Kelly Reichardt recebe a Carroça de Ouro

Kelly Reichardt recebe a Carroça de Ouro

Rodrigo Fonseca

18 de maio de 2022 | 08h59

Kelly Reichardt em sua passagem por Cannes em 2019, como jurada

Rodrigo Fonseca
Só se fala em “Top Gun: Maverick” e em Tom Cruise em Cannes, que tomou uma surpresa ao ver “Coupez!”, esperando de Michel Haazanavicius um terrir, mas recebendo dele uma hilária celebração do amor pelo cinema, num divertido filme de metalinguagem sobre a produção de uma trama de zumbis. Mas há que sobrar atenção no evento para a Quinzena dos Realizadores e sua esquadra de esperadíssimas atrações, entre elas “Men”, de Alex Garland, e “One Fine Morning”, de Mia Hansen-Løve. Mas o barato da mostra paralela à disputa pela Palma de Ouro, nesta quarta, é a passagem da cultuada diretora americana Kelly Reichardt. Ela vem receber o troféu honorário Carroça de Ouro. A láurea foi criada em 2002, como um estímulo à produção autoral no cinema, e já foi confiada a uma série de talentos como Clint Eastwood, Nanni Moretti, Ousmane Sembène, David Cronenberg, Jim Jarmusch, Naomi Kawase, Agnès Varda, Jafar Panahi, Jane Campion, Jia Zhangke, Martin Scorsese, John Carpenter e o documentarista Frederick Wiseman. Estrela da cena indie dos Estados Unidos, respeitada por longas-metragens como “Movimentos Noturnos” (produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, em 2013), Kelly, nascida em Miami, há 54 anos, foi jurada em Cannes, em 2019, onde criou controvérsias ao questionar o culto à virilidade expressa em “Era Uma Vez Em Hollywood”. Ela atacou as cenas de Brad Pitt subindo um telhado sem camisa e se declarou contrária a representações que objetifiquem corpos. Naquele mesmo ano, lançou seu filme mais badalado até aqui: “First Cow”, indicado ao Urso de Ouro de Berlim, em 2020. Este ano, ela concorre à láurea mais disputada da Croisette com “Showing Up”, estrelado pela atriz Michelle Williams, com quem a realizadora trabalhou em “Wendy & Lucy” (2008) e “Certas Mulheres” (2016). É uma trama sobre uma escultora à margem de uma crise, às vésperas de inaugurar uma exposição. “É necessário revermos os personagens que construíram nosso passado. E uma abordagem dos códigos afetivos é um caminho”, disse Kelly ao P de Pop na Berlinale, em 2020.

“Showing Up” pode dar a Palma de Ouro à diretora

Coroada com o Prêmio Tigre, do Festival de Roterdã, em 2006, por “Antiga Alegria” (“Old Joy”), Kelly é respeitada também por seu trabalho como montadora. Foi ela que editou “First Cow”, lançado aqui via MUBI. Trata-se de um faroeste sem bangue-bangue: o imigrante chinês King-lu (Orion Lee) trava uma relação de trabalho e amizade com o comerciante de peles Cookie (John Magaro). Os dois passam a fazer um exótico bolinho usando o leite roubado da vaca de um inglês rico (Tony Jones). Esse roubo vai colocar a dupla em apuros. “É necessário que se trate a História fora de paradigmas, mesmo que aqueles relativos a gêneros dramáticos, como é o caso do western, um filão onde a diretora Ida Lupina foi uma referência”, disse a diretora.
Nesta quinta-feira, Cannes vai conferir “Armageddon Time”, que carrega DNA brasileiro por ter a RT Features, do produtor Rodrigo Teixeira, em seus créditos. Estrelado por Anne Hathaway, Jeremy Strong e sir Anthony Hopkins, esse drama geracional sobre como era adolescer nos anos 1980 vem sendo encarado como o trabalho de mais maduro de James Gray na direção. O cineasta tem em seu currículo cults como “Fuga Para Odessa” (1994) e “Amantes” (2008). Em 2019, quando Gray concorreu ao Leão de Ouro de Veneza com “Ad Astra”, a RT saiu de Cannes com duas láureas: o Prix Un Certain Regard, dado ao melodrama “A Vida Invisível”, de Karim Aïnouz, e o Prêmio da Crítica, dado pela Federação Internacional de Imprensa Cinematográfica (Fipresci) a “O Farol”, de Robert Eggers.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.