‘Kardec’, o novo ‘Pagador de Promessas’

‘Kardec’, o novo ‘Pagador de Promessas’

Rodrigo Fonseca

08 de maio de 2019 | 16h40

Numa química precisa, Sandra Corveloni e Leonardo Medeiros sintetizam o conceito de cumplicidade no amor em “Kardec”: ambos em atuações inspiradas

Rodrigo Fonseca
De uma dignidade irretocável em sua tessitura plástica e em suas estratégias dramatúrgicas, Kardec, a munição mais poderosa do cinema nacional na guerra com Os Vingadores por mais espaço em tela, remete o olhar a uma viagem no tempo que se bifurca entre o trágico e o risco bem-sucedido. É uma estrada cindida que tem como marco zero a mesma data, 2008. No frigir daquele ano, um “barracão de santo” (uma casa de candomblé) no Catete, na Zona Sul do RJ, foi invadida por uma horda de fundamentalistas enfurecidos contra qualquer doutrina que se reportasse ao Além. Era uma turba de uns quatro ou cinco, que quebraram alguidares, deram duras nos zeladores da casa e macularam as estátuas de adoração e reza ali presentes. A PM chegou a tempo de impedir uma violência contra as responsáveis pelo terreiro, mas o trauma do incidente caiu na mídia e decretou iniciada a jihad carioca, que hoje se faz notar com uma série de brutalidades contra adeptos do sincretismo religioso de origem africana. Naquele mesmo período, os cinemas brasileiros, tomados por super-heróis Marvel e DC, viveram um milagre quando “Bezerra de Menezes: O diário de um espírito” estreou, vendendo cerca de 500 mil ingressos e se estabelecendo como um inusitado fenômeno de religiosidade em um território dedicado ao entretenimento. Começava ali, nas cicatrizes de uma tragédia ligada à intolerância, uma vertente 100% Brasil de um filão vetusto, que deu seus primeiros sinais de vida ainda na década de 1910: o cinema parábola. Esse é o termo usado para narrativas cuja finalidade consciente é buscar a evangelização, seja de credo for, ou, no mínimo, de se abrir um debate sobre uma prática de fé específica. Um dos maiores sucessos de bilheteria em cartaz hoje no Brasil, o tocante “Superação – O milagre da fé”, com 1,5 milhão de pagantes vendidos, em tempos de Capitão América, é um dos exemplos desse derivado retórico do gênero épico. É um caso ligado a uma linha evangélica protestante. Há casos católicos, como “A Paixão de Cristo”, de Mel Gibson, que não buscava verter a Bíblia em argamassa de drama só por razões estéticas, mas por uma estratégia política de difusão de um conceito cristão.

Nem todo filme sobre figuras religiosas é cinema parábola: o belíssimo “Chico Xavier” (2010), de Daniel Filho, era uma biopic, que analisava os fatos sobrenaturais místicos com um grau de distanciamento. O mesmo pode se aplicar aos fliperamas bíblicos dirigidos por Cecil B. DeMille (como “Sansão e Dalila”). Mas Kardec, que atesta com A+ o amadurecimento das ferramentas  de storytelling do cineasta Wagner de Assis (quase dez anos depois de “Nosso Lar”), caminha numa linha tênue (rara e rica) entre o épico e a homilia, amparado em um ator em estado de graça. Raras interpretações vistas este ano nas telas, no Brasil e fora dele, chegam aos pés do que Leonardo Medeiros alcança no esforço em injetar humanidade ao mito de Allan Kardec. Igualmente potente é a fotografia de Nonato Estrela, capaz de jogar com o chiaroscuro de modo a ampliar o debate entre o obscurantismo e a iluminação proposta pelo roteiro de Assis e de L. G. Bayão (em seu trabalho mais requintado). A base da escritura deles vem do livro “Kardec – A Biografia”, de Marcel Souto Maior, um sinônimo vivo de bom jornalismo.

Embora haja uma França do século XIX diante de nós e uma certa ideia de suntuosidade típica das narrativas clássicas, Kardec vai por uma linha de simplicidade franciscana que transforma plano em palco: daí, um ator como Medeiros, que participou de espetáculos memoráveis tipo “Não sobre o amor” e “Temporada de gripe”, jantar a linguagem fílmica com fome e prazer. Não é questão de teatralidade, é questão de um intimismo mais inerente a filmes franceses de linha biográfica – lembra muito “Camille Claudel”, de Bruno Nuytten, e “Rodin”, de Jacques Doillon, em sua luz e em sua direção de arte – do que a biopics hollywoodianos, embora as curvas dramáticas de jornada heroica estejam todas no roteiro, sem obviedade. A produção teuto-franco-belga “O jovem Karl Marx” (2017), de Raoul Peck, é outro bom parâmetro de comparação, pela forma como ambos os longas assumem a filosofia como objeto de estudo e de catarse. Todavia, o que existe de mais arrebatador na forma de Wagner dirigir é seu cuidado em apresentar o professor Hyppolite Léon Denizard Rivail (papel do inspirado Medeiros), que vai assumir o pseudônimo de Allan Kardec, como um potencial herói.

Na maneira como cartografa o processo de codificação do espiritismo, a partir de 1857, Wagner transforma o que poderia ser um mero conjunto de fatos históricos em uma doce reflexão sobre cumplicidade, seja a parceria entre vivos e mortos, seja a lealdade entre os nobres e intelectuais que ajudam Rivail – Leonardo Franco, no papel de Sr. Carlotti, e Dalton Vigh, como Sr. Dufaux, são os mais brilhantes. Mas a cumplicidade que mais e melhor toca o espectador é a covalência entre Rivail e sua mulher, a professora de piano Amélie-Gabrielle Boudet, delicadamente interpretada por Sandra Corveloni (atriz premiada em Cannes no mesmo cabalístico 2008, por “Linha de passe”). Sandra faz de Gabrielle um signo afetivo de empoderamento feminino , condizente com os pleitos da contemporaneidade. Ela não é uma coadjuvante dos feitos do marido, na luta para buscar respeito para a comunicação com os mortos. Ela é o esteio dele, ao mesmo tempo carinhosa e feroz.

Só esse misto de sentimentos era capaz de conter a ignorância em forma de censura de que a doutrina espírita foi vítima, com ofícios proibitivos de justiça entregues por um homem da lei (muito bem) vivido por Ronaldo Mourão com uma retidão de assustar. Nesse ponto, “Kardec” dá mais um salto na História e nos leva a “O pagador de promessas”, que deu a Anselmo Duarte a Palma de Ouro em Cannes, em 1962. Em ambos, o fervor religioso é rechaçado com golpes de martelo e indiferença institucional, gerando imolações em praça pública. Num dado momento, o Rivail de Medeiros diz: “um dia, vão deixar de nos jogar pedras”. Hoje, há outras formas de se exercer o ódio intolerante: a lacração das redes sociais, por exemplo. Mas o que interessa ao périplo de Kardec é a resiliência. E a fé. Uma fé metafísica. Como o cinema…

Que surpresa boa ver um filme assim.

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