‘Josep’: a animada arte de combater o fascismo

‘Josep’: a animada arte de combater o fascismo

Rodrigo Fonseca

16 de janeiro de 2021 | 12h10

Rodrigo Fonseca
Ao alcance de um clique, gratuito, no www.myfrenchfilmfestival.com, com legendas em dez idiomas, a maratona My French Film Festival é uma iniciativa anual da Unifrance para levar pérolas da terra de Truffaut para o mundo, online, numa diversidade de curtas e longas-metragens que, este ano, estende-se ao terreno da animação, com um desenho comovente: “Josep”. Exibido na Mostra de São Paulo, no fim de outubro, a produção, chancelada pelo Festival de Cannes e laureada nos festivais de Atenas (com o prêmio de melhor roteiro) e Vaiadollid (com o troféu de melhor direção), revisita os feitos de um mito espanhol das artes gráficas: Josep Bartolí i Guiu, nascido em Barcelona, em 1910, e morto em Nova York, em 3 de dezembro de 1995. Na Amazon encontra-se de um seus múltiplos trabalhos à venda: “La retirada: éxodo y exilio de los republicanos españoles”, feito em parceria com seu sobrinho, Georges. Foi a partir da luta de Georges para preservar a memória e a penosa história de seu tio que o quadrinista e cineasta Aurélien Froment, conhecido apenas como Aurel, autor da ótima BD (banda desenhada, que é como muitos europeus chamam as HQs) “Clandestino” (Glénat, 2014), chegou até esse militante da resistência.
“Estamos falando de alguém que usou a arte para fazer denúncias quadrinizadas da política, apontando a relevância da solidariedade nos movimentos de esquerda”, disse Aurel em entrevista ao P de Pop do Estadão no 23º Rendez-Vous Avec Le Cinéma Français, fórum audiovisual francófono realizado de quarta até sexta em Paris, aberto a jornalistas via Zoom. “O traço de Bartolí me arrebatou e me abriu as portas para uma contundência reflexiva que não precisa ser assumidamente militante para expor os perigos do fascismo, um tema que eu acredito ser especialmente urgente para vocês, no Brasil”.

Em seu primeiro (e belíssimo) longa-metragem como realizador, Aurel viaja no tempo até fevereiro de 1939. Na ocasião, os espanhóis republicanos estão fugindo da ditadura de Franco, correndo rumo à França. O governo francês acenou com uma hipótese da ajuda, que acabou por se materializar na forma de um campo de concentração, confinando os refugiados. No local, eles mal tinham acesso a alimentos, água ou qualquer possibilidade de higiene. Em um desses campos, separados por arame farpado, Bartolí solta sua imaginação, com o material que encontra, e traduz o que vê em ilustrações. Desenha o assustador mundo à sua volta e do regime ditatorial espanhol. Anos depois, já fora das cercas francesas, ele encontra o prazer nos braços da cultuada artista plástica mexicana Frida Kahlo (1907-1954), com quem terá lições de estética e de desejo.

BartolÍ e Frida

Houve muita troca entre esse casal de artistas, cujo affair foi breve. “Ele aprendeu com ela muito da realidade política do México e descobriu muito sobre as formas de resistência política dos mexicanos”, disse Aurel. “Mas ela trouxe ainda um mundo de cores, correspondente à experiência estética dos latino-americanas, para a arte dele. Isso foi uma influência. Eu, como cartunista, não se dizer o quanto o traço de Bartolí transformou a minha forma de fazer quadrinhos, mas as vivências dele alimentam as minhas reflexões sobre o papel da arte”.

Desenho de Josep Bartolí

Para ver o filmaço de Aurel, basta entrar, até 15 de fevereiro, na URL da Unifrance: https://www.myfrenchfilmfestival.com/pt/movie?movie=48049

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