‘La Abuela’, o parente espanhol de ‘Poltergeist’

‘La Abuela’, o parente espanhol de ‘Poltergeist’

Rodrigo Fonseca

24 de setembro de 2021 | 10h07

Vera Barreto Leite (assinando Vera Valdez) assombra Almudena Amor em “La Abuela”

RODRIGO FONSECA
Numa bem-vinda celebração do cinema de gênero, e da atual fase de ascensão comercial do audiovisual ibérico, o 69º Festival de San Sebastián, no norte da Espanha, deu ao Sobrenatural vitrines nobres em sua seleção de 2021, celebrando as manifestações do Além com CEP na América Latina – caso do peruano “Disancia de Rescate”, de Claudia Llosa, e de “Jésus López, de Maximiliano Schonfeld – e dedicando holofotes à prata da casa no filão do assombro: Paco Plaza. Aos 48 anos, o realizador valenciano que redesenhou a estética horrorífica, na década passada, ao apostar numa mistura de reality show e fantasia em [REC] (2007), volta agora às telonas com seu filme mais refinado: “La Abuela” (“A Avó”). San Sebastián cedeu a ele uma vaga na competição oficial pela Concha de Ouro. E há quem aposte num prêmio de melhor direção para Plaza, que exibirá esse assustador estudo sobre a finitude no BFI London Film Festival, no dia 12 de outubro, seguindo para o Sitges Film Festival, dois dias depois. Fala-se ainda de uma potencial menção honrosa (ou mesmo de troféus) para suas atrizes, a brasileira Vera Barreto Leite (que assina Vera Valdez) e (a genial) Almudena Amor. A química entre elas é de uma covalência perfeita. Nestes tempos de “Maligno”, um dos melhores filmes em cartaz no Brasil, pilotado por James Wan, o terror anda conquistando reconhecimento estético de onde menos se esperava. É o caso da Palma de Ouro dada em Cannes ao surpreendente “Titane”, da francesa Julia Ducourneau, que flerta com a fantasia a partir da relação sexual entre uma jovem e um carro. Não é um terror puro, mas é uma paquera com os códigos do medo, em toda a sua narrativa. Já o longa de Plaza é mais explícito. Na trama, a modelo Susana (papel de Almudena) tem que interromper sua candidatura a uma campanha de luxo em Paris para cuidar de sua vó, Pilar, papel dado a uma minuciosa Vera, capaz de nos impressionar com o mais simples dos gestos. Foi Pilar quem criou Susana. Mas essa criação foi marcada por estranhos rituais nas franjas da bruxaria, que a jovem protagonista nunca foi capaz de decodificar. Ao regressar para sua casa, em Madri, após um longo período em Paris, e encontrar sua única parente viva à beira de um estado vegetativo, a moça começa a reparar em estranhos acontecimentos à sua volta. São portas que batem sozinhas, sem vento; são lençóis que escorrem da cama sem mão alguma a puxá-los; são barulhos na madrugada. Numa narrativa sinestésica, galvanizada pela montagem de David Gallart, Plaza faz desses ruídos um convite ao susto, explorando a psiquê alquebrada de uma mulher que cresceu em meio ao Mal, em sua manifestação mais diabólica. Nessa cartografia da Maldade, Plaza domina as convenções do suspense com uma intimidade singular. É um dos longas mais assustadores do ano, aberto a profundas reflexões sobre a solidão e sobre a arte de saber envelhecer. Que o júri não se esqueça dele.

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