Jorge Furtado cai no Real da literatura e se firma como um mestre dos docs

Jorge Furtado cai no Real da literatura e se firma como um mestre dos docs

Rodrigo Fonseca

25 de junho de 2017 | 11h00

A atriz Mariana Lima é parceira de Jorge Furtado e de sua colega Ana Luiza Azevedo na construção narrativa do doc “Quem É Primavera das Neves?”

RODRIGO FONSECA
Poucos cineastas modificaram tanto o modo de fazer narrativas audiovisuais no Brasil, sobretudo em termos de dramaturgia, quanto Jorge Furtado modificou, lá na década de 1980, num tempo em que o Rio Grande do Sul era o Recife de nosso cinema, tendo no formato curta-metragem a pedra filosofal de uma estética que transformava nosso cotidiano em ouro. Ilha das Flores, laureado no Festival de Berlim de 1990 com o Urso de Prata, tornou-se não apenas um marco de nossa produção de curtas, como um pilar para uma estrutura de linguagem quase radiofônica, calcada na causalidade e aberta ao naturalismo mais cru, que redesenhou a forma de fazer humor em nossa TV. Dali veio A Comédia da Vida Privada (1995-1997) – cuja centelha incendiou cults do riso de outros autores como Os Amadores e mesmo Os Normais – e Mister Brau (2015). Com seu formato de “filme experimento”, Ilha… acabou indo além de sua linhagem narrativa de gênese: o documentário. É uma linhagem para a qual Furtado volta vez ou outra, sempre com exercícios formais autorais, que fazem avançar, pelas bordas do humor ou dos afetos, as tensões cinematográficas com o Real, em um tipo de storytelling imune à castidade que, muitas vezes, castra os docs nacionais em nome de uma suposta ética cândida. Foi assim em A Matadeira (1994), pérola do docudrama; em Mercado de Notícias (2014), e agora num exercício investigativo romanesco Quem É Primavera das Neves, hoje em circuito. É o trabalho de maior refinamento do diretor no domínio e no uso da cartilha documental, exercitada numa parceria com a cineasta Ana Luiza Azevedo, sua parceria de Casa de Cinema há anos, e a (ótima) atriz Mariana Lima. É um filme sobre invisibilidade, um assunto que perpassa o universo de Furtado desde O Dia em Que Dorival Encarou a Guarda (1986), e aqui se materializa numa reflexão sobre o papel da tradução na formação do nosso olhar para a prosa e a poesia.        

Lançado no É Tudo Verdade, em abril, Quem É Primavera das Neves ganhou terreno em cartaz há cerca de dez dias. Aqui no Rio, o filme está em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, na Sala 3, às 16h e às 22h, e no Estação Net Botafogo, Sala 2, às 18h. Não perde não. Ali, ele consegue ressignificar nossa relação com a literatura a partir de um diálogo, precioso, fruto de seu interesse em conhecer a tradutora de nome poético que vertia para o português alguns clássicos que o cineasta leu na mocidade. A dado momento do filme, Furtado menciona um papo com pessoas que leram Kafka, Balzac, Dostoiévski, mas ele mesmo retruca: “Vocês não leram Kafka, Balzac, Dostoiévski… vocês leram as pessoas que traduziram Kafka, Balzac, Dostoiévski”.

 

Mais do que estender um varal histórico erguido a partir da vida de uma poeta e artesã da tradução que viveu entre o Brasil e um Portugal salazarista, vivendo de palavras, Furtado abre, com o cinzel de Ana Luiza e a leitura recitativa de Mariana, um debate sobre a dimensão estética da tradução não como ponte entre línguas, mas como um saber. Talvez seja o mais rico documentário sobre a prática literária desde José & Pilar (2010), de Miguel Gonçalves Mendes.

Cena do doc com poema da tradutora

Apaixonado por “comédias tristes” (referência a filmes de mestres como Ettore Scola), Furtado certa vez disse que faltavam “filmes argentinos” ao cinema brasileiro, numa provocação em relação à ausência de produções de médio porte capazes de mesclar riso, pranto e reflexão numa narrativa de digestão popular. De uma certa forma, seu belo Quem é Primavera das Neves é um documentário à argentina. E espera-se o mesmo de sua adaptação para Rasga Coração, ao reviver figuras como Manguari Pistolão, resgatando nosso pretérito perfeito de arte de resistência.

 

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