Lavoura perpétua no Estação Virtual

Lavoura perpétua no Estação Virtual

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2021 | 08h56

RODRIGO FONSECA
No empenho de revisar o que o cinema brasileiro fez de melhor nos últimos 35 anos, de carona no trabalho que os cinemas de rua de Botafogo, do Centro e da Gávea fizeram em prol da cultura audiovisual do país, a obrigatória mostra online Estação Virtual jogou novos holofotes sobre o que talvez seja o melhor filme feito neste país neste século: “Lavoura Arcaica” (2001). São 20 anos de pura excelência para o longa de estreia do diretor de TV Luiz Fernando Carvalho, que tem “A Paixão Segundo GH” pronto pra exibir, assim que a covid-19 nos der uma trégua.Tem um mar de filmes – são 180 ao todo – no festival idealizado pelo Grupo Estação, para propor uma triagem de Brasis, que pode ser acompanhada no www.grupoestacao.com.br. Lá estão pérolas recentes como “Auto de Resistência” (2018), de Natasha Neri e Lula Carvalho, e ficções como “Introdução à Música do Sangue” (2015), de Luiz Carlos Lacerda. A curadoria é assinada por Adriana Rattes, Cavi Borges, Liliam Hargreaves, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque e Luiz Eduardo Pereira de Souza. Tem joias ali, como “A Febre”, de Maya Da-Rin; “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral; “Lá do Alto”, de Luciano Vidigal; “Ralé”, de Helena Ignez; e “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira. “Eu Sei Que Vou Te Amar” (1986), de Arnaldo Jabor, foi a atração de abertura da retrospectiva, que segue até o dia 31.

É difícil saber se “Lavoura Arcaica” (2001) é um filme ou se é um
tratado de semiologia sobre a linguagem da conciliação. Toda dúvida
acerca do longa é tolerável e bem-vinda uma vez que sua
direção foi assinada pelo realizador de novelas
(“Renascer”) e minisséries (“Os Maias”) seminais, que abriu o extinto programa “Terça
Nobre”, da TV GLOBO, em 1991, com um faroeste: “Os Homens Querem Paz”. A
base da produção foi o romance homônimo de Raduan Nassar, carregado de
influências da cultura libanesa. No livro, o jovem André, que nutre
uma paixão que não ousa dizer seu nome pela irmã, volta para seu lar
após um exílio imposto por si mesmo e por convenções da tradição
árabe, galvanizadas pela imagem de um pai quase totêmico. Na tela,
Raul Cortez assumiu o papel do líder daquela população cindida por
conflitos mudos, tendo Juliana Carneiro da Cunha (primeira-dama do
Théatre du Soleil na França) como um signo maternal. André foi interpretado por Selton Mello,
que, feito metralhadora verborrágica, conquistou o prestígio da crítica
em saraivadas de falas aquecidas pela fúria.

Visto por 143.860 espectadores pagantes nas salas de exibição e descoberto por multidões em projeções e debates em universidades, “Lavoura Arcaica”
teve um enorme impacto sobre a crítica, que o definiu (nas palavras do jornalista e escritor
Carlos Alberto Mattos) como “a primeira obra-prima do cinema
brasileiro no século 21”. Houve inclusive quem traçasse paralelos
entre o filme e “Limite” (1931), de Mario Peixoto. A correspondência
talvez venha pelo fato de os dois – ambos calcados na relação do
espectador com o tempo, a partir da câmera – não terem criado uma filiação, permanecendo como dois exercícios que não criaram uma escola
aparente na história do cinema brasileiro.

Além de quase um quilômetro de artigos, resenhas e reportagens
em jornais de todo o país, o filme inspirou livros como “Luiz Fernando
Carvalho sobre o filme Lavoura arcaica”, “Fotografias de um filme –
Lavoura arcaica”, de Walter Carvalho, e “Porvir que vem antes de tudo”,
de Renato Tardivo. Inspirou ainda o filme “Nosso diário”, um
documentário dirigido por Raquel Couto a partir de uma pesquisa feito
pela jornalista Helena Salém. Walter Carvalho assinou a fotografia do
longa, laureado com 44 prêmios, entre os quais estão sete Candangos no Festival de Brasília de 2001.

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