado me deu muito orgulho e emoção. Coisa de correria. E ficou bom. O filme, com essas mulheres e outras tantas, ganha outros significados que vão além do roteiro. É Mariana Xavier… é Dona Diva Guimarães…Isso é muito bonito. Histórias pessoais que são emprestadas às personagens”.

O diretor instrui Alfred Enoch nos sets

No período que chamamos de Retomada (1995 a 2010), referente à reconstrução e à busca de autonomia do cinema nacional após a degola da Era Collor, com a extinção da Embrafilme, em 1990, Lázaro despontou como um modelo de brasilidade e como sinônimo vivo de surpresa no jogo da atuação: nunca se via seu gestual repetido, cada papel dele proporcionava ao público uma nova descoberta sobre nosso país. Do trabalho inicial com Karim (que chega a Cannes em 2019 com Fernanda Montenegro no elenco de seu “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, com exibição agendada para o dia 20, na mostra Un Certain Regard), o ferramental dramático do ex-patologista, então aspirante a astro, vindo da Bahia, foi talhado pelas mãos de mestres. Passou por Hector Babenco (“Carandiru”), de Jorge Furtado (no belíssimo “O homem que copiava”), de Sergio Bianchi (“Quanto vale ou é por quilo”) e de Sergio Marchado, que pôs seu rosto de volta na paisagem cinéfila cannoise ao exibir “Cidade Baixa”, em 2005. Foram dele papéis centrais em filmes inesquecíveis que servem de argamassa em sua metamorfose em realizador. A ponte para esse novo trabalho tem como inspiração livre a peça “Namíbia, não”, de Aldri Anunciação, que ele mesmo dirigiu nos palcos, em 2011, no Rio.

“Dirigir é saber tomar partido, saber escolher aquilo que é melhor para uma história, e pra manter a paixão de todo mundo acess, o que é cansativo. Sorte foi ter uma equipe forte como essa”, diz o ator, sempre em longas reflexões estéticas com o fotógrafo Adrian Teijido (de “Elis” e “O palhaço”). “Saber transmitir afeto à equipe e ao elenco foi tudo pra mim aqui. Eu tomei aula de técnica cinematográfica antes de embarcar nessa e me arriscar como cineasta, estudando lente, eixo, para não vacilar aqui. Só que é fundamental saber transmitir os afetos que eu tenho a partir dos personagens que estou ajudando meu elenco a criar”.

Na tropa de choque do que define como uma história de amor em um Brasil de distopia, Lázaro conta ainda com (a já citada) Mariana Xavier, Pablo Sanábio, Dan Ferreira, Flavio Bauraqui, Pedro Nercessian, Hilton Cobra e “muitas outras atrizes e atores bacanas, capazes de trabalhar de forma harmônica”.

Com dois astros talhados pelo cinema de língua inglesa nas mãos, como Seu Jorge e Enoch (o Wes Gibbins de “How to get away with murder?”), Lázaro mergulhou em modos de atuar bem distintos. “Nesse trabalho que fizemos, esses dois representam duas escolas diferentes de atuação. O Alfred tem uma técnica aprendida com o pai dele (o respeitado ator inglês William Russell), que se prepara como se fosse uma peça de teatro. Ele veio para o Brasil e não descansou, trabalhando o texto, que vem com uma naturalidade e um domínio, aberto à maleabilidade com os colegas. O olho dele brilha, nessa história sobre afeto pelo seu lugar, com a descoberta pela sua identidade, pois ele é filho de mãe brasileira”, conta Lázaro. Seu Jorge fica buscando em si e nas companhias algo que trava a vivacidade dele para que não construa o óbvio. Muitos takes chegam de uma maneira que parece que não encaixam na cena, até que ele, de repente, compõe uma música e traz coisas surpreendentes. É uma técnica, bonita”.

Com tons de comédia, thriller, drama e (sobretudo) amor, “Medida provisória” dialoga com liberdade com o enredo de “Namíbia, não”. No filme, Capitu (“Ela está no auge da carreira como médica”, diz Taís Araújo) e Antonio (Enoch) têm que encarar uma imposição legal do governo que resolve mandá-los para fora do país. Na versão teatral, a população negra brasileira, que na peça era chamada de “melanina acentuada”, era deportada para a África. Antônio está em casa quando a medida é imposta, mas a doutora está em fuga pelas ruas. Seu Jorge encarna um jornalista que é primo de Antonio. Em meio ao tumulto que se instaura no país, o casal de protagonistas fará de tudo para se reencontrar nesse roteiro assinado por Lázaro, Aldri (que estrelou o espetáculo teatral na qual o enredo se baseia, ao lado de Flávio Bauraqui), Elisio Lopes Jr. e Lusa Silvestre (escriba responsável pelos diálogos fenomenais de “Estômago”). Ele e Lazinho trabalharam juntos no fim do ano passado também numa versão ainda inédita do romance policial “O silêncio da chuva”, de Luiz Alfredo Garcia-Roza, com Daniel Filho na direção. Daniel está nos créditos de produção de “Medida…”. “A sinopse não é exatamente o que quero contar. É preciso se dissociar dela. Fomos por humor, pro amor”, diz Lázaro, que se usou como referência a artesania narrativa de nossos hermanos argentinos.

“Tem uma coisa no cinema da Argentina, em filmes como ‘O filho da noiva’, de que eu gosto muito, que é a habilidade deles de nunca irem direto aos assuntos que norteiam suas narrativas, conquistando o espectador por diferentes camadas da dimensão humana. A gente quis ir por um caminho assim. Tivemos todo um cuidado de dar uma assinatura pessoal pro tom de comédia no filme sem cair para a caricatura ou para a farsa. Na direção de arte, Tiago Marques fez um trabalho incrível de cenografia criando um futuro retrô”, define Lázaro. “Nossa ideia é mostrar que a indústria se acelerou tanto que fez as pessoas do futuro desejarem peças únicas do passado. São muitas camadas. E não fazia sentido eu aparecer aqui, como ator. Essa é uma história que eu resolvi contar de outro jeito, como diretor, contando com a sabedoria de muita gente para isso, inclusive a dos cineastas que me formaram. Aprendi muito com eles. Toda lição é válida. É vida”.

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