Laurent Cantet entre os muros da ‘cancel culture’

Laurent Cantet entre os muros da ‘cancel culture’

Rodrigo Fonseca

19 de setembro de 2021 | 16h38

O jovem Karim D. (Rabah Nait Oufella) dá autógrafos sem prever o risco que vai correr em “Arthur Rambo”, na disputa pela Concha de Ouro de 2021

Rodrigo Fonseca
Ganhador da Palma de Ouro, em 2008, com “Entre os Muros da Escola”, Laurent Cantet é o mais potente dos realizadores da França na dimensão sociológica do cinema europeu, com o diferencial de ser aquele que mais (e melhor) compreende e reflete a juventude de seu país em seus filmes, como comprova o enervante (e obrigatório) “Arthur Rambo”. Nada do que se viu na competição pela Concha de Ouro do 69º Festival de San Sebastián, até agora, tem uma contundência à altura da que ele alcança em um estudo sobre a cultura do cancelamento. De um domínio espartano das ferramentas narrativas da tensão, o longa acompanha o ódio que as redes sociais passam a destilar, da noite para o dia, contra um escritor best-seller de origem argelina depois que uma série de tweets postados por ele, quando mais moço, espalham-se pela web. Rabah Nait Oufella vive o protagonista, Karim D. No auge de seu sucesso, com um livre baseado no cotidiano de sua mãe, uma imigrante, o rapaz passa a ser rejeitado por todos que lhe paparicavam depois do vazamento de seus escritos sob o pseudônimo de Rambo. Pra atrair curtidas, ele era agressivo em suas postagens, atacando judeus e a comunidade gay, praticando gordofobia e sendo machista. Mas a retaliação que sofre por essas ideias nada empáticas será das mais brutais. Cantet parte desse mote para debater o linchamento virtual.
“Queria muito entender as redes sociais numa dinâmica que tenta igualar a todos, seja um jogador de futebol ou um presidente, a partir da medida que o diferencial de uma pessoa, nesse ambiente, não é seu caráter, mas, sim, seu número de seguidores. E o insulto tem se mostrado a política mais bem-sucedida para se alcançar followers. Há uma fratura nisso”, diz Cantet ao P de Pop, num papo em San Sebastián, onde lembrou sua passagem pela Festa Literária das Periferias (FLUP), no Rio de Janeiro, em 2017. “A literatura ainda é um dos mais fortes caminhos de um jovem atrair a mirada do mundo para suas angústias”.

Cantet e sua equipe em San Sebastián

Segunda é dia de San Sebastián conferir o regresso às telas da peruana Claudia Llosa, que ganhou o Urso de Ouro, em 2009, por “A Teta Assustada”. Ela regressa com “Distancia de Rescate”, uma releitura da literatura de Samanta Schweblin, mesclando narrativas de fantasmas à história do calvário de uma mulher.
De sábado até hoje, o longa brasileiro “Madalena”, de Madiano Marcheti, arrebanhou uma legião de fãs espanhóis com sua reflexão sobre a violência ao universo LGBTQI+. Orçado em R$ 1,9 milhão, com investimento único do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) e apoio local do Governo do Mato Grosso do Sul, este silencioso drama com tintas de suspense foi rodado em Dourados e Bonito, em novembro e dezembro de 2018. Sua trama incorpora o esplendor natural de sua “arena” dramatúrgica desde a primeira sequência, onde a beleza contrasta com a violência: o corpo de uma mulher trans foi encontrado em campos de soja. Mais adiante, o espírito dela parece flanar por aquela geografia verde, numa representação metafísica do horror diante da transfobia. Embalada por uma onipresente sensação de tensão, nunca taquicárdica, mas viva, a narrativa se constrói a partir de uma figura ausente: é a descoberta do cadáver de Madalena que detona a inquietação dos três protagonistas, Luziane (Natália Mazarim), Bianca (Pamella Yule) e Cristiano (Rafael de Bona), que não têm conexões entre si, egressos de realidades socioculturais diferentes.
“Uma jornalista trans nos disse que ficou indignada, a princípio, por nossa opção estética de não mostrarmos a identidade de quem assassinou Madalena, mas entendeu nossa opção em não apostar numa abordagem policial, investigativa e, sim, discutir por que permitimos que os transfóbicos continuem a apartecer”, disse Madiano ao Estadão, num papo em San Sebastián.
San Sebastián chega ao fim neste sábado, com a entrega de prêmios.

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