Karlovy Vary celebra os 40 anos de ‘Alien’

Karlovy Vary celebra os 40 anos de ‘Alien’

Rodrigo Fonseca

23 de junho de 2019 | 10h10

Rodrigo Fonseca
Criado em 1946 com a promessa de se tornar uma vitrine autoral para experimentos cinematográfico de forte carga política no coração da Europa, o lendário Festival Internacional de Karlovy Vary (KVIFF) inaugura nesta sexta-feira, na República Tcheca, sua edição nº 54, com espaço para celebrar os 40 anos de “Alien, o 8º passageiro”. No sábado, uma cópia recauchutada deste marco do cinema vai ser exibido no evento, esperando a presença de Ridley Scott, que, aos 81 anos, anda envolvido com um projeto sobre a Roma antiga (uma sequência do oscarizado “Gladiador”) e um épico sobre a formação política do Reino Unido. Foi em 25 de maio de 1979 que a criatura de saliva ácida, inspirada em pinturas e referências gráficas surrealistas do suíço H.R. (Hans Ruedi) Giger (1940-2014) chegaram às telas pela primeira vez, faturando cerca de US$ 104 milhões – cerca de nove mais do que seu custo de produção. Era um tempo assolado por “Star Wars”, que estreou em 1977, fazendo Hollywood desejar tramas espaciais a granel. Eis que Scott somou, com competência invejável, dois filões: sci-fi e filme de monstro. Nasceu ali um fenômeno.

Quando a 20th Century Fox idealizou o projeto, realizadores como Peter Yates, Jack Clayton e Robert Aldrich foram considerados como potenciais pilotos para a jornada espacial da tenente Ripley, papel que celebrizou Sigourney Weaver. Mas o roteirista Dan O’Bannon e os produtores precisavam de um jovem talento com mais estilo, para impedir que o projeto de US$ 11 milhões pudesse parecer um filme B. Eis que o sucesso de “Os duelistas” (1977), que deu Ridley um prêmio de melhor filme de estreia em Cannes, fez desse publicitário britânico a escolha precisa. Parte de seu processo de seleção para o longa será revisitado por Karlovy Vary, na projeção de gala que festeja “Alien” e seu legado. Vale lembrar o que o festival – um dos responsáveis pela badalação internacional do Cinema Novo de Cacá Diegues, Joaquim Pedro & Cia.  nos anos 1960 – vai homenagear duas grandes atrizes este ano, paralelamente a seu memorialismo: Patricia Clarkson e Julianne Moore. Fora isso, o ator Casey Affleck vai exibir por lá seu primeiro projeto como realizador de longas-metragens de ficção: a distopia “Light of my life”, já projetado na Berlinale.

Mas poucas atrações do cardápio do KVIFF – talvez apenas uma exibição de gala da versão 4K de “Rambo: Programado para matar” (1982), com o aval de Sylvester Stallone – são capazes de rivalizar com o “parabéns pra você” ao sucesso de Ridley. No início do ano, em março, o Festival de Miami também cantou parabéns para o longa, com salas lotadas e muitos debates.

Ridley Scott nos sets do longa original, em 79

Somando-se as bilheterias dos seis filmes da série “Alien”, mais os dois (desastrosos) derivados nos quais o Predador é o algoz do monstrengo, totaliza-se uma receita de US$ 1,5 bilhão para os cofres os cofres da Fox e da própria ficção científica, que tem do monstrengo uma mina de ouro, mas também de controvérsia. Controvérsia essa que Ridley deve comentar caso confirme sua esperada participação no Festival de Karlovy Vary, ao lado de Sigourney. O que existe nessa franquia de mais precioso (ou melhor, de perverso), nestes tempos de Donald Trump no Poder nos EUA, é o refinado tratamento que o veterano diretor inglês dá à questão dos “estrangeiros”, das invasões bárbaras, não esquecendo que tudo nesta grife milionária começou com a ideia do oitavo passageiro, ou seja, do intruso de outra nacionalidade. No filme original, uma obra-prima sci-fi com ecos de terror, uma nave com sete tripulantes se dava conta de um membro número oito, de outra origem territorial, que ali entrava para explorar os “recursos naturais” da embarcação – ou seja, comer e se reproduzir. Foi uma abordagem politizada, embalada em uma direção de arte sofisticada, que acabou sendo coroada com um Oscar de cenografia.

Seu lançamento se deu em dias de extrema direita na América. Era o fim dos anos 1970, encerrados numa ressaca de ideologias e desbundes. Nada mais adequado, portanto, do que um filme carregado da paranoia que ditaria as regras da política nos anos seguintes: invadir sempre que possível; ser invadido, nunca. É um período em que a América vira um porto para os degredados cubanos e para desertores eslavos. Mas qualquer presença “alienígena” é um sinal de alerta. Hollywood e a TV até apostam nos alienígenas “do Bem”, tipo o ET de Spielberg e Alf, da série homônima de TV, o ETeimoso, aqui dublada por Orlando Drummond. Mas mesmo eles são ilegais, causam alarde, mudam regras, quebram normas de conduta. Eram tempos de Reagan. Agora são tempos de Trump. Há semelhanças, vis simetrias. Eis o Alien de volta, para fazer o trabalho sujo de nos lembrar que a ameaça maior é biológica, viva. E, por outro lado, menos visível, indicar que esta “sensação de ameaça” é um traço xenofóbico, racista, totalitário. Nada mais adequado, em meio ao totalitarismo atual, do que sua volta aos cinemas. Depois de Miami, o longa vai rodar alguns festivais. Estima-se que vá integrar o menu da seção de Clássicos do Festival de Veneza, em agosto, antes de regressar ao circuito. E há quem diga que Ridley tem uma nova sequência a caminho. Faz sentido: a fome de Alien é grande. Só não é maior que seu prestígio popular.

De carona na celebração dos 40 anos da franquia “Alien” nos cinemas, a Dark Horse Comics encomendou ao escritor Brian Wood uma nova série baseada na criatura alienígena que cospe ácido tendo uma heroína negra como protagonista, para substituir a tenente Ellen Ripley e pra ampliar a representação de afrodescendentes nas HQs. Entra em cena a fuzileira naval Zula Hendricks, uma jovem que já participou de expedições espaciais e sabe o risco de se usar os aliens como armas biológicas.

p.s.: Sobre o polêmico (e necessário) “Democracia em vertigem” na Netflix: mais do que um exercício de cidadania, o novo filme de Petra Costa é um lindo retrato do amadurecimento da narrativa de uma artista. Algo que, na lógica autoral de Joyce, chamar-se-ia de “retrato de uma artista enquanto brasileira”. Seu valor político, como clamor e testemunhal, é singular. Mas seu valor como um esgarçamento de códigos documentais nacionais é igualmente ímpar.

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