Laís Bodanzky faz de Pedro I um ‘homem difícil’

Laís Bodanzky faz de Pedro I um ‘homem difícil’

Rodrigo Fonseca

15 de dezembro de 2021 | 11h18

Cauã Reymond faz de D. Pedro I um herói alquebrado como os “homens difíceis” de séries como “Breaking Bad”: o Velho Mundo eclipsa seu Brasil

RODRIGO FONSECA
Uma consulta ao Ilê de Mãe Janayna Lázaro, zeladora das cabeças de dezenas de atrizes e atores no Rio de Janeiro, era essencial pro P de Pop saber o que dizer sobre a reinvenção simbólica de Dom Pedro I (1798-1834) pelo cinema. O líder político que deu o Grito da Independência é reinventado no longa-metragem paulistano que chega hoje ao 23º Festival do Rio, para disputar (e quiçá ganhar) o que troféu Redentor de 2021, em sessão no Cinépolis Lagoon. Há sete dias, ele abriu a 16ª edição do Fest Aruanda, em João Pessoa, na Paraíba, inaugurando uma seleção competitiva singular (vide “A Felicidade das Coisas” e “Capitu e o Capítulo”). No rastro dessa tradução cinematográfica dos feitos de Pedro, o Estadão recebeu como resposta de Janayna um provérbio de Ogum. “Pelos vinte anos em que passa fome, o camaleão nunca abandonou sua maneira tranquila e digna de andar”. O filme em questão é “A Viagem de Pedro”, trabalho de plena maturidade da diretora Laís Bodanzky em sua carpintaria autoral.
Essa carpintaria é demarcada por três vértices temáticos essenciais: a) tumultos da juventude; b) rearranjos familiares; c) o banzo, num sentimento de pertença a objetos e desejos que têm seu prazo de validade finalizado. Os três acossam, espremem e oprime Pedro I. Ele é vivido por um Cauã Reymond passado num moedor de carne, mais ou menos como o Gérard Depardieu de “Danton – O Preço da Revolução” (1983), de Andrzej Wajda (1926–2016) – longa que mais e melhor estabelece parentela com o que Laís fez.

Há tempos, desde “Se Nada Mais Der Certo” (2008), Cauã renegou a inércia da prateleira de galã para deixar-se moer em processos de investigação da condição masculina, com picos no cinema (“Estamos Juntos” e “Piedade”) e na TV (“Avenida Brasil”, “Dois Irmãos” e “Um Lugar Ao Sol”, pérola atual da dramaturgia de folhetim). Do pico para o qual Bodanzky o levou, a queda é mortal: a atmosfera do novíssimo longa da diretora de “Bicho de 7 Cabeças” (2000) é a do “emasculamento”, condição inerente aos personagens de maior relevância popular do fim dos anos 1990 e deste século, como Tony Soprano, Walter White, Jack Sparrow, Neo de “Matrix”. São personagens classificados como “homens difíceis” por não seguirem mais a trilha clássica da virilidade, achatados por fantasmas e fragilidades que alquebram sua retidão. Mas Cauã sai ileso da queda, fortalecendo-se na escolha por um papel inusitado, de risco. Com invejável habilidade de cerzir silêncios, ele faz de Pedro um “homem difícil”: impotente, choroso, sem eixo. É o que teóricos como David Bordwell chamam de “herói eclipsado”. Seu eclipse é o desterro. E Ogum, o Homem do Ferro, “aquele que abre os caminhos que ninguém fecha”, é seu Orixá de cabeça, pelo diz que o Ifá, o oráculo de búzios que tira sua sorte. Diferentemente do que ensinou Ogum, Pedro não soube ser como o camelão de Mãe Janayna: ele não soube preservar sua tranquilidade e começa a perder a dignidade. É sobre essa perda – e o processo possível de resgatá-la – que versa a belíssima narrativa esculpida por Laís. Ela é esculpida como um anti-épico, qual era o “Danton” de Wajda; qual é “Zama” (2017), da argentina Lucrecia Martel, com o qual o filme de Bodanzky também se assemelha. Não é “filme de História” e, sim, um filme com a História, diferentemente de um “Independência ou Morte” (1972), em que Tarcísio Meira (1935-2021) representava Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon na raia do heroísmo.
No roteiro escrito por Laís (o IMDB destaca Luiz Bolognesi e Laura Malin como seus parceiros de redação), estamos em 1831, durante uma travessia do Atlântico, em uma fragata inglesa rumo à Europa. Ali, Pedro busca forças físicas e emocionais para enfrentar seu irmão, Dom Miguel (Isac Graça), que usurpou seu reino em Portugal. Pedro se vê doente e inseguro, massacrado por dilemas na excelência erétil da qual, outrora, em sua sanha machista passada, gostava de se gabar. Ele entra na embarcação em busca de um lugar, de uma pátria, de si mesmo, numa engenharia dramatúrgica de introspecção. A aventura dessa “viagem” não se dá sobre as ondas e, sim, na cabeça de Pedro, no conflito com seu fracasso como estadista, na certeza de que lhe faltou um projeto de país. Um projeto que fosse maior do que a Coroa Portuguesa. Na direção de Laís, tudo que vem do Velho Mundo parece maior e mais suntuoso do que aquele sombrio microcosmo náutico a partir do qual Pedro singra o Oceano sem garbo, nem gáudio. A fotografia de Pedro J. Márquez – primorosa no domínio dos códigos do chiaroscuro, da sombra – acentua essa diferença entra a Europa ibérica real (já decadente) e a Europa ibérica que assombra o personagem de Cauã, numa atuação devastadora, similar àquela arrancada de Rodrigo Santoro por Laís em “Bicho de Sete Cabeças”, há 21 anos. É impossível não pensar, também, no modo como ela dirigiu Maria Ribeiro em “Como Nossos Pais” (2017), que compartilha com “A Viagem de Pedro” uma certa percepção do luto, uma visão de que há algo de morto arrastado por nós, qual um “encosto”. No filme estrelado por Maria, esse espectro era uma mãe em reticências. No filmaço de Cauã, o fantasma é o ranço colonial que o Império tentou exorcizar.

Na composição de Pedro, cabe um outro provérbio de Ogum: “A faca está destruindo sua própria casa, mas você pensa que está simplesmente cortando um telhado velho”. É uma frase que traduz a desatenção de Pedro frente à conspiração que o enreda, a partir do golpe tramado por seu irmão. Mas, como diz Ogum, “Aos olhos que viram o Mal e não ficaram cegos, é só esperar o Bem”. Logo, há algo de bom a nascer da imolação de Pedro. Algo que ele esboça com seus gestos, no filme de Laís, há de se materializar, mais tarde, no governo de Pedro II: um princípio de autonomia, de Brasil livre. Nestes tempos em que nossa democracia foi baleada por golpes e por mitos sem mítica, só nos resta espera que a glória de uma pátria viva reencontre seu eixo… que brilhe uma estrela. Que Ogum nos ajude. Que Mãe Janayna nos abençoe. Que a sorte do Fest Aruanda se repita no Festival do Rio, onde o filme terá mais uma sessão nesta quinta, às 13h30, no Estação NET Botafogo.

p.s.: Vai ter Brasil no 72º Festival de Berlim (10 a 20 de fevereiro): o Forum Expanded recebe o filme “O Dente do Dragão”, de Rafael Castanheira Parrode, e a instalação “Se Hace Camino al Andar”, de Paula Gaitán.

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