‘Lavoura Arcaica’: 45 anos de um marco da prosa

‘Lavoura Arcaica’: 45 anos de um marco da prosa

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2020 | 13h50

Rodrigo Fonseca
Finalizando o esperado “A Paixão Segundo GH”, com base no romance de Clarice Lispector, Luiz Fernando Carvalho revolucionou todas as noções plásticas e filosóficas da imagem, na fricção do Tempo e do Espaço, no cinema brasileiro, em 2001, quando levou “Lavoura Arcaica” às telas, conquistando 52 prêmios internacionais. Conquistou troféus em Biarritz, Montreal, Lima, Havana, Trieste, Valdívia e em mais uma penca de cidades – incluído Brasília, de onde saiu com seis Candangos -, levando a cada uma delas a memória de um livro seminal para a língua portuguesa, que completa 45 anos em 2020. Seu autor, Raduan Nassar, chega aos 85 anos no próximo 27 de novembro.
Dizem que quem lê Marcel Proust e se apaixona por sua maneira habilidosa de brincar com a cadência da memória toma porre e fica, eternamente, curando a ressaca sinestésica de sua cachaça literária. “Lavoura arcaica” tem efeito parecido. Tanto em relação ao livro, de Raduan Nassar, quanto ao filme, de Carvalho. Especialmente este último provoca um misto de euforia e desalento, quase como em um paradoxo. E as duas sensações são afluentes de uma mesma e caudalosa água: a liquidez da transgressão. A euforia se dá pelo fato de o choque estético causado pela prosa de Nassar em Luiz Fernando ter conduzido o cineasta a filmar da maneira mais pessoal possível, sem fronteiras mercadológicas e sem compromissos teóricos. A razão do desalento: a incômoda impressão de o longa-metragem parecer uma obra isolada dentro da cinematografia nacional lançada de 1995 para cá.

Exuberante, o trabalho de Luiz Fernando talvez constituísse uma exceção mesmo na pangéia latino-americana se não fosse a exibição do corajoso “Hamaca paraguya”, de Paz Encina, no Festival de Cannes de 2006. “Acidente” (2007), uma deslumbrante partitura documental dos mineiros Cao Guimarães e Pablo Lobato, também sugere que Carvalho não está tão sozinho assim. Mas poucos foram os realizadores que se devotaram tanto à busca por uma sintaxe inovadora capaz de conciliar a fúria criativa da palavra literária com o apetite voraz da câmera. A feliz comparação deste diálogo do audiovisual com o texto de Raduan Nassar com “Limite” (1931), de Mario Peixoto, apontada em sua estréia pelo crítico Carlos Alberto Mattos torna-se ainda mais pertinente conforme a produção contabiliza primaveras. Ambos falam de tempo. Ambos tratam tempo como Tempo, com o T maísculo que ressalta sua divindade. Para Peixoto e Luiz Fernando, o Tempo é quase um deus. Uma força demiúrgica que parece violar os Homens em sua fome de vitalidade, mas que é capaz de compensá-los com a iluminação, com o conhecimento. É sobre isso que versa a parábola do jovem que quer ser profeta de sua própria história. Ela versa sobre a incapacidade que o ser humano tem de aprender com a Eternidade, dançando sua música sem obedecer passos rígidos.

Fotografado de modo feérico por Walter Carvalho, “Lavoura arcaica”, o filme, tenta traduzir em um jorro imagético a importância da ancestralidade no caminho de cada um. Escrever sobre o produto final do esforço de Luiz Fernando, que se debruçou sobre as páginas de Nassar à caça de uma linguagem à altura de sua história, talvez seja menos importante do que caminhar no processo inverso e estudar suas fundições. A ancestralidade que alimenta as palavras rebeldes de André, um Hamlet caboclo inconformado com a obrigação de se subjugar ao Pai, foi buscada na experiência de cada ator, de cada técnico, do próprio diretor, em um processo de imersão conseguido ao longo de quase cinco meses de ensaio, em uma fazenda em Minas. Em um cenário similar ao que ambienta o drama de André, Selton Mello (em uma monumental atuação), Raul Cortez, Juliana Carneiro da Cunha, Caio Blat, Simone Spoladore e outros desbravaram a fronteira que separa o eu-ator do personagem, transitando no limiar do encontro entre essas duas potencialidades, extraindo delas uma verdade rara na maneira de atuar.

Embalado pela música de Marco Antônio Guimarães, “Lavoura arcaica” já seria um filme gigante apenas pela jornada de Walter Carvalho como diretor de fotografia, para buscar na história das artes plásticas uma luz que sintetizasse o chiaroscuro daquele mundinho rural ensimesmado em seu próprio ethos. Ao deus Tempo, Walter e Luiz Fernando responderam visualmente com outra divindade: a terra. Tons telúricos desenham a agonia de André, encarnado na metralhadora verborrágica que Selton Mello dispara implacavelmente, vomitando palavras mais adequadas a um palco shakespearianos do que a um latifúndio distante da urbanização. “Lavoura arcaica” pode (e deve) ser aproximado de um outro exercício raro de investigação lingüística, igualmente interessado em personagens de origem árabe e em choques entre a tradição e a modernidade: o documentário franco-marroquino “Transes” (1981), de Ahmed El Maanouni. O .doc foi restaurado e preservado no início de 2007 por iniciativa do realizador americano Martin Scorsese. Ao averiguar o impacto da sonoridade de um grupo de músicos, influenciado pelos sons das ruas, “Transes” exercita-se pela seara da sensorialidade, testando os limites da recepção do espectador. É exatamente o que Luiz Fernando fez. Mexeu com a própria alfabetização audiovisual dos cinéfilos brasileiros. E comoveu plateias ao fazer algo novo (e único) soar tão familiar. Com o cheiro de infância. Com a indolência da adolescência. Com a coragem da vida adulta. Como o bom cinema deve ser.

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