Laurent Cantet desafia os muros do cancelamento

Laurent Cantet desafia os muros do cancelamento

Rodrigo Fonseca

04 de maio de 2022 | 09h57

Rodrigo Fonseca
Defensora ferrenha do cinema brasileiro de invenção, responsável pelo lançamento de cults como “Bacurau” (2019) e “Aquarius” (2016), a Vitrine Filmes agendou para 12 de maio um primor de filme francês, garimpado na competição oficial de San Sebastián, na Espanha, em 2021, centrado no câncer da “cultura do cancelamento”: o frenético “@Arthur Rambo – Ódio nas Redes”. Badalado por aqui no Festival Varilux, em novembro, o longa-metragem carrega a assinatura autoral do cineasta Laurent Cantet, de “A Agenda” (2001) e “Em Direção ao Sul” (o ganhador do Prêmio CinemAvvenire de Veneza em 2005). Laureado com a Palma dourada do Festival de Cannes de 2008 com “Entre os Muros da Escola”, Cantet é hoje o realizador de mirada sociológica que mais (e melhor) compreende (e debate) a juventude de seu país em seus filmes.
“Congraçamento coletivo, espírito de união, solidariedade são conceitos avessos à prática feral do capitalismo. Conceitos que foram esvaziados nas práticas políticas de poder, mas que estão na chave da democracia, sobretudo nestes tempos de redes sociais”, disse Cantet ao Estadão em sua visita ao Brasil, em 2017, onde palestrou na Festa Literária das Periferias (Flup).

Karim D. é badalado até que um escândalo envolvendo seu nome vem à tona

Achismos decorrentes do chamado “efeito manada”, predisposição coletiva em atacar alguém por conta de uma histeria coletiva, quase sempre alimentada pelo Facebook, são o foco de “@Arthur Rambo – Ódio nas Redes”. “A fratura social agora é estetizada na web, num culto ao rechaço e à invisibilidade do que é diferente”, disse o diretor em San Sebastián.
De um domínio espartano das ferramentas narrativas da tensão, o longa acompanha o ódio que as redes sociais passam a destilar, da noite para o dia, contra um escritor best-seller de origem argelina depois que uma série de tweets postados por ele, quando mais moço, espalham-se pela web. Rabah Nait Oufella vive o protagonista, Karim D. No auge de seu sucesso, com um livre baseado no cotidiano de sua mãe, uma imigrante, o rapaz passa a ser rejeitado por todos que lhe paparicavam depois do vazamento de seus escritos sob o pseudônimo de Rambo. Pra atrair curtidas, ele era agressivo em suas postagens, atacando judeus e a comunidade gay, praticando gordofobia e sendo machista. Mas a retaliação que sofre por essas ideias nada empáticas será das mais brutais. Cantet parte desse mote para debater o linchamento virtual.
“Periferia é a palavra cetral aqui, pois Karim D. é a representação viva da fratura social entre os mundos periféricos”, diz Cantet ao P de Pop. “O fervor para ter visibilidade na internet leva a atitudes nem sempre éticas. E eu me debruço sobre essa incompatibilidade entre o que é ser inclusivo e o que é ser excludente em todo o meu cinema. Mas eu não sigo ideologias partidárias em meu discurso. O que me guia é o interesse na complexidade humana”.

p.s.: Vai ter Dev Patel na Globo esta noite, numa sessão de “Atentado ao Hotel Taj Mahal” (“Hotel Mumbai”, 2018), de Anthonu Maras, às 22h35. O longa recria, com tensão em alta voltagem, um atentado terrorista a uma hospedaria de luxo classe AA. E Patel é um dos funcionários, em luta para sobreviver.

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