‘Lavoura Arcaica’ renasce, 15 anos após sua estreia, no Festival do Rio

‘Lavoura Arcaica’ renasce, 15 anos após sua estreia, no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca

23 Setembro 2016 | 15h35

Cenas de bastidor de

Cenas de bastidor de “Lavoura Arcaica” que vai ser homenageado no Festival do Rio dia 13 de outubro por seu aniversário de 15 anos: 50 prêmios internacionais

RODRIGO FONSECA

No princípio, sempre haverá o verbo, ou, em certos casos, a maçã do verbo: “A figura da terra, eu não tenho como negá-la, é, sem dúvida, a imagem mais primordial para o meu trabalho. E meu protagonista é quase um musgo, um ser pré-cultural, a quem eu sempre imaginei como uma planta”, disse Luiz Fernando Carvalho em um depoimento imortalizado nas páginas do livro Sobre o filme Lavoura Arcaica (SP, Ateliê Editorial, de 2002). “Os heróis são justamente aqueles indivíduos cercados pela tragédia, que são movidos a lutar contra sua condição trágica. Porém, no caso do meu protagonista, André, seu inimigo é invencível, pois é o próprio Tempo, uma força irremediável”.

 Irretrocedível em sua condição de ensaio sobre Vontade e Eternidade, numa relação de parentesco indireta (mas necessária) com Limite (1930), de Mario Peixoto, Lavoura Arcaica (2001), monumento cinematográfico de nossa Retomada, voltará à tela grande na comemoração de seu 15º aniversário em uma projeção de honra no Festival do Rio 2016 (6 a 16 de outubro). Laureado com 50 prêmios internacionais em festivais como os de Montreal, Biarritz, Valdivia e Havana, a produção extraída de um diálogo com o romance homônimo de Raduan Nassar será projetada no dia 13 de outubro no Estação Botafogo 1 e no dia seguinte, às 19h, no Reserva Cultural, em Niterói, caminhando ao mesmo tempo (na segunda semana do mês 10) para a grade do Telecine Now e para o menu do iTunes. Não bastassem estas múltiplas vitrines, o longa-metragem dirigido por Carvalho ainda ganha espaço nobre no livro 100 Melhores Filmes Brasileiros, da entidade crítica Abraccine, em resenha de João Nunes.

Longa nasce de um diálogo com a prosa de Raduan Nassar

Longa nasce de um diálogo com a prosa de Raduan Nassar: filmagens em MG

Mas há muito o que se comemorar acerca deste exercício de poética e semiótica que, para muitos, traz a melhor fotografia brasileira dos últimos 30 anos, assinada por Walter Carvalho. Com a paleta de WC a seu lado, Luiz Fernando nos deu uma visão radical do Tempo, retratando como um deus, num processo capaz de evocar a relação que outro mestre da imagem, o americano Terrence Malick, tem com o Deus cristão. O Tempo de LFC, em sua lavoura, é uma força demiúrgica que parece estuprar os homens em sua fome de vitalidade, mas que é capaz de compensá-los com a iluminação, com o conhecimento. É sobre isso que versa a parábola do jovem que deseja ser profeta de sua própria história. Ela versa sobre a incapacidade do ser humano de aprender com o exemplo das forças perpétuas, as forças de Parmênides (o pré-socrático da unidade), dançando sua música sem obedecer passos rígidos. Lavoura Arcaica, como experiência fílmica, tenta traduzir em um jorro imagético a importância da ancestralidade no caminho de cada um. Há ali uma reflexão sobre a ancestralidade de todos nós, esculpida nas relações sociais em forma de palavra: ora palavras de ordem, ora palavras de amor. Por isso, são rebeldes as palavras de André, um Hamlet caboclo inconformado com a obrigação de se subjulgar ao Pai.

Selton Mello é André: musgo

Selton Mello vive André: um herói-musgo

Raras vezes um jovem ator brasileiro alcançou transcendência similar àquela em que Selton Mello gravitou na pele de André, fruto de um processo de imersão conseguido ao longo de quase cinco meses de ensaio, em uma fazenda em Minas. Em um cenário similar ao que ambienta o drama de André, Selton, Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Caio Blat, Simone Spoladore e outros desbravaram a fronteira que separa o eu-ator do personagem, transitando no limiar do encontro entre essas duas potencialidades, extraindo delas uma verdade rara na maneira de atuar.

Rever Lavoura Arcaica, 15 anos depois de seu parto, é rever um experimento de cinefilia que mexeu com a nossa alfabetização audiovisual e nos comoveu. Reviver essa comoção é como visitar um velho amigo. Como reler um grande livro. Reler Raduan. Viver Raduan. No carvalho de uma outra natureza: a dos afetos.