Koreeda abre Veneza e Mattotti anima Locarno

Koreeda abre Veneza e Mattotti anima Locarno

Rodrigo Fonseca

18 de julho de 2019 | 12h57

Rodrigo Fonseca
Veneza esquentou o dia com o anúncio de “A verdade” (“La vérité”), do japonês Hirokazu Kore-eda, como filme de abertura para a disputa pelo Leão de Ouro, de 28 de agosto a 7 de setembro, no Lido, porém, a fervura máxima da seara global dos festivais de cinema ainda segue com Locarno, na Suíça, que anunciou seu cardápio de iguarias ontem, incluindo uma incursão do artista plástico e quadrinista Lorenzo Mattotti na direção. O evento suíço vai de 7 a 17 de agosto e vai trazer entre suas atrações uma animação de Mattotti para crianças, com ursos falantes, varinha mágica perdida e montanhas com cara de gente: “A famosa invasão dos ursos à Sicília”. Explosão de cores e de alegria, o longa-metragem foi exibido em Cannes em disputa pelo prêmio Un Certain Regard (Um Certo Olhar). O quadrinista italiano, velho de guerra nos gibis, desenhou a folia do Brasil no álbum “Carnaval: Cores e movimento” (2006). Em Locarno, ele vai exibir seu longa animado na Piazza Grande. O filme de Koreeda, que promete agitar as gôndolas venezianas, aborda o acerto de contas de uma atriz de sucesso (Catherine Deneuve) com sua filha (Juliette Binoche) em meio a uma bomba afetiva em forma de um livro de memórias onde só 10% é mentira. Ou quase…

“A exigência de que a arte seja realista tolheu muito da imaginação dos criadores e confinou a criação cinematográfica a uma pasteurização de fórmulas. Até no desenho animado, tudo é figura com olhos grandes, tudo é apocalíptico. Ninguém mais se diverte, ninguém celebra a beleza da natureza como as crianças celebram a chegada de brinquedos novos, com muitas cores”, disse Mattotti ao P de Pop, na Croisette. “Tentei fazer um filme com soldadinhos de chumbo, bonecas, animais falantes e uma montanha que chora de saudade. É uma forma de traduzir melancolia sem assustar”.

Com € 11 milhões nas mãos, Mattotti, hoje com 65 anos, transformou em animação um livro do escritor Dino Buzzati (1906-1972): “La famosa invasione degli orsi in Sicilia” (1945). Na trama, o Rei Urso invade uma cidade atrás de seu filhote, que conta com a ajuda de um mágico e de uma jovem para voltar à sua vida na natureza.  “Buzzati criou uma literatura de muita metafísica, que me serve para fazer uma homenagem à arte de contar histórias. Logo que os ursos chegam a uma cidade lotada de pessoas sem laços com a terra, com a mata, eles precisam aprender a se comportar, a se socializarem. É um estudo das diferenças”, diz Mattotti, que convocou o veterano dramaturgo e roteirista Jean-Claude Carrière (que escreveu “A bela da tarde”) para dar voz a um velho animal das matas. “É uma coroação dos grandes narradores, no intuito de festejar a fabulação como resistência”.

Falando de animação, é tempo do maior festival do setor no Brasil. O 27º Anima Mundi abriu suas portas no RJ ontem, no CCBB carioca e no Estação Net Botafogo. Vai ter mostra e Papo Animado com o carioca Fernando Miller, que dirigiu o genial “Furico & Fiofó” (2011). Perde não.

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