Juliette Binoche nas estradas de Locarno

Juliette Binoche nas estradas de Locarno

Rodrigo Fonseca

05 de agosto de 2022 | 20h38

Juliette Binoche cruza os EUA num caminhão no papel da motorista Sally, em “Paradise Highway”

RODRIGO FONSECA
Signo vivo de delicadeza mesmo quando encara papéis ásperos, como a enfermeira Hana de “O Paciente Inglês”, pelo qual ganhou um Oscar, em 1997, Juliette Binoche transcende mesmo as mais estilizadas personagens de sua carreira, ao encarnar uma caminhoneira calejada pela dor, à frente de “Paradise Highway”, exibido esta noite no 75º Festival de Locarno. Sede do evento, a Suíça exibe o longa mais uma vez neste sábado, na Piazza Grande, mais nobre área de congregação audiovisual da cidade, que fica a duas horas de ônibus de Milão. Dirigida por Anna Gutto, uma atriz e realizadora de curtas-metragens, a produção foi lançada nos EUA no fim de julho. Juliette deixa seu Francês parisiense de berço de lado, e atua em Inglês, vivendo Sally, motorista que aceita conduzir cargas ilegais para ajudar seu irmão, o presidiário Dennis (Frank Grillo, em impecável atuação). Uma dessas cargas é uma menina, Leila (Hala Finley), que será negociada num esquema de tráfico sexual de menores. Sally se enerva ao perceber no que se meteu, mas Dennis jura que será morto se ela não entregar a garota a um aliciador de jovens. Eis que, antes da entrega, Leila se rebela e fere mortalmente o homem a quem seria confiada, o que põe Sally numa estrada de perigos. Estrada essa pavimentada a tensão e pura sororidade, num empenho de sua cineasta em quebrar arquétipos. Uma relação maternal vai brotar entre Leila e Sally, que vai se redesenhando numa aquarela de fragilidades e doçuras. Só que o risco em volta de sua jornada é grande, representado, em parte, por um consultor do FBI vivido por Morgan Freeman.
“Atuar é saber se adaptar mundos distintos, captando e traduzindo espíritos críticos ou poéticos sobre a vida. A poesia de Claire passa pela sinceridade”, disse Juliette ao Estadão na 72ª Berlinale, em fevereiro, quando “Paradise Highway” era finalizado. “Gosto muito de trabalhar com jovens diretores e curtir o frescor de novas formas de olhar o mundo”.

Na ocasião, ela participou do Festival de Berlim com “Avec Amour et Acharnement”, que deu o Urso de Prata de Melhor Direção para Claire Denis, na capital alemã. Na Suíça, a curadoria de Locarno, pilotada pelo crítico Giona A. Nazzaro, encontrou em “Paradise Highway” uma ponte com a tradição dos suspenses on the road. Mas é uma ponte que celebra a força feminina.
Nesta sexta-feira, a Piazza Grande aplaudiu o fenômeno de bilheteria “Um Lugar Bem Longe Daqui”. A adaptação para as telas de “Where The Crawdads Sing”, de Delia Owens – que vendeu dois milhões de exemplares lá fora, e brilha nas livrarias do Brasil, em edição finíssima da Intrínseca – é uma gratíssima atualização das narrativas de tom folhetinesco. Um tempero de thriller jurídico equilibra sua cota de sacarose. Sua receita na venda de ingressos já está em US$ 68 milhões. Chove elogio para a direção segura de Olivia Newman (de “Minha Primeira Luta”). Vai ter até sessão dele na Piazza Grande do Festival de Locarno nesta sexta, com todos os brios e loas que o evento suíço, feito sob a curadoria do crítico Giona A. Nazzaro oferece. Na trama, uma jovem catadora de mexilhões, Kya (Daisy Edgar-Jones), criada num pântano sem pai nem mãe, é acusada de assassinato no momento em que vê sua vida avançar, ao se dedicar ao desenho de conchas. Daisy é de uma vitalidade estonteante em sua atuação, sem derrapar um segundo sequer em sua composição de personagem. David Strathairn é a única voz do elenco que se sobrepõe à dele, no papel de Tom Milton, o dedicado advogado de defesa da moça. A edição joga com a memória, o passado e o presente de maneira sinuosa, criando uma tensão de prender o espectador na poltrona e jogar a chave fora.
Locarno segue até o dia 13. No dia 10, a cidade confere “Regra 34”, longa brasileiro que concorre ao Leopardo de Ouro, rodado por Julia Murat.

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