Laure Calamy, ‘a’ estrela deste Varilux

Laure Calamy, ‘a’ estrela deste Varilux

Rodrigo Fonseca

29 de novembro de 2020 | 21h00

RODRIGO FONSECA
Como é bom se deixar surpreender pelas iguarias do Varilux, a maior maratona cinéfila francófona das Américas que, este ano, peitou as adversidades impostas pela Covid-19 e realizou presencialmente, fiel a todos os protocolos de segurança, uma edição recheada de inéditos, dos quais “Minhas Férias Com Patrick” foi a razão do alumbramento deste P de Pop que vos tecla. Não houve este ano filme mais hawksiano do que este western europeu sabor macaron, em formato love story. Rolou espanto quando ele foi anunciado pelo Festival de Cannes como um dos títulos a receber a logo (em forma de Palma) do evento, pois tudo indicava ser só mais uma comédiazinha corriqueira, com rala tinta cinemática nas veias. Mas esse espanto cai por terra quando se percebe o estudo de gênero(s) e a reflexão sobre as inquietações femininas que sua realizadora, Caroline Vignal, promove. Ela passou 20 anos sem dirigir, num hiato desde “Les Autres Filles” (2000), apostando mais em sua carreira de roteirista. Mas essa nova experiência dela como diretora rende planos de um esmero visual inegável. E o público da França reagiu a eles com gosto, dada sua bilheteria tamanho GG: foram 700 mil ingressos vendidos em um mês. Mas o que “Antoinette Dans Les Cévennes” tem de mais rico é a aposta numa Julia Roberts do Velho Mundo: a atriz Laure Calamy, uma estrela nata. Seu desempenho enche a tela de graça e de inteligência. Esbanjando humor, ela vive a professora normalista Antoinette. Num recesso de suas atividades escolares, ela se manda para a região de Cévennes, no centro-sul de seu país, onde fica o Monte Lozère. Seu objetivo é ir atrás de seu amante, Vladimir (Benjamin Lavernhe), pai de uma aluna. Mas o sujeito vai para esse passeio nas montanhas com a guria e com sua mulher. Porém Antoinette, apaixonada, não larga o osso e vai atrás dele, cruzando um caminho cheio de encantos, mas também de intempéries, na companhia de um asno, o tal Patrick. Essa jornada dela é compartilhada por uma série de viajantes instigados não apenas pelas belezas do local, mas também pelas memórias que o escritor Robert Louis Stevenson (1859-1894), de “A Ilha do Tesouro” (1883), escreveu a partir de uma visita à região. O roteiro de Caroline cria uma delicada conexão entre os percalços amorosos de Antoinette e as peripécias de Stevenson, enquadrando sua protagonista numa estética à lá Howard Hawks. Gratíssima alegria encontrar este filme no Varilux, que segue até quinta-feira, sob a direção de Emmanuelle e Christian Boudier. Aqui no Espaço Itaú do RJ choveu riso na sessão deste domingo, com muitos “ownnnn” para o fofucho Patrick.

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