Jovens no foco de Sandra Werneck

Jovens no foco de Sandra Werneck

Rodrigo Fonseca

28 de novembro de 2020 | 11h47

A realizadora de “Amores Possíveis” (prêmio de melhor filme latino-americano de Sundance, em 2001) na sala de Zoom do Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Entre blockbusters (“Cazuza – O Tempo Não Para”), cults (“Pequeno Dicionário Amoroso”) e poesias de guerrilha (“Mexeu Com Uma, Mexeu Com Todas”), a carreira anfíbia de Sandra Werneck na direção de longas-metragens, entre .doc e ficção, foi cartografada no seminário Na Real_Virtual, na sexta. O papo partiu dos afetos por ela alimentados e registrados desde 1991, quando despontou com “Guerra dos Meninos”. “Todos os meus filmes com crianças e adolescentes são uma forma de entender como aquelas vidas estavam em risco. Eu penso muito no futuro do país e sempre me interessei muito por conhecer esses jovens em situação de risco. Sempre me mobiliza muito entender o motivo que leva uma criança de 12 anos a precisar trabalhar no Brasil. Quando me envolvo com esses personagens existe algo de emocional, na convivência. Tenho um trabalho longo de pesquisa e aproximação”, definiu-se Sandra no evento, regado a falas emocionadas dela e da produtora Gisela Câmara, sua parceria no seminal “Meninas”, exibido na Berlinale de 2006, levando à Alemanha um estudo sobre gravidez na adolescência. “Depois de fazer o filme, eu entendi o motivo de elas ficarem grávidas cedo. A função dessas meninas é cuidar dos irmãos. Com isso, elas acham que, sendo mães na comunidade, passarão a ter um status muito maior. Elas passam a ter algo delas, um filho”.

Faltam agora dois debates para encerrar o simpósio organizado sob a curadoria de Carlos Alberto Mattos e Bebeto Abrantes, produzido por Marcio Blanco e apresentado na URL https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, somando cerca de 250 ouvintes inscritos por noite. Nesta segunda tem Evaldo Mocarzel, do necessário “Do Luto À Luta” (2005); e, na quarta, Walter Salles, ganhador do Urso de Ouro de 1998 com “Central do Brasil”. Se ambos seguirem a toada do debate de Sandra, teremos duas falas regadas de emoção. “Eu fico muito envolvida com adolescentes. São muitos sonhos roubados, desde o menino que trabalha com cana até a menina que poderia estar no segundo grau mas para de estudar para criar filhos”, diz a diretora, que lançou este ano “YouTubers”, em parceria com Abrantes, no Canal Curta! da TV a cabo.

No frigir das inquietações documentais das Américas, o Na Real_Virtual rola sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas, e vai deixar imensas saudades quando terminar, com a promessa de virar livro e, quiçá, filme: “O .doc dos .docs”. Na torcida.

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