Kad Merad à luz do triunfo de Cannes

Kad Merad à luz do triunfo de Cannes

Rodrigo Fonseca

14 de maio de 2022 | 10h36

A Imovision traz “A Noite do Triunfo” ao Brasil

RODRIGO FONSECA
Terça-feira começa a 75ª edição de Cannes, com “Coupez!”, a comédia de zumbis de Michel Hazanavicius, em sua abertura, atraindo os holofotes do mundo para um festival que revelou pérolas como “A Noite do Triunfo” (“Un Triomphe”, 2020), que segue firme e forte no Brasil desde sua estreia, no dia 21 de abril. Tem sessão dele no circuito carioca na segunda, na terça e na quarta no Estação NET Rio, sempre às 14h. Ovacionado em sua passagem pela Croisette, há dois anos, o longa-metragem é guiado por um show de atuação do humorista Kad Merad pelo meridiano da dramédia. É um roteiro delicado, que celebra a força do teatro. Sua bilheteria na França foi de 305 mil pagantes, coroada por adjetivos como “Inteligente e inspirador”, conquistada na “Marie Claire” e “O filme é impecável”, colhida nas páginas da “Paris Match”. Aliás, há uma boataria de que Merad vai ser jurado em Cannes este ano.
Pelas contas do Allociné, o maior banco de dados do audiovisual europeu, Merad conseguiu num único filme, “A Riviera Não É Aqui” (“Bienvenue chez les Ch’tis”, 2008), vender mais ingressos (foram 20.328.052 tíquetes só na França) do que muitos astros hollywoodianos de prestígio venderam em toda sua carreira. Fez ali um fenômeno que parou sua pátria, bem antes de “Intocáveis” (o campeão de bilheteria mais badalado na terra de Truffaut) aparecer, em 2011. No humor do Velho Mundo, o ator argelino é um rei, sendo lembrado por aqui pelo papel do pai de “O Pequeno Nicolau” (2009). Só que Merad pode ir além do kakakaka e meter gols na seara da tristeza, como presenciou-se na noite desta terça, no Palais des Festivals de Cannes, que estendeu seu tapete vermelho para uma versão pocket da maior maratona cinéfila do planeta. E Merad veio à frente dela. Seu “A Noite do Triunfo” é o chamado “few good movie”, termo aplicado a narrativas analgésicas, conectadas à ideia de superação. A direção é de Emmanuel Courcol, que parte de um fato real do fim dos anos 1980 para construir um delicado mergulho na cena do teatro carcerário, explorado com êxito (e Urso de Ouro) pelos Irmãos (Paolo e Vittorio) Taviani em “César Deve Morrer”. E Merad deve (e vai) ser recompensado com os louros da crítica e do afeto popular por um esforço de ir além de sua dimensão clownesca, num diálogo com Samuel Barclay Beckett (1906-1989).
Prêmio Nobel e ícone do Absurdo, Beckett soube, antes de morrer, que uma trupe de teatro formada por presidiários, que encenava seu “Esperando Godot”, fugiu da casa de espetáculos pouco antes da apresentação, deixando seu diretor em suspenso. E a Justiça estava lá, na toga de representantes do Judiciário, para avaliar aquela tentativa de inclusão. No filme conduzido com sobriedade por Courcol, essa história é revisitada a partir do périplo do ator e encenador fracassado Étienne Carboni, vivido por Merad, para trancafiar a má sorte nas grades de sua alma e alforriar a alegria de viver há muito perdida. Existe, no longa-metragem, um tom de bons sentimentos e boas ações à la “Intocáveis” (2011) e um clima We Are The World de “Patch Addams” (1998). Mas é uma tonalidade que perde tinta conforme conhecemos o mundo dos detentos e o universo interno, fraturado, de Étienne. É uma composição delicada da derrota e da busca pela redenção, por um homem que, na casa dos 50 e muitos, vê a sua juventude ficar para trás.

ACERCA DE CANNES 7.5:
Do Brasil, o balneário vai rever um cult, “Deus e o Diabo na Terra do Sul” (1964), de Glauber Rocha, em sua seção de clássicos restaurados. E é só. Na competição, cujo júri será presidido pelo ator Vincent Lindon, estarão 21 longas-metragens esperadíssimos: “Decision To Leave”, do sul-coreano Park Chan-Wook; “Showing Up”, da americana Kelly Reichardt; “Tori e Lokita”, dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenn; “Crimes of the Future”, que marca o regresso do canadense David Cronenberg; e “Armageddon Time”, que o estadunidense James Gray dirigiu sob a produção do brasileiro Rodrigo Teixeira. Todos esses títulos passarão pelo crivo de Lindon e seu time. Os filmes serão julgados por ele, por quatro atrizes de peso – Deepika Padukone, da Índia; Noomi Rapace, da Suécia; Rebecca Hall, de Inglaterra; e Jasmine Trinca, da Itália, sendo que essas duas também são diretoras – e quatro cineastas: Asghar Farhadi (Irã); Ladj Ly (Mali – França); Jeff Nichols (EUA); e Joachim Trier (Noruega). E ainda tem, fora de concurso, sessões de “Top Gun: Maverick”, com homenagem a Tom Cruise; e “Elvis”, de Baz Luhrmann, sobre a gênese do canto e da ginga de Mr. Presley. E, já na abertura, o ator e diretor Forest Whitaker (oscarizado em 2007 por “O Último Rei da Escócia”) receberá uma Palma Honorária, por toda a sua excelência em cartaz.

p.s.: “Bill Raio Beta” é “O” quadrinho desta temporada, lançado pela Panini numa edição de luxo, com foco na luta do ET que herdou o martelo de Thor, nos anos 1980, para encontrar uma arma similar a seu Rompe-Tormentas. Daniel Warren Johnson assina roteiro e desenhos.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.