Latidos de Wes Anderson no Buster, Dinamarca

Latidos de Wes Anderson no Buster, Dinamarca

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2019 | 19h51


RODRIGO FONSECA
Finalizando “The French Dispatch”, com Timothée Chalamet, Saoirse Ronan, Elisabeth Moss e Bill Murray (seu muso), o texano Wes Anderson, de 50 anos, ainda tem frutos para colher de seu último trabalho como realizador, a animação “Ilha dos Cachorros”, selecionada para uma projeção nas telas de Copenhague, no Buster Film Festival. Idealizado como um fórum para a formação de novas plateias na Europa, pautado por retratos lúdicos ou combativos da infância e da juventude, o Buster vai de 23 de setembro a 6 de outubro em solo dinamarquês. Indicado a dois Oscars e laureado com o Urso de Prata de Melhor Direção na Berlinale 2018, a produção pilotada por Wes, cujo faturamento global beirou US$ 65 milhões, vai ser exibida na terra de Hamlet no dia 29. O Brasil participa da mostra da Dinamarca com “Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai, que conquistou o prêmio da Anistia Internacional, em fevereiro, na Berlinale. No ano passado, o cinema nacional também venceu lá: o cearense Karim Aïnouz foi contemplado por “Aeroporto Central”. Essa premiação, paralela às decisões do júri oficial, celebra olhares humanistas sobre práticas de resistência e pode ser conferida a longas de qualquer seção do festival. Produção Globo News/Globo Filmes, o longa-metragem de Eliza, rodado em São Paulo, foi exibido na Berlim na mostra Geração 14+, concorrida seção ligada à representação da juventude. Foi ovacionado em suas projeções públicas, conquistando um ardoroso boca a boca nos papos de corredor, com imagens de passeatas de estudantes, da ocupação de escolas, do congresso da UNE de 2017, entre outras.
Já o exercício animado de Wes também tem inquietações políticas, mas seu foco é lirismo. Com a discrição típica do realizador de cults como “O excêntricos Tenenbaums” (2001), “Ilha dos Cachorros” narra a aventura de um garotinho para resgatar seu cão de estimação. Na Europa, suas sessões, regadas a gargalhadas, enchiam a cada semana, dado o número de resenhas elogiosas em sites e jornais, coroando o modo de Wes trabalhar em stop motion, técnica na qual objetos são animados quadro a quadro, como se viu no exemplar anterior dele no gênero: “O Fantástico Sr. Raposo” (2009).
“Eu fui pai há pouco tempo e desde que minha filha existe eu estou envolvido com esta história, tendo valorizar um processo quase artesanal de fazer cinema a partir de conexões com referências do grande cinema japonês, de Akira Kurosawa a Hayao Miyazaki”, disse Wes na coletiva de imprensa de “Ilha de Cachorros” em Berlim, acompanhado de seu escudeiro (e ator fetiche) Bill Murray.
“O cinema independente é aquele que paga pouco pra você faz coisas que te deixam feliz. Wes é um sujeito que me leva a fazer essas coisas felizes na busca por uma trilha que nossa sede de realismo obscureceu: a fábula. É a partir da fantasia que a gente pode olhar o mundo com um distanciamento poético”, disse Murray ao P de Pop na Berlinale, pouco antes de ser convocado para buscar o Urso de Prata dado a Anderson.
Este estava ocupado construindo a estratégia de lançamento de “Isle of Dogs” (título original), laureado com o prêmio de júri popular no festival SXSW, no Texas. Passada em um Japão futurista e distópico, no qual o prefeito condena animais domésticos a um isolamento em um lixão a céu aberto, a trama de Wes acompanha os esforços do menino Atari para salvar seu mascote, Spot (dublado por Liev Schreiber, astro da série Ray Donovan), de um depósito para cães. Spot corre perigo, em um ambiente lotado de ratos, vermes e outros cães lotados de raiva. O principal auxílio de Atari será um bando de cãezinhos nada bons da cuca, cujos dubladores são Edward Norton, Jeff Goldblum e Bill Murray.

“Dublar é uma atividade ótima para quem dirige filmes, pois nem um astro tem desculpa para te dizer ‘Não posso, estou ocupado’ quando você convida ele para trabalhar num projeto de baixo orçamento. Não há desculpa porque você pode gravar sua voz por celular e enviar na hora”, brincou Wes, que conseguiu o cultuado Bryan Cranston, o Walter White do seriado “Breaking Bad” para ser o dublador do samurai desta história à moda nipônica: Chief.

Abandonado no lixão, Chief é um vira-lata bravo, solitário feito os ronins de Toshiro Mifune, que acaba virando o herói do filme de Wes. “É muito bonito ver a mensagem de tolerância que este filme traz em tempos de tumulto político no mundo”, disse Cranston ao Estadão. “Wes enxerga a iluminação da fantasia e oferece ela ao mundo, com leveza, algo que nos falta”.
p.s.: Iniciado nesta sexta-feira com a projeção de “Blackbird”, o 67º Festival de San Sebastián sofreu uma baixa: “Zeroville”, de James Franco, teve de ser removido da competição e posto em sessão hors-concours após a descoberta de que o filme (sobre os bastidores de Hollywood em 1969) já estreou na Rússia. O regulamento do evento espanhol exige ineditismo comercial na Europa. A programação da maratona cinéfila basca segue até o dia 28, com direito a tributo para Penélope Cruz e para Costa-Gavras.

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