Julia Lund e Luiz Felipe Reis ‘cassavetiando’

Julia Lund e Luiz Felipe Reis ‘cassavetiando’

Rodrigo Fonseca

11 de outubro de 2020 | 10h48

Labirinto entre teatro e cinema, “Tudo Que Brilha no Escuro” leva Julia Lund a uma jornada pela memória e pela vivência da arte

Rodrigo Fonseca
Mesmo parecendo dizeres de para-choque de caminhão, as palavras de Haruki Murakami, em um dos parágrafos mais analgésicos de sua literatura – “E quando a tempestade tiver passado, mal te lembrarás de ter conseguido atravessá-la, de ter conseguido sobreviver. Nem sequer terás a certeza de a tormenta ter realmente chegado ao fim. Mas uma coisa é certa. Quando saíres da tempestade já não serás a mesma pessoa. Só assim as tempestades fazem sentido” – são poesia, são farol e são lanterna para iluminar o bosque de sentidos da performance verbo + vídeo, mezzo teatro mezzo cinema e tutti insieme, “TUDO QUE BRILHA NO ESCURO”. Ela vai estar no ar na web esta noite, no YouTube. Cita-se aqui o autor de “Kafka à Beira-Mar” (2002), nascido em Kyoto em janeiro de 1949, menos pelo fato de o texto vivificado na saliva e nos olhares da atriz Julia Lund enveredar pelo Japão e mais por Murakami nos conduzir a um ritual de “vou de volta”, pra dentro, pra instância onde as almas se alquebram. Não por acaso, ele escreve: “O silêncio, eu descobri, é algo que você na verdade ouve”. Curiosamente, Julia, neste bem-casado de potências cênicas com Luiz Felipe Reis, fala em referência (e reverência) ao Teatro: “As pessoas têm medo do silêncio: os atores, a plateia. Elas começam a falar, a tossir, a preencher (…) As pessoas se esforçam demais para parecer serem completas”. Daí falarmos da tempestade, aquela fria e gotejada citada pelo autor nipônico. E daí a suspeita de que esta delicada valsa de palavras e de enquadramentos (revelando uma força cinematográfica singular no olhar de Reis, como diretor) trata de preenchimentos, em seu périplo entre perdas. Julia, indo da explosão à implosão, como no feérico espetáculo “GALÁXIAS I: TODO ESSE CÉU É UM DESERTO DE CORAÇÕES PULVERIZADOS” (2018), leva a gente a uma maré cheia de desapegos ao narrar o processo de autoafirmação de uma atriz em cicatrização. “É como se a memória, assim como o amor, também tivesse vida própria”, desabafa ela, numa demarcação de que a recordação é o astrolábio do viver, guiando as caravelas da maturidade a uma aventura onde cada escoriação é um feito, onde cada farpa inflama um aprendizado. Por isso, Murakami, amigo que é, avisa: “É como Tolstoi disse: a felicidade é uma alegoria, a infelicidade é uma história”. Por isso, a jornada de Lund começa num plano estático, da cabeça ao tórax, compreendendo o que deve ser sabido: a mulher em cena passou por uma separação, sendo deixada por seu companheiro, também ator, antes de entrar no palco para uma peça que faziam juntos. É um relato de raiva que não arde, mas cozinha a fogo brando: “Meu corpo tava em Krypton quando você venerava ele? Minha boca tava em Krypton quando você gozava nela?”, pergunta essa Shirley Valentine em tempos de juventude, ao compartilhar conosco o divórcio de quereres por que passou. E sai dele para um lugar de reflexão sobre o masculino e sobre as resistências e resiliências do feminino. “A imaginação é fincada naquilo que a gente quer acreditar”, pondera Ela/Julia, num palavreado esculpido a cinzel por Reis, tirado parte de seu abismo, parte de Pascal Rambert e de Jean-Claude Carrière. Neste trecho do espetáculo/filme (sim, eles fizeram um filme bom, vestido de peça; e fizeram uma peça trajada de filme), a “imaginação” é o lugar do ressentimento e da cobrança. E é importante que o seja, pois é dali que a protagonista decide viajar pr’aquelas paisagens japonesas que Scarlett Johansson regou com o marejar de seus olhos em “Lost in Translation” (“Encontros e Desencontros”, 2003), de Santa Sofia. Coppola deu de presente ao mundo uma história sobre o engasgo e o sufoco. Mas, como bem diz Julia, sua contraparte em “TUDO QUE BRILHA NO ESCURO” não conta com um Bill Murray pra chamar de seu. Nem por isso, ela vai deixar de aprender(-se), como aprendeu(-se) Scarlett, compartilhando suas descobertas com a gente. A ida à Ásia é uma das baldeações do trabalho desse Cassavetes da exasperação sem respostas que é Reis e dessa Gena Rowlands sob a influência da vertigem cênicas que é Lund. Param ainda em Paris, para esquadrinhar a relação com um amigo saudoso e falar de listas… aqueles Top Ten de filmes, canções, músicas. A fantasia “Labyrinth” (“Labirinto, a Magia do Tempo”, 1986), de Jim Henson, aparece ali como citação e como mais um anzol para sermos fisgados para a travessia de uma artista – travessia primeiro pelo mundo; depois (e sempre), por si. “David Bowie é muita vontade de viver”, anuncia Julia. Mas o trabalho que ela e Reis fizeram também é, em sua certeza de que somos o que fazemos com paixão e ardor – no caso, o fazer teatral Na trilha sonora, Pedro Sodré rega essa declaração de fidelidade à cena aberta com brandura. E vale ressaltar que a operação de câmera de Reis é algo a ser notado e aplaudido pelo Audiovisual, pois tem um cineasta nascendo ali, com uma atriz de firmeza, rigor e lirismo a seu lado. Como dissemos lá no começo, tem mais dessa narrativa neste domingo, no YouTube, às 18h, via Sympla. Chega lá por aqui ó:
https://www.sympla.com.br/polifonicacia
Vá e fique, pois como Murakami diz: “Mesmo se nós pudéssemos voltar atrás, provavelmente nunca terminaríamos onde começamos”.

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