Jornada para o Japão e outras bossas

Jornada para o Japão e outras bossas

Rodrigo Fonseca

17 Outubro 2015 | 12h51

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Numa jornada pelo Japão feudal mais profundo, a Versátil, sob a curadoria sólida do pesquisador Fernando Brito, trouxe para o seio do mercado de DVD a extraordinária franquia Lobo Samurai, rodada por Hideo Gosha (1929-1992), em 1966 e 1977, com Isao Natsuyagi (1939-2013) no papel do ronin Kiba. Trata-se de um filme B dos mais sofisticados, com inspiração na cartilha de Akira Kurosawa e nos bangue-bangues italianos de Sergio Leone. É uma chance rara de se conhecer um heroísmo gauche à moda nipônica, com um rigor de enquadramentos e uma desenvoltura coreográfica de dar olé nos filmes de ação, em especial (os raros) de exemplares capa e espada feitos nos dias atuais. Lembrado mais pelo esplendor de Tirania (1969), Gosha usa aqui toda a sua intimidade com a mitologia dos espadachins para fazer uma reflexão sobre a vingança na criação de um justiceiro taciturno, mais tridimensional. E Natsuyagi é uma espécie de Toshiro Mifune menos brincante, em um balé de lâminas e de rancores afiados a sangue. No mesmo pacote, vem de quebra Juramento de Obediência, vencedor do Urso de Ouro de 1963, em empate com Il Diavolo, de Gian Luigi Polidoro.

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes, o épico

Ganhador da Palma de Ouro em Cannes, o épico feudal “Kagemusha” mostra um ladrão que substitui um imperador moribundo, de quem é sósia, numa reflexão sobre Poder

 

À parte, a Versátil trouxe ainda uma edição preciosa de Kagemusha – A Sombra do Samurai pelo qual Akira Kurosawa (1910-1998) ganhou a Palma de Ouro em 1980 (em dobradinha com All That Jazz, de Bob Fosse). O disco vem cheinho de extras, com falas de George Lucas e de Coppola sobre o mestre japonês.

 

p.s.: Quem não teve a chance de ver Sicário – Terra de Ninguém durante o Festival do Rio 2015 deve ficar atento às prés do filme de Denis Villeneuve, que já estão abertas ao público em diferentes cinemas de todo o país. Aposta para o Oscar, o longa veio de Cannes cercado de elogios não apenas por sua abordagem visceral para o mal estar de uma mulher imersa no masculino (e machista) ambiente do combate às drogas no México, mas por cenas de perseguição de dar vertigem. O diretor canadense é, sem discussão, um dos mais habilidosos de sua geração.

Emily Blunt é uma agente do FBI atormentada em

Emily Blunt é uma agente do FBI atormentada em “Sicário”

p.s.2: Estou me deliciando com a leitura de O Grifo de Abdera, romance-regresso de Lourenço Mutarelli aos universo das Letras, com um quê de metalinguagem, muita autogeografia e um toque de quadrinhos, em páginas com seu traço à moda Munch. O grito aqui é de invenção, como lhe é peculiar.

p.s.3: Aqui no Rio, o Espaço Itaú (eterno Arteplex) matou a pau a concorrência com uma mostra recheada de François Truffaut (1932-1984). Neste sábado, às 21h, tem Jules e Jim – Uma Mulher para Dois (1962) e neste domingão, às 16h40m, vale (re)ver O Último Metrô (1980). Quarta que vem tem a delícia das delícias: Atirem no Pianista (1960), com Charles Aznavour de ator, às 19h.