Júlio Calasso nas quebradas de Plínio Marcos

Júlio Calasso nas quebradas de Plínio Marcos

Rodrigo Fonseca

13 de maio de 2021 | 12h12

“Navalha na Carne”, como Tônia Carrero, Emiliano Queiroz e Nelson Xavier

Rodrigo Fonseca
Demolidor em sua relação com a Publicidade, avesso ao caráter invasivo do comerciais, ácido em reação à apatia das classes abastadas, apaixonado em seu comprometimento com figuras degredadas, Plínio Marcos de Barros (1935-1999) certa vez visitou uma prisão onde viu uma presidiária colocar uma gilete no braço de uma colega de xilindró, soropositiva, a fim de usar o sangue da detenta como arma, para barganhar. O choque dessa situação causou-lhe engulhos, mas também trouxe inspirações. Inspirações para fazer seguir uma dramaturgia iniciada em 1958, com “Barrela” e estendida até 1997, quando saíram da prensa “O Bote da Loba” e “Chico Viola”. “Eu, como repórter de um tempo mau, fiz a terra tremer várias vezes”, dizia e escrevia (em papel de embrulhar pão) o dramaturgo santista, cuja trajetória poética é abordada em forma de colagem no possante documentário “Plínio Marcos Nas Quebradas do Mundaréu”, de Julio Calasso. Raras vezes, na história recente das narrativas documentais do Brasil, o dispositivo da colagem foi usado tão inteligentemente para criar um retrato biográfico. É fácil conferir as soluções criativas do diretor ao revisitar as inquietações sociais e estética de PM a partir de peças como “Navalha na Carne” (1967) e “Dois Perdidos Numa Suja” (1966), resgatando, com brilhantismo, as várias adaptações desses textos para o cinema. Basta conferir o trabalho de Calasso na retrospectiva online Estação Virtual. Tem um mar de filmes – são 180 ao todo – no festival idealizado pelo Grupo Estação para propor uma triagem dos últimos 35 anos de cinema brasileiro, que pode ser acompanhado via web a partir da URL www.grupoestacao.com.br. Lá estão pérolas recentes como os documentário “Torre das Donzelas”, de Susanna Lira; “Drežnica” (2008), de Anna Azevedo; “Cativas – Presas Pelo Coração” (2014), de Joana Nin; e o aclamado “Cinema Novo”, que deu a Eryk Rocha o troféu L’Oeil d’Or em Cannes. Entram em exibição ainda ficções como “Introdução à Música do Sangue”, de Luiz Carlos Lacerda; “A Febre”, de Maya Da-Rin; “A Hora da Estrela”, de Suzana Amaral; “Lá do Alto”, de Luciano Vidigal; “Ralé”, de Helena Ignez; “2 Perdidos Numa Noite Suja”, de José Joffily; e “Lavoura Arcaica”, de Luiz Fernando Carvalho. A curadoria é assinada por Adriana Rattes, Cavi Borges, Liliam Hargreaves, Anna Fabry, Bebeto Abrantes, Fabrício Duque e Luiz Eduardo Pereira de Souza.

Calasso perfila Plínio por vias originais, ouvindo seus colaboradores e amigos, como o escritor Pedro Bandeira (de “A Droga da Obediência”), reunindo desabafos do próprio autor teatral a reforçarem uma de suas teses centrais: “Não faço teatro para o povo, mas o faço em favor do povo. Faço teatro para incomodar os que estão sossegados”. Encontramos na narrativa tudo o que se espera de uma biopic, alicerçado numa reflexão sobre diferentes pontos de vista que cineastas nacionais (Braz Chediak, Neville D’Almeida) trouxeram a partir de sua carpintaria dramatúrgica. Explorando a ideia de que Santos era a “Moscou brasileira” nos anos 1950 e 60, Calasso usa depoimentos do filho (o músico e autor Leo Lama) e da ex-mulher dele, a genial atriz Walderez de Barros, para entender as angústias criativas de PM num plano existencial. Um dos pontos de maior iluminação do filme é o resgate de uma palestra que reuniu Tônia Carrero (1922-2018), Emiliano Queiroz e Nelson Xavier (1941–2017) falando de PM, numa arqueologia de método.

E Tem mais PM no Estação Virtual. Hemorrágico em sua incontinente exposição de exclusões, “Dois Perdidos Numa Noite Suja”, a peça entra na mostra do Estação a partir da releitura que José Joffily fez dos escritos de Plínio, com Débora Falabella e Roberto Bomtempo, em 2002. A partir de inquietações pessoais ligadas aos conflitos de quem foi tentar a sorte nos EUA, o realizador de “A Maldição do Sampaku” (1991) transferiu para Nova York a poética oriunda da zona portuária de Santos. Joffily mostra a Grande Maçã como a Terra Prometida dos que buscam um endinheiramento longe do berço, construindo um “Perdidos na Noite” (“Midnight Cowboy”, 1969) brasileiro. A canção tema do longa com Débora e Bomtempo, “Dois Perdidos”, cantada por Arnaldo Antunes, é um achado.

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