Julien Temple sacode San Sebastián

Julien Temple sacode San Sebastián

Rodrigo Fonseca

19 de setembro de 2020 | 17h04

O músico e poeta Shane MacGowan

Rodrigo Fonseca
Velho amigo do Brasil, onde rodou “Running Out of Luck” (1985), unindo insalubremente Mick Jagger a Paulo César Peréio, Julien Temple deu ao 68. Festival de San Sebastián uma catarse daquelas de ficar na memória… e na saudade… com”Crock of Gold: A Few Rounds With Shame MacGowan”. É um daqueles .docs personalistas (o foco é no poeta, canto e compositor por trás do êxito da banda The Pogues) que extrapolam – e muito – os limites de seu biógrafado, fazendo um painel de uma época ou de um modo de ser. Apesar de sua estrutura ser um Frankenstein, a juntar desenho animado, arquivos, entrevistas e filmagens de shows, o longa-metragem, em concurso pela Concha de Ouro do evento espanhol, não sai do prumo um segundo que seja. E não há uma só sequência que não termine em risos (dos depoentes e da plateia) ou em doces lagriminhas. Apesar de estar em baixa em sua trajetória como ator, Johnny Depp, um amigo de longa data (30 anos) do sexagenário MacGowan, sai-se muito bem no posto de produtor, facilitando o acesso de Temple a pessoas e a imagens. Depp aparece várias vezes entornando Caninha da Roça com Shane e arrancando do músico feitos etílicos, narcóticos e roqueiros. A cada causo, vemos um balanço da condição suicida de artistas avessos a fórmulas de sucesso óbvio, como Depp um dia foi antes de sua fase Jack Sparrow. Fase essa de que ele mesmo debocha no documentário, que merecia um prêmio de contribuição artística por sua montagem, assinada por Caroline Richards. A loucura de não se render (nem às próprias convicções) é o tônus do longa que mostra o quanto Temple é um gigante como documentarista, e em especial como retratista. Sei olhar se concentrar aqui em tracejar as raízes irlandesas de Shane e completar os pontilhados com uma reflexão sobre o que essa condição de “Irlanda na veia” gera… política e artísticamente. O resultado, na tela, é uma avenida de causos, porres e tratados de resiliência, revivendo uma geração que enxergou naquele tal de roquenrol seu Graal. Rola filme aqui em San Sebastián até sábado que vem, quando o diretor italiano Luca Guadagnino (“Me Chame Pelo Seu Nome”) anuncia os ganhadores de prêmios. Que não se esqueçam de Temple até lá.

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