Juliette Binoche ilumina as telas

Juliette Binoche ilumina as telas

Rodrigo Fonseca

30 de junho de 2021 | 09h25

RODRIGO FONSECA
Enfim chegou ao Brasil o delicadíssimo “A Boa Esposa” (“La Bonne Épouse”), de Martin Provost, que arranca de Juliette Binoche uma de suas mais inspiradas atuações. No calor dos debates antissexismo, esta comédia revisionista, calcada na arte da sororidade, ganhou às telas da França no dia 11 de março, com a promessa de faturar alguns milhares de euros. Ao longo de dois meses em circuitos parisienses e nas salas de Marselha, Nice, Annecy & cia, o longa-metragem somou 600 mil ingressos vendidos. Só em seus três primeiros dias em cartaz, o filme foi visto por 171 mil pagantes. A presença de Juliette candidata este novo trabalho do diretor de “Violette” (2013) e de “O Reencontro” (2017) à Eternidade. Sua protagonista esbanja humor no papel de Paulette Van Der Beck, dona de uma escola dedicada a ensinar “boas maneiras” a mulheres às vésperas do casamento, formando “esposas prendadas”. Mas a morte do marido (e sócio) de Paulette revela algumas verdades: a) uma falência anunciada; b) um histórico de falsidades; c) o torvelinho da História, que, em 1968, trouxe uma revolução comportamental para alcovas e outros cômodos do lar. Ela vai descobrir que suas aulas do passado eram um convite à submissão. Sua jornada, no longa, terá a liberação feminina como norte.

“Precisamos rever a força da mulher em toda a História. Já. Não há como revisitar 1968 sem falar da renovação das relações humanas a partir do que as feministas defenderam e conquistaram. O papel delas foi… e é… fundamental para que as cobertas da hipocrisia machista pudessem ser levantadas, desnunando abusos e silêncios. Hoje temos um novo coro de vozes se formando que precisa ser ouvido”, disse Provost ao P de Pop durante o Rendez-vous Avec Le Cinéma Français, fórum audiovisual realizado em Paris. “Com as personagens fortes que eu tinha, e a força do feminino à minha volta, meu trabalho era não incorrer em ostentações narrativas que tirassem o foco das discussões levantadas ali, naquele contexto histórico”.

Uma pergunta norteia a narrativa criada pelo diretor (e também ator) em “La Bonne Épouse”: e se o ideal de “mulher perfeita” for o conceito de “mulher livre”? A partir dela, o cineasta e suas atrizes vão demolindo o machismo. “Bastou encontrar a casa onde se situa a escola de Paulette e todo o desenho formal do filme estava definido: a locação desenhou a direção de arte”, diz Provost. “Aquela casa onde filmamos me deu a paleta de cores de que precisávamos”.

Há uma sequência musical antológica nos minutos finais do filme em que Provost desfila toda sua sofisticação.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.