Julia Rezende e o lívido cinema dos millennials

Julia Rezende e o lívido cinema dos millennials

Rodrigo Fonseca

14 de dezembro de 2019 | 12h04

Rodrigo Fonseca
Diretora de blockbusters a granel (a franquia “Meu passado em condena” e “De pernas pro ar 3”), Julia Rezende é uma ave rara entre os realizadores que colecionam bilheterias na marca do milhão no cinemão nacional, por estabelecer uma dicção muito singular das vozes de sua geração, driblando as naftalinas da comédia chanchadesca do Brasil e criando crônicas de afetos. Crônicas que, hoje, encontram em Débora Falabella uma tradução perfeita, no tráfego entre o acerto e do desacerto do pulso, da alma, do coração. Associada a uma persona Amélie Poulain em seu início de carreira, quando viveu um devir namoradinha do Brasil em “Lisbela e o Prisioneiro” (2003), a atriz mineira nunca se fixou nem a este nem a qualquer outro rótulo em sua jornada pelas telas. Julga-se sua coragem pela opção em viver Paco “maluca e perigosa” no devastador “2 Perdidos Numa Noite Suja” (2002), de José Joffily, e a autista Manuela, de “Meu país” (2011). Some aí a jornada de riscos que optou correr, na TV, numa escolha de personagens que atomizassem as convenções de heroína, a julgar pela Nina de “Avenida Brasil” (2012), hoje em reprise na Globo, e o vindouro “Aruanas”, bem-vindo gesto de sororidade. São raras as aparições dela no cinema, mas sua atuação na tela grande sempre é refrescante para o olhar, pela inquietação de seu instinto de autodesconstrução, que alcança, agora, um perfil e uma linguagem mais conectada com a geração millennial em “Depois a louca sou eu”, (emotiva) atração deste sábado, às 21h30, no Estação Net Botafogo, no Festival do Rio. Trata-se… de longe… de seu melhor desempenho em solo cinematográfico desde “Lisbela”, com o diferencial de ser um exercício 100% autoral de uma cineasta, Julia, que se impõe como interlocutora entre estéticas mais populares e um público cevado a séries, a Radiohead, a Michel Gondry e a “Como se fosse a primeira vez” (2004).
Impondo-se com frescor, em meio à oferta (rala) de levezas em nosso cinema, graças a uma montagem alheia a causalidades, assinada por Maria Rezende, “Depois a louca sou eu” alça voo a partir do livro homônimo de Tati Bernardi e se estabelece como uma micareta de sensações e experimentações audiovisuais. Tem vinheta, tem animação, tem hipertexto, tem cara de rede social… mas é Filme, com sua força narrativa calçada na fotografia de Pablo Baião, de colorido tropical. Estamos, quase que 70% do tempo em São Paulo, uma SP fria, mas que é destituída de sua pigmentação acinzentada no cromatismo de Baião. Temos aqui algo próximo de uma dramédia… uma dramédia de amor (por si mesma), sem pudores inerentes ao filão mais populista de nossa indústria. Tem nudez, há surtos, há low points afetivos duros, há quilos de ansiolíticos sendo consumidos… enfim… tudo o que não se vê no gênero. Mas o que se vê menos ainda é um padrão de encantamento, no olhar para o mundo, qual o de Julia, que comanda aqui a história de como a publicitária e escritora Dani (La Falabella, gloriosa em cena) aprende a domar os rugidos de seu inconsciente na peleja com a ansiedade.

Seu cinema de humor é diferenciado sobretudo na comparação com o ethos da neochanchada (um filão sintonizado com a ascensão das classes C e D, subjetivando figuras que subiram na pirâmide social durante a Era Lula e a Era Dilma, de pernas pro ar pro consumo, até que a sorte nos separasse deles). Existe uma delicadeza de múltiplos matizes na maneira como Julia faz uma crônica de costumes a fim de fazer rir. Sua delicadeza é de jovem, com afirmação do feminino. Uma delicadeza de quem domina (e regurgita) referências da Era Ploc e dos anos 2000, de “Chaves” a “Freaks and Geeks”, lidas à luz de uma brasilidade imparável, capaz de falar frontalmente com a mais desconhecida de todas as audiências do Presente: os millennials. Julia talvez seja (ou filme como) uma deles, daí falar com essa plateia – a consumidora mais ávida de toda a cauda longa do Mundo Contemporâneo – de modo frontal. E ela não é a única a dançar o millennial mambo: temos Matheus Souza (“Apenas o fim”), temos Paulinho Caruso e Teodoro Poppovic (de “TOC”) e Pedro Amorim, que lança “Carlinhos e Carlão” no Festival nesta segunda, no Odeon.
Depois do terceiro “De pernas pro ar” e do (excepcional) “Como é cruel viver assim” (2017), Julia apostou na dramaturgia cronista de Tati preservando a argúcia da autora na observação dos dilemas existenciais de suas personagens – algo que o roteiro de Gustavo Lipsztein captou com elegância. No início do filme temos uma metáfora de preciosidade: uma menina carrega um saquinho de bolas de gude, como se essas fossem sua essência – caiu, quebrou. Por toda a sua vida, repleta de autossabotagens, a menina, Dani, papel de Débora, vai criando brechas de desastre, a fim de se descarrilhar dos trilhos da satisfação. Baldes de rivotril vão tornar mais escorregadio o chão por onde ela desfila seu tic tac de Diane Keaton (em “Presente de grego”). Dona de um texto primoroso e de sacadas irônicas singulares (como a anedota sobre o pavão dadeiro), Dani vai sendo promovida em seu desejo de viver da pena e brilhar pela palavra. Mas no parágrafo dos quereres, ela prejudica uns amores aqui e aposta em roubadas acolá. Vai de um Apolo apaixonado (Rômulo Arantes Neto, uma presença sempre imponente por seu amplo ferramental de composição) a um dublê de Adam Sandler, um psicólogo de placas coladas vivido pelo pirilâmpico Gustavo Vaz (vejam “Maria do Caritô” para dimensionar a potência do cara). Com sua habilidade de alternar fragilidade e “maluquêz”, Vaz busca traços de “50 First Dates” para o longa de Julia: esse é o título original de “Como se fosse a primeira vez”, no qual Sandler tinha de conquistar Drew Barrymore todos os dias. O personagem de Vaz é looser obstinado, um apaixonado que, como Dani, boicota-se no marejar dos devaneios de sua psiquê.

Ele “panica” da mesma forma como Caio Blat panicava em “Ponte Aérea” (2015), o trabalho que deu a Julia respeitabilidade, fãs e um norte autoral. E, como acontecia com Blat e Letícia Colin naquele belo romance, aqui, a paixão há de ser mais forte do que os medos da mente. Juntos, ela e ele, Debora e Vaz, formam o par romântico mais bonito do cinema brasileiro em 2019, de mãos dadas ao som dos Beach Boys… na mesma canção de “Como se fosse…”, indicando que esta não é a… primeira vez dessa sensação de transbordamento, no cinema, mas reforçando a sensação de que o querer precisa ser renovado, de novo, de novo e de novo, apesar dos precipícios. Mais ou menos como é o caso do cinema de autor, coisa que Julia faz como ninguém… renovando plateias.
Tem mais uma dose de “Depois a louca sou eu” neste domingo, às 19h, no Roxy.
p.s.: Nas mostras paralelas da Première, vale curtir “Pacarrete”, o vencedor absoluto de Gramado, com a saga do dia a dia de uma bailarina excêntrica do Ceará (Marcélia Cartaxo). A triangulação entre ela João Miguel e uma inspirada Soia Lira rende momentos de epifania.

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