Karim abre o hangar do ‘Aeroporto Central THF’

Karim abre o hangar do ‘Aeroporto Central THF’

Rodrigo Fonseca

20 de abril de 2020 | 14h53

Karim Aïnou em debate da Berlinale de 2018 ao lado de Ibrahim Al Hussein e Qutaiba Nafea, com quem rodou “Zentralflughafen THF”, laureado com o prêmio da Anistia Internacional

Rodrigo Fonseca – #FiqueEmCasa
A mil por hora pelo planisfério cinéfilo, depois da consagração de “A Vida Invisível” (Prêmio Un Certain Regard em Cannes), o cearense Karim Aïnouz, atualmente no menu do festival suíço Visions du Réel com “Nardjes A.”, vai disponibilizar nesta sexta-feira, na web, em múltiplas plataformas de streaming um dos melhores longas-metragens que fez recentemente: o documentário “Aeroporto Central THF”. Laureado com o Prêmio da Anistia Internacional na Berlinale de 2018, o filme, “Zentralflughafen THF” no original alemão, estará disponível no Now, Vivo Play, Oi Play, Itunes, Google+, Filme Filme e Looke. Este exercício poético de geopolítica estava previsto para estrear nos cinemas brasileiros dia 26 de março, mas, devido à pandemia de COVID-19, a Mar Filmes e o Canal Brasil decidiram lançá-lo em VOD, diretamente.
Cabem vários mundos nas instalações desativadas do aeroporto Tempelhof, criado em 1923 em Berlim: cada pedacinho dele hoje abriga um povo refugiado. Por seu olhar atento ao modo de sobrevivência encontrado por cada um dos atuais “habitantes” do THF, Aïnouz, diretor do cultuado “Madame Satã” (2002), há muito radicado na capital alemã, acompanha a luta de sírios, afegãos e iraquianos que adotaram hangares abandonados como lar. Tempelhof foi um marco da aviação no III Reich, sob o jugo nazistas, e serviu como um símbolo da reconstrução de Berlim no fim dos anos 1940. Fora de operação para pousos e decolagens, ele serve hoje como instância de inclusão.
“Temos aqui um aeroporto como personagem principal, partindo dele para entender o que Berlim virou nas últimas décadas. É uma cidade lotado de artistas plásticos. Uma cidade que respira cultura. Mas é uma cidade em movimento. E o filme segue essa mesma linha, refletindo um espaço em mutação”, disse Karim ao Estadão, durante a Berlinale, há dois meses.

Apoiado num dispositivo narrativa de observação sem entrevistas ou outras formas de intervenção, “Aeroporto Central THF” se desenha a partir da passagem dos meses e das estações do ano, mostrando como os refugiados se reinventam e recriam o local, da Primavera ao Outono, do Inverno ao Verão. A montagem abre deixa para poéticas tomadas de contemplação da geografia à sua volta.

“Tem um lugar aberto para a reinvenção nos meus filmes. E Berlim se reinventa a partir de seu sentimento de estar sempre se descobrindo, procurando uma voz”, diz Aïnouz, que voltou ao Festival de Berlim em fevereiro, com o retrato de uma jovem militante em “Nardjes A.”, rodado na Argélia, terra dos parentes do realizador. “Gosto de me ver cercado pela juventude, pois ela me alimenta, com sua vivência e com a sua sabedoria. A Nardjes é alguém que, só pelos cabelos enormes que ela tinha… hoje cortados… já demonstra um contraste com aquele mundo conservador. A Argélia de onde meu pai vem passou por muita transformação, mas precisou de luta para isso. Depois que eu saí de ‘A vida invisível’, que é um filme bonito, lúdico em seu olhar sobre um Rio de Janeiro de subúrbio, mas centrado no sufocamento feminino em um ambiente tóxico, eu precisava falar de alegria. Celebrar a alegria. Foi aí que essa mulher, a Nardjes, com um projeto utópico forte, apareceu”.

Imigrantes de diferentes partes do Oriente Médio adotam o Tempelhof como lar

Este ano, a maratona documental europeia do Visions du Réel acontece online até o dia 2 de maio, no site https://www.visionsdureel.ch/. A obra da cineasta francesa Claire Denis (de “Minha Terra, África”) será vista por lá, incluindo alguns trabalhos dela pelo terreno da ficção. A diretora mineira Petra Costa (indicada ao Oscar por “Democracia em Vertigem”) também vai ser homenageada no evento, que vai revisitar exercícios de videoarte de Jean-Luc Godard.

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