Josephine Baker inspira experiência teatral sobre aceitação

Josephine Baker inspira experiência teatral sobre aceitação

Rodrigo Fonseca

16 Abril 2017 | 11h18

Aline Deluna protagoniza um exercício nas raias da biografia e no limite da autodescoberta com o belo

Aline Deluna protagoniza um exercício nas raias da biografia e no tênue limite da autodescoberta com o belo “Josephine Baker – A Vênus Negra”

RODRIGO FONSECA
Existe um fio narrativo autoral encapado a aço nos textos teatrais de Walter Daguerre – em cartaz na Maison de France, no RJ, com o exercício de suavidade Josephine Baker – A Vênus Negra, com achocolatada sessão nesta Pasça, às 19h – caracterizado pelo uso da oralidade, num gesto de “autonarração”, não como mera forma de registro, mas como um ato de exorcismo. Isso vale tanto para seus experimentos mais realistas, como o seminal A Mecânica das Borboletas, uma obra-prima de puro brutalismo no teatro brasileiro contemporâneo, como para trabalhos nas raias do simbolismo, como Jim, no qual nos abriu as portas da percepção do grupo The Doors. Em ambos os casos, sobretudo naqueles calcados na música, ele rompe com os códigos de encenação mais imersivos e põe ator e plateia frente a frente, num embate direto, sem filtros, no qual os personagens são apenas resíduos sensoriais. Por vezes, em Daguerre, a encenação se vai e fica um procedimento nas franjas da contação de história, uma operação de Sherazade, nas quais se ritualiza uma espécie de personificação de arquétipos. É o que se passa na forma – que começa envolvente e termina comovente – com que Aline Deluna inunda o palco do Maison de si mesmo na pele da diva do jazz.

É um processo binário de estados de consciência e inconsciência, de yin e yang, de 0 e 1, de ser e de estar, parecido com o catártico balé de Eriberto Leão brincando de Jim Morrison em Jim. Brincando a sério. “Brincar” é o verbo de ação no traquejo com que Aline entra em cena, falando de si e de seu jeito desajeitado de ser num passado no qual “era um varapau capaz de acertar a mão na cara de uma coleguinha bailarina ao fazer um passo”. Desfiar o rosário de suas mazelas antigas cria algo mais do que comunhão com o público (seu ato é mais inteligente): ali, ela deixa evidente que não estaremos diante de um espetáculo biográfico padrão, careta, e sim de uma cerimônia estética sobre aceitação, tendo por base uma certa Josephine Baker, seu lado diva, que ele aprendeu com “um tio gay”. Datas, fatos, eventos históricos… tudo isso está no texto de Daguerre, corretinho, com precisão espartana, mas não é nisso a que sua dramaturgia, refinada pelo cinzel do diretor Otávio Müller (um de nossos maiores atores), agarra-se mais. O que mais importa na escolha de falar de uma artista que foi um símbolo da luta pela inclusão racial, é o fato de termos, à frente da cena, uma atriz marcada por um histórico pessoal de “inadequações”, falando de alguém que foi, em vida, a “inadequação” em pessoa. Ali, trançam-se afetos e memórias. Ali, a palavra vira água benta, para benzer o solo pagão das desatenções nossas de cada dia.

A direção do espetáculo, de Otávio Müller, equilibra riso, dor e sensualidade

A direção do espetáculo, de Otávio Müller, equilibra riso, dor e sensualidade

Entre olhares de comédia slapstick, frases dignas de anotação (“Uma coisa é entregar meu corpo; outra, é entregar minha confiança”) e cenas de nudez em que Delicadeza e Sensualidade são sinônimos num afrodisíaco olhar sobre liberdade, Aline alcança uma instância em que sai e volta de Josephine, contando a vida dela ora em primeira, ora em terceira pessoa. Ser é estar e estar é transitório… e transitivo, por vezes direto, por vezes preposicionado. As preposições deste discurso sobre uma cantora negra que faz História na França e enfrenta o preconceito em sua América Natal, são instrumentistas que roubam a cena para si, cada uma sua vez, em vários momentos, sem jamais tirar o brilho dos solos de Aline: Jonathan Ferr, Christiano Sauer e (o inspiradíssimo) Dany Roland (diretor musical do espetáculo). Eles colaboram para a vitalidade deste jogo de armar (e desarmar) representações, construído na alquimia entre Daguerre e Müller.

 Na direção da peça, o ator do cult O Gorila – hoje um destaque do novo Zorra Total na pele de Célio, o Homem Quase Invisível – trança musical, drama, recitação e desabafo num equilíbrio que espelha a entrega de sua protagonista. Temos causos reveladores o suficiente para conhecermos Josephine mais e melhor, ao mesmo tempo em que temos uma reflexão sobre a falta de pertencimento num mundo onde a cor é questão de violência – mas também de perseverança. A iluminação de Paulo César Medeiros – com a luxuosa contribuição de Rachel Santos (jovem diretora do Grupo Criaturas Atormentadas) na operação do canhão de luz – desenha um espetáculo de fino da fossa, com a graça jazzista de Josephine e a beleza inquieta de Aline.