Júri de Veneza, Bong Joon Ho ganha retrospectiva

Júri de Veneza, Bong Joon Ho ganha retrospectiva

Rodrigo Fonseca

31 de julho de 2021 | 06h11

Bong Joon Ho nos sets de “Parasita”: cineasta é tema de uma mostra em Lisboa

RODRIGO FONSECA
Dedicado a um projeto de animação com prazo de finalização longo, sobre criaturas do fundo do mar, o cineasta sul-coreano Bong Joon Ho virou um objeto de fetiche entre os europeus, não por seu exostimo, mas por sua lucidez, nas telas e fora dela. No início do mês, o ganhador da Palma de Ouro de 2019 e de quatro Oscars em 2020 – dados a seu “Parasita” – deslumbrou Cannes, numa masterclass. No dia, 1º de setembro, ele aporta na Itália, no Lido, para presidir o júri do Festival de Veneza, a ser aberto por “Madres Paralelas”, de Pedro Almodóvar. E, em Lisboa, ele é alvo de uma retrospectiva na (obrigatória) sala de exibição Medeia Nimas. Em solo português, seus filmes estão ao lado de uma mostra de Éric Rohmer (1920-2010), que exibe “Minha Noite Com Ela” (1969) esta tarde, e ao lado de uma seleção de clássicos da Itália, com direito ao alquebrado (mas belíssimo) “A Primeira Noite de Tranquilidade” (1972), de Valerio Zurlini (1926-1982). Os títulos de Bong para 31 de julho são (o magnífico) “Memórias de um Assassino” (2003) e uma versão em P&B de seu mais do que aclamado “Gisaengchung”, exibido em terras lusitanas como “Parasitas”. Seu sucesso nas bilheterias surpreendeu exibidores: orçado em US$ 11,4 milhões, ele faturou US$ 259 milhões. Vale lembrar que o nome do cineasta também se grafa como Bong Joon-ho.
“Eu me considero um realizador de filmes de gênero, que lida com cartilhas próprias, mas que busca fugir de obviedades. E tenho um lado passional: quando ‘O Hospedeiro’ foi lançado eu lembro de ter sentido muito ódio de filmes de monstro como o meu”, disse o cineasta na coletiva de imprensa dos vencedores de Cannes – e ele venceu com unanimidade do júri.

Hilário… pelo menos até o momento em que descamba para o derramamento de sangue, “Parasite” segue os passos de uma família de picaretas profissionais que inventam as mais estapafúrdias ideias para se esquivarem de guardas que podem prendê-los pelos delitos que cometem. O foco aqui é a realização de um crime específico: infiltrar toda o clã na casa de um casal de ricaços, que precisa de babá, de governanta, de motorista. Todos estão dispostos a fingir que vieram para ajudar: mas o que querem é conforto, dinheiro, prazer. Mas há algo de inusitado guardado no porão do casarão que eles tentam transformar em lar.
“Miyazaki, o mestre japonês da fábula animada foi uma grande inspiração para a minha vida e para ‘Okja’, que concorreu à Palma em 2017. Mas aqui, não, eu preferi um modelo coreano a fim de ter um parâmetro. Minha influência aqui não vem da carga de liberdade da arte de Miyazaki, mas de um diretor, coreano específico: Kim Ki-Young, que dirigiu ‘A criada’ e nos deu uma forma particular de representação”, disse Bong, que tem ainda mais três longas na mostra do Medeia Nimas.

Medeia Nimas exibe versão em P&B de “Gisaengchung”

Lá está o seu primeiro longa-metragem, a comédia noir “Cão Que Ladra Não Morde”, de 2000, feita depois de um trio de curtas-metragens. Ela anuncia já muitos dos temas que viriam a se tornar centrais na sua obra (como uma percepção paranoica da alteridade, como o incômodo com coisas banais do dia a dia), e tem como ponto de partida a angústia de um professor que, irritado com o ladrar de um cachorro no seu prédio, decide tomar medidas drásticas. Tem lá “Mother – A Busca Pela Verdade”, um dos destaques da mostra Um Certain Regard de Cannes, em 2009. Nele, há um retrato de amor maternal compulsivo, que leva uma mãe ao limite para provar que o seu filho não é culpado do crime de que é acusado. E tem “Snowpiercer: Expresso do Amanhã”, o primeiro filme em língua inglesa do realizador, lançado no Brasil em 2015 e expandido numa série da Netflix. Escrito por Bong e por Kelly Masterson, a partir da HQ “Le Transperceneige” (“O Fura-Neve”), de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, o longa conta com interpretações de Tilda Swinton, Chris Evans e John Hurt, e apresenta uma desoladora visão do futuro na qual, após um desastre climático, os únicos sobreviventes no planeta se acotovelam num enorme trem, onde se instalou um rígido sistema de classes – outro tema caro ao cineasta.
Em terras e telas brasileiras, tem Bong Joon Ho na MUBI, com “Tokyo!” (2008), divertidíssimo longa em episódios que ele assina ao lado dos franceses Michel Gondry e Leos Carax. Quem sabe um Espaço Itaú da vida não reproduz a mostra do Medeia Nimas por aí.
Em Veneza, Bong vai escolher o ganhador do Leão de Ouro ao lado de uma esquadra que reúne as atrizes Virginie Efira, Cynthia Erivo e Sarah Gadon e três cineastas: Chloé Zhao, Saverio Costanzo e Alexander Nanau.

p.s.: Um estudo sobre a arte griot, “Noite de Reis” (“La Nuit Des Rois”), de Philippe Lacôte, egresso da Costa do Marfim, vai encerrar o Festival do Rio 2021, neste sábado. É possível conferir essa pérola o dia todo na URL www.telecine.com.br. No universo prisional africano, um rapaz (vivido por Bakary Koné) vai parar uma cadeia violentíssima na floresta, a temida La Maca, cujo “xerife”, Barbe Noire (Steve Tientcheu), tem uma doença respiratória severa, o que extingue o prazo de validade de sua liderança. Ao ver que o garoto recém-chegado tem resiliência, o chefão do xilindró resolve escalá-lo para ser um Roman, ou seja, o contador de histórias oficial da população carcerária. Mas essa escalação acontece em meio a uma disputa de poder. Lançado no Festival de Veneza, o longa, centrado na tradição dos griês, os bardos a’África, ganhou o Prêmio Amplify Voices em Toronto. Destaque para a participação do ator Denis Levant, estrela dos cults de Leos Carax, como um dos presidiários.

p.s. 2: Quarta-feira começa o 74º Festival de Locarno, na Suíça, com “Beckett”, thriller de Ferdinando Cito Filomarino, com John David Washington (de “Tenet”), produzido por Rodrigo Teixeira. Entre as atrações mais esperadas do evento estão “Zeros and Ones”, de Abel Ferrara, e “Luzifer”, de Peter Brunner. Tem sci-fi sobre UFOs (o espanhol “Espíritu sagrado”), comédia comportamental (“Cop Secret”) e fantasia, caso do esperadíssimo “Paradis Sale”, de Bertrand Mandico, diretor francês que virou queridinho da revista “Cahiers du Cinéma” com “Os Garotos Selvagens” (2017). Há já uma torcida se formando em torno de “La Place D’Une Autre” (“Secret Name”), de Aurélia Georges, hoje uma das promessas francesas na direção. O evento vai de 4 a 14 de agosto, com dois curtas-metragens brasileiros na seção competitiva Pardo Di Domani: “A Máquina Infernal”, de Francis Vogner dos Reis (um dos curadores da Mostra de Tiradentes) e “Fantasma Neon”, de Leonardo Martinelli, com dois brilhantes atores, Silvero Pereira e Dennis Pinheiro.

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