Julio Ludemir no coração da prosa… e da periferia

Julio Ludemir no coração da prosa… e da periferia

Rodrigo Fonseca

11 de junho de 2020 | 13h41

Rodrigo Fonseca
Escritos corsários do quilate de um diamante, como “te amar me amanheceu, mas trouxe em seu bojo o inconveniente de me fazer uma pessoa intransigente, que não aceita nada além desse sol doce de outono, desse azul gentil como uma senhora inglesa (…) não sei o que fazer com esse mundo seleto que descobri entre tuas carnes fartas e teria mais preocupações do que um financista se não houvesse a compensação do vinho intenso que emana do seu hálito, para onde voo solene como um beija-flor”, inundam o e-mail de Julio Bernardo Ludemir, piloto da Flup, a Festa Literária das Periferias. São pepitas narrativas apelidadas de “Lembracinhas”, aforismas de dor e de mel que ele rascunhou ao longo dos anos 2010, enviando a amigos queridos, que hoje cobram do escritor pernambucano a reunião desses textos em livro. O momento é o mais adequado: ele fez com seu parceiro de Flup, Écio Salles (morto em 2019), uma coletânea chamada “Contos Para Depois do Ódio”, inspirada em canções de Marcelo Yuka (1965-2019), com ilustrações de Thais Linhares. São 30 contos selecionados por Salles e Julio, 24 dos quais produzidos em um processo de três meses com orientação dos professores Alexandre Farias (UFJF), Miguel Jost e Fred Coelho (PUC Rio) e Cristiane Costa (UFRJ). Os outros seis contos foram assinados por autores consolidados, ainda que com um forte sotaque periférico, como é o caso de Elaine Alves Cruz, Henrique Rodrigues e Marcelo Moutinho. Completam a coletânea Ana Paula Lisboa, Jessé Andarilho e Rodrigo Santos, que tiverem seus primeiros textos publicados em outras edições da FLUP. Em paralelo, Ludemir – autor de “Mais Um Pai”, “Rim por Rim” e “O Bandido da Chacrete” – está se encaminhando para celebrar duas décadas de trajetória como romancista. Começou em 2001 a preparar um livro lendário para a prosa nacional na reflexão do crime: “No Coração do Comando”.

Prateleiras das livrarias foram inundados por essa joia em 2002. Ludemir passou todos os finais de semana de 2001 batendo ponto num presídio carioca, a fim de escrever a história de Valéria e Marquinho. Ela é sobrinha de um chefão do Terceiro Comando. Ele é integrante do Comando Vermelho. Valéria e Marquinho se cruzaram pela primeira vez no Complexo Penitenciário Frei Caneca e, logo, na primeira faísca do querer, as facções rivais proibiram o romance. Presos em cadeias vizinhas – Nelson Hungria e Milton Dias Moreira – eles inventaram meios para se amarem. E essa invenção inunda o livro de poesia.
Ocupado com a Flup, com a saudade de Écio, e com a abstinência provocada pela falta de jogos do Flamengo, nesta pandemia, Ludemir não lança romances há tempos, produzindo a Festa e cuidando de lives ligadas a ela, com novas vozes negras da literatura. A próxima live vai ser na terça-feira, ligado aos 60 anos do livro “Quarto de Despejo”, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977). “A ideia é tentar ampliar o trabalho de vozes negras que estão empenhadas em discutir o livro da Carolina, apresentando narrativa de novas cabelas leitoras criadoras”, disse Julio ao P de Pop. Ele lembra que, na mesa, Andreia Coutinho, conversam com Tião Santos (que teve sua trajetória como catador de material reciclável revisitada em livro e no .doc “Lixo Extraordinário”) e Otávio Cesar Jr. (do projeto Ler é 10 – Leia Favela). “Ambos encontraram seus primeiros livros no lixo, tornando-se intelectuais relevantes, tocando as vidas de mundos”.

Nesta entrevista, Ludemir abre parágrafos sobre inclusões sociais, sem vírgulas morais nem parênteses intolerantes, apoiando-se em verbos de ação.

Que tipo de narrativa “No Coração do Comando” e seus livros posteriores trouxeram para a literatura brasileira, na representação do universo policial e criminal?
JULIO LUDEMIR:
Por ser um homem branco, de origem judaica, com histórico de classe média, sempre sou visto como alguém que fala pelo outro, sempre sou visto como alguém que está narrando um universo ao qual não pertence. Sempre me sinto incomodado com isso. Sou um nordestino, um pernambucano, um migrante, sou uma pessoa que dormiu na rua, que passou fome, por uma série de problemas e de escolhas por vezes danosas, mas o fato de ser uma pessoa branca, com um histórico de classe média sempre me coloca no lugar do privilégio, no patamar de qualquer um desses escritores que tem, historicamente, caracterizado a literatura brasileira como um todo. Mas essa ‘Era da Caracterização’ acabou e a diversidade começa a reinar. E, com ela, tem a vivência. Eu vivi aquilo sobre o qual escrevo. Apesar de sempre ter sido visto como alguém de fora, acho que a grande contribuição que eu possa ter dado, é a de um olhar que, no mínimo, tem empatia, mas é um olhar muito próximo do que estou narrando. Certamente não é um olhar distanciado, nem jornalístico. É um viver. Eu surjo como escritor em 2002. Na verdade, acho que escrevi o livro “No Coração do Comando” em 2001, mas publiquei em 2002, imediatamente após o assassinato do Tim Lopes. Esse assassinato vai ser uma coisa determinante na maneira como o livro foi recebido e como as outras coisas que vou fazer depois são recebidas. Publico o livro menos de um mês depois da morte do Tim. No meu segundo livro, “Sorria, Você Está na Rocinha”, há um racha. Eu vou ser chamado de “O Tim Lopes da Rocinha”. O embate que vou ter dentro da Rocinha, para poder escrever aquele livro, é um embate, de novo, inerente alguém estranho. Mas eu vivi aquele mundo e olhei para ele com empatia. A empatia de um nordestino fora de casa em busca de um lar.
A que mundo a sua literatura te apresentou?
JULIO LUDEMIR:
Quando comecei a fazer “No coração do comando”, fiz para me salvar do suicídio, para produzir uma reflexão sobre a paixão, sobre a inevitabilidade da paixão e sobre como a paixão é necessária para os seres humanos. Peguei duas pessoas tidas como abjetas, como escória da sociedade e associadas à violência e à brutalidade e vou mostrar que aquelas pessoas também viveram a paixão. Na verdade, fui refletir sobre um problema pessoal que estava vivendo na curva dos 40 anos. Hoje, eu rio dele, ao fazer 60 anos, mas é um momento que você começa a entrar em contato com a sua finitude, que minimamente entende que não é mais jovem. Por melhor que esteja a sua saúde, quando você faz 40 anos, a idade é um marco. Para poder sair de uma quase depressão, voltei para a história de uma reportagem que tinha feito sobre o amor bandido, o amor da Valéria com o Marquinho. Histórias de amor são essenciais.

O que dizer do projeto “Contos Para Depois do Ódio” que chega agora à leitura?
JULIO LUDEMIR:
Ele é parte de uma série de livros de narrativas curtas da Flup, Festa Literária que o querido e saudoso Écio Salles e eu desenvolvemos. Eles dialogam com a obra de grandes músicos brasileiros: Bezerra da Silva, Martinho da Vila e Yuka. Tem uma turma poderosa pensando a periferia.
Que novos passos você tem pela frente na produção literária e na realização da Flup?
JULIO LUDEMIR:
Teve um laboratório de narrativas negras para audiovisual que a Flup fez. Isso produziu mais de 100 argumentos, alguns já comprados e outros em processo de adaptação para o cinema. Uma narrativa de uma molecada preta de diferentes idades. A primeira geração já era uma turma mais cascuda perto dos 40 anos. Enxerguei nessa turma, que está indo para o cinema e vê muitas séries, alguma coisa que não estou conseguindo mapear na literatura. Há nessa galera uma narrativa em que se propõe um diálogo com a realidade. Tenho visto uma poesia poderosíssima, produzida na periferia, cada vez mais vozes novas aparecendo com muita maturidade. Tenho visto mulheres negras produzindo poesia de uma forma como nunca aconteceu na história desse país, com um sotaque, com uma abordagem, com uma leitura de violência de gênero, do machismo, do que é ser uma mãe negra brasileira, do que é você ser uma Mirtes, a mãe do Miguel, alvo de uma tragédia sem precedentes.
Qual é a nova literatura que está sendo escrita pela realidade brasileira?
JULIO LUDEMIR:
Neste momento, chama muita atenção a turma negra que está migrando para o audiovisual. Tem uma turma da periferia que emergiu a partir dos laboratórios de narrativas negras e tive a honra de cruzar com muitas e muitos pela Flup. Esses roteiristas, que estão chegando ao mercado agora, estão propondo uma narrativa sobre o Brasil com o sotaque das séries que a gente não tinha. Tem os irmãos Carvalho, que estão na Globo, a Mariana Jaspe, que também está lá. Essa turma está vindo com uma densidade inédita. Tem uma mulher chamada Juliana Berlim. Ela tem um conto chamado “O Mito”, que é de uma sofisticação intelectual em que ela incorpora o personagem do Yuka morrendo e com todas as dificuldades de locomoção dele, cansado de tanto sofrimento e tanta dor. Tem um cara como o Evandro da Conceição, que produz uma literatura gay. Esse cara traz as vozes da homossexualidade e as diversas camadas de uma homossexualidade popular que também não está no GPS da literatura brasileira. É uma revolução.
Que caminhos a Flup pode tomar nessa atual cultura de lives em que vivemos?
JULIO LUDEMIR:
A coisa da live é um meio de expressão que está para a junho de 2020, como os eventos do Facebook estiveram para junho de 2013 e como o rock e uma música popular esteve para 1968. Estamos vivendo, nesse momento, uma emergência como que tivemos nesses períodos da história. Lembrando que, em cada um desses períodos, a gente tinha uma voz original emergindo. Comparando o que a gente está vivendo, com o que se viveu em 1968, você também encontra revoluções. Você tinha na década da contracultura, uma geração de filhos de uma classe operária branca dizendo que não iria repetir a trajetória proposta pelos pais. Existia um nível de intolerância naquela geração em relação à afabilidade dos seus pais que iriam morrer na guerra. Agora a gente tem a emergência desses novos atores sociais negros, com mulheres negras e homens negros criando, vivendo com tradições semelhantes. É um novo ator negro que foi para as universidades, que tirou proveito das ações afirmativas. Ele amadureceu e se impôs como uma nova voz. Eu faria uma terceira comparação. O século passado foi dominado por um debate racial e religioso, em especial o antissemitismo. Ele produziu duas guerras, gerando o nazismo e o fascismo em sua escala maior. Ainda que a gente estivesse falando o tempo inteiro de religião, a gente estava falando de racismo. Mas grandes narrativas emergiram, em uma resposta crítica a esse racismo, quando aquela situação se resolveu, ao final da Segunda Guerra, depois de grandes conflitos armados. Ela dialoga com uma emergência que foi permanentemente sufocada nos períodos anteriores. Desde a revolução burguesa, a questão judaica vem emergindo e, permanentemente, ela é sufocada. As grandes narrativas do pós-guerra são as narrativas dos judeus – e eu sou judeu – que conseguem dar uma universalidade àquilo. “A Lista de Schindler” é um exemplo: para além das minhas origens judaicas, eu vi o filme como se aquilo estivesse acontecendo comigo. Aquilo não foi apresentado como um debate religioso ou identitário, e sim, como uma grande questão humanitária universal. Aquela ação entre amigos dos judeus, vai permitir que eles ocupem e disputem narrativas, e se tornem as principais vozes de um período pós-guerra, apresentando a grande tragédia que foi a guerra. Eu te diria que estamos vivendo uma coisa semelhante em relação ao negro. O grande debate voltou a ser racial, mas sem aquele viés religioso, no qual se embutia o ódio ao judeu. Esse ódio ao negro, produz tragédias extraordinárias que serão narradas por esse negro que está indo para a rua, mas também está indo ao cinema e ao teatro. Eles estão produzindo e sofisticando cada vez mais essas narrativas.

Écio Salles e Julio Ludemir: Festa Literária das Periferias

Que vozes já explodem nessa representação?
JULIO LUDEMIR:
Acho que aquilo que em algum momento era uma exceção, e não foi entendido ainda em suas diversas camadas, hoje explodiu: a literatura negra de periferia é o futuro. Por que Chimamanda Ngozi Adichie fez tanto sucesso? Tem uma qualidade literária enorme em Chimamanda, que produz isso, mas você tem que produzir a qualidade de quem lê. Hoje em dia, torna-se uma obrigação de ler a Chimamanda, mas existem os leitores originais dela. Eles que mostraram que ela estava para além do gueto, para além da inclusão. São milhões de pessoas lendo suas palavras. A Chimamanda produziu muitas outras autoras e quanto mais autoras surgiram nesse campo, mais leitoras também surgiam. Tem uma emergência dessa literatura, como em algum momento houve a emergência do grande drama que foi a perseguição aos judeus, que foi você morrer apenas por ser judeu. Como hoje em dia, o George Floyd morre apenas por ser negro. Aquela violência perpetrada por um policial branco ao George Floyd torna urgente na literatura uma debate sobre quem vai narrar essa tragédia: e ela precisa ser narrada por vozes negras. Acho que quem vai narrar isso é essa turma negra que foi para a universidade. Obvio que os grandes trabalhos populares são dos negros e dos migrantes. Esse migrante fez filhos e esse filho cresceu como um cidadão americano e por mais que o debate racial esteja sendo sequestrado por uma violência policial, está emergindo como existencialismo na figura dessas novas vozes narradoras. Isso é uma digressão que faço a partir da live. Ela entra para a história como um produto dessa época, que é, também, a época da grande convulsão do povo negro. Principalmente, nos lugares em que o Estado inexiste como nos Estados Unidos e no nosso Brasil.
Qual é a nova literatura policial que está aparecendo nas periferias?
JULIO LUDEMIR: Não dá para falar de literatura policial no Brasil, principalmente para a minha geração, sem falar do Rubem Fonseca. Ele é o cara, cuja história passava por delegacias e, ao mesmo tempo, era muito próximo e muito distante de tudo e de todos. Ele apresenta uma cidade violenta, mas acho que ele apresenta uma cidade mais do crime, do que da favela. Fala mais de uma repercussão das grandes contradições da cidade, na cidade formal e não na favela. Não vejo o Rubem subindo o morro e falando dele. Ele fala de outra violência e de outro nível de investigação. Como são os livros da literatura brasileira, geralmente. Mesmo a Patrícia Melo, com o “Inferno”, que é absolutamente bem escrito, abre um debate geopolítico. Você percebe claramente que ela não é uma pessoa da favela; percebe claramente que ela é uma mulher branca de classe média – por mais interessantes que sejam os livros dela. Mas há novas vozes vindo, olhando a favela de dentro. Vozes nordestinas que vivem nas favelas do Rio e de SP e de outros pontos do Brasil. Vozes de mulheres autoras. Vozes gays. Essas vozes vão além do que a academia mapeou. Elas são um caminho da renovação.

p.s.: Tem novidade da Sergio Bonelli Editore na indústria europeia de HQs: o thriller “Zardo”, escrito por Tiziano Sclavi e desenhado por Emiliano Mammucari. Nessa HQ noir, Federico encontra o corpo morto do ex de sua namorada e precisa sumir com o cadáver a fim de protege-la. Mas a morte pode encobrir segredos.

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