Krypton em tela grande

Krypton em tela grande

Rodrigo Fonseca

07 de outubro de 2020 | 11h28

Rodrigo Fonseca
Nas bancas brasileiras, o gibi do Homem de Aço, editado aqui pela Panini Comics, atravessa uma de melhores suas fases ao narrar o processo de paternidade do herói, às voltas com seu rebento, Jon. Os diálogos destacam-se por seu existencialismo. Neles, vemos uma centelha lúdica similar à que o escritor Mario Gianluigi Puzo (1920-1999), autor do romance “O poderoso chefão”, imprimiu ao script da mais famosa transposição do guardião de Metrópolis para as telas. De março de 1977 a novembro de 1978, o cineasta Richard Donner Schwartzberg torrou um orçamento de US$55 milhões para filmar e finalizar uma adaptação cinematográfica das HQs de Jerry Siegel (1914-1996) e Joe Shuster (1914-1992). Antes dele, Guy Hamilton e Steven Spielberg foram cotados para assumir a direção. Egresso do sucesso de “A profecia” (1976), Donner rodou “Superman — O filme” em locações em Nova York, no Arizona, em São Francisco e no Novo México, além de Alberta no Canadá. Usou ainda os estúdios Pinewood e Shepperton, na Inglaterra, para filmar algumas cenas do longa-metragem, cuja bilheteria chegou a US$ 300 milhões. Nesta quarta, é possível conferir esta joia nas telas do RJ, em projeções no Kinoplex Shopping Boulevard, às 16h50, e no UCI ParkShopping Campo Grande, às 18h50. É uma chance de matar as saudades desta obra-prima do Pop e rever Margot Kidder (1948-2018), atriz canadense que deu de presente aos cinéfilos a mais lúdica Lois Lane.
James Caan, Burt Reynolds, Kris Kristofferson e Nick Nolte foram cotados para viver Kal-El, o único (supostamente) sobrevivente do planeta Krypton. Este alien reside na Terra sob a identidade de Clark Kent, um repórter. Mas o papel acabou com Christopher Reeve (1952–2004), cuja atuação (irretocável) só é ofuscada pela de Gene Hackman como criminoso Lex Luthor. Na dublagem original, gravada pela Herbert Richers, André Filho emprestava a voz a Reeve. Darcy Pedrosa dublou Hackman. Na redublagem, nos anos 1990, Luiz Feier Motta assume a dublagem de Reeve.
Vale lembrar que o histórico do personagem nas telonas e telinhas foi atribulado. Seu bom mocismo, ainda estacionado em ditames morais dos anos 1930, e sua indestrutibilidade não mais encontram ressonância em um público hoje acostumado à malícia do Homem de Ferro de Robert Downey Jr. ou ao instinto assassino do Wolverine. Nos EUA, seus gibis caem nas vendas ano a ano. Vendem bem só quando um coadjuvante de luxo (em geral, o Batman) divide quadrinhos com ele, ou quando um quadrinista transgressor repagina seu perfil, como John Byrne na década de 1980 ou como Grant Morrison em “All-Star Superman”, de 2006.

A segunda kryptonita na bota do herói é a maldição que cerca os intérpretes de Kal-El/Clark Kent, a começar pelo mais icônico deles, o já citado Reeve. Nenhum ator teve sua imagem tão atrelada à figura apolínea criada em 1938 por Jerome Jerry Siegel (1914-1996) e Joseph “Joe” Shuster (1914-1992) quanto Reeve. A assombração, no caso dele, foi uma via de mão dupla. Paralisado após uma lesão cervical em 1995, Reeve jamais estrelou um longa de tanta popularidade e rentabilidade quanto a produção de US$ 55 milhões dirigida por Richard Donner. Seu faturamento, de US$ 300 milhões, assustou Hollywood há 42 anos. Ao mesmo tempo, o cinema jamais conseguiu alcançar com o personagem resultados de bilheteria e crítica maiores (ou iguais) ao longa de Donner, vide a frustrada carreira de “Superman — O retorno” (2006), cujo astro, Brandon Routh, caiu no ostracismo, até ressurgir agora, pela TV, para participar de “Crise nas Infinitas Terras”.
Antes, os atores Kirk Alyn (1910-1999) e George Reeves (1914-1959), que encarnaram o Super-Homem em séries dos anos 1940 e 50, também foram amaldiçoados: o primeiro perdeu a fama e isolou-se; o segundo foi encontrado baleado. Dean Cain, do seriado “Lois & Clark” (1993), também viu seu prestígio popular sumir. Henry Cavill, seu atual intérprete, que se benza. Essa bênção não conseguiu ajudar a animação “Superman: Man of Tomorrow”, lançada este ano pela DC. A tentativa era criar uma espécie de Ano Um do kryptoniano, explorando sua gênese. Mas a direção de arte do desenho beira o amadorismo.

p.s: Às 14h45 desta quarta, tem “Sai de Baixo! O Filme” na “Sessão da Tarde”, com excepcional desempenho de Miguel Falabella.
p.s.2: Ralph Fiennes está nos palcos de Londres à frente da peça “Beat The Devil”, de David Hare, em cartaz no Bridge Theatre, falando da batalha de um homem contra a Covid-19, cheia de alusões às instabilidades políticas do presente. Nicholas Hytner assina a direção.

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