‘Laços’ renovados com a ‘Sessão da Tarde’

‘Laços’ renovados com a ‘Sessão da Tarde’

Rodrigo Fonseca

05 de janeiro de 2021 | 11h51

Cerca de 2 milhões de pagantes transformaram “Laços” em um sucesso de bilheteria

RODRIGO FONSECA
Às 15h desta terça-feira, o coelho Sansão vai se agitar na TV aberta, de carona na exibição do blockbuster “Turma da Mônia – Laços”, na “Sessão da Tarde” da Globo, que está esbanjando qualidade em sua seleção desta primeira semana de dias úteis de 2021. Somando já seis décadas de quadrinhos em sua carreira de contador de histórias, consagrada em 2019 com um troféu honorário no Festival de Gramado, Maurício de Sousa faz uma participação digna das intervenções hitchcockianas do saudoso Stan Lee (1922-2018) nas sagas da Marvel no lúdico longa-metragem que o Plim Plim apresenta neste 5 de janeiro. Um longa visto por 2 milhões de pagantes. Sua aparição no filmaço para crianças e criançonas de Daniel Rezende (cineasta e montador indicado ao Oscar de melhor edição por “Cidade de Deus”) é rapidinha. Mas é inesquecível. Ele vive um jornaleiro que vende sonhos para leitores de dentes de leite. Leitores como nós todos, que fomos alfabetizados por sua arte, na forma de personagens seminais como o Louco, que garante a Rodrigo Santoro o melhor desempenho de sua carreira, em uma pantomima à moda Marcel Marceau, com um palavreado surrealista que parece derramado da prosa de Campos de Carvalho (autor de “A Lua Vem da Ásia”).
Releitura da graphic novel homônima de Lu e Vitor Cafaggi, este momento Charles Perrault de Rezende é estrelado pelo quarteto Giulia Benite (Mônica), Kevin Vechiatto (Cebolinha), Laura Rauseo (Magali) e (o achado) Gabriel Moreira (Cascão) e equacionado pela (in)variável da lealdade. Singelo é a palavra que melhor define este mergulho do nosso audiovisual na argamassa das HQs.
Realizador de “Bingo – O Rei das Manhãs” (2017), Rezende faz aqui uma evocação dos códigos da “Sessão da Tarde”, indo do cult “Conta comigo”, de Rob Reiner, ao grapette “Aventuras com Tio Maneco”, de Flávio Migliaccio, apoiado na sobriedade de cores do fotógrafo Azul Serra. É uma fotografia primorosa, aliás. Atrizes como Fafá Rennó, no papel da Dona Cebola, e Monica Iozzi, na pele de D. Luísa, a mãe de Mônica, têm atuações impecáveis numa trama calcada em andanças. No roteiro de Thiago Dottori, Mônica & Cia. saem de casa para caçar o cachorro Floquinho, que foi raptado de sua casinha, no lar da Sra. e do Sr. Cebola (Fafá e Paulo Vilhena, inspiradíssimo). O caminho é cheio de perigos, de água corrente (para o terror do Cascão) e da sinestesia das matas virgens, todos traduzidos pela fotografia de Azul Serra com cores realistas, sem o peso das tintas das HQs.

A versão HQ de “Laços”

Há momentos de gargalhada rasgada, como na sequência em que o vilão, o Homem do Saco, vivido por Ravel Cabral, exulta sua breguice (e sua humanidade) ao som de Fagner. E tem riso frouxo no solo de Santoro como O Louco, que é o momento de experimentação mais pura de “Laços”. Mas a comédia é só uma das especiarias de um quitute assado na temperatura dos romances geracionais. Na tela grande, o que Rezende nos dá é um buddy movie com todas as ilusões e fabulações da infância. É um longa que usa a floresta como o escritor Francisco Marins (o seminal autor de “O mistério dos morros dourados”) a utilizava: como um espaço transcendente de rito de passagem do medo à vitória. Passagem esta inerente a toda amizade que nasce tumulto e se inscreve na pedra… a pedra da eternidade, aquela em que Maurício de Sousa esculpiu seu legado. Sua obra ganha vida com o um espetáculo com sabor de filme dos Trapalhões, focando-se na perseverança e no afeto dos personagens. A montagem assinada por Sabrina Wilkins e Marcelo Junqueira tem um arejamento mais próximo dos “filmes para criança” dos anos 1970 (como os de Didi ou de Tio Maneco) que da histeria do cinema pop dos anos 2010. Sua placidez abre portas para a alma de cada um dos integrantes da Turma criada por Maurício, revelando doçuras que fariam Magali salivar. Doçuras que prometem se agigantar a “Sessão da Tarde”.

p.s.: Esta noite, às 22h, o Canal Brasil exibe “Uma Noite de 12 Anos”, de Alvaro Brechner, com Antonio de la Torre como o jovem Pepe Mujica. O longa foi uma sensação no Festival de Veneza de 2018.

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