Jorge Aragão canta 40 anos de um samba embrulhado no mais fino papel de pão

Jorge Aragão canta 40 anos de um samba embrulhado no mais fino papel de pão

Rodrigo Fonseca

25 Janeiro 2017 | 17h38

Jorge Aragão celebra seus 40 anos de samba em show no Teatro Bradesco, no Rio

Jorge Aragão celebra seus 40 anos de carreira como compositor em show nesta quarta, no Teatro Bradesco, no Rio


RODRIGO FONSECA
Há muita coisa ainda a ser escrita no papel de pão mais famoso da MPB: os versos rasga-coração de um artífice do romantismo no samba, Jorge Aragão, que sobe na noite desta quarta, às 21h, no palco do Teatro Bradesco, no Rio de Janeiro, para comemorar, em forma de canção, seus 40 anos de carreira. Sucessos como Malandro, Coisa de Pele, Lucidez, Coisinha do Pai e Vou Festejar fazem parte de seu repertório, como presença obrigatória, como sínteses de uma história de sucesso de quem não se dobrou ao lado mais comercial do pagode com açúcar.

“Não quero fazer do samba meu cartão de crédito”, diz Aragão, ex-integrante do grupo Fundo de Quintal nascido no subúrbio de Padre Miguel, no Rio. “Nestes meus 40 anos de trabalho, até hoje, eu nunca deixei de assumir, em primeiro plano, minha postura de compositor. Não consigo me vestir de artista. Mal consigo me vestir de cantor. Pro cara que é compositor, ser gravado já é uma realização. E eu tive a honra de ser gravado por alguns dos maiores nomes da nossa música. Ontem (na terça), fazendo show em São Paulo, eu me dei conta de que o repertório que eu compus está inserido em todo canto deste país. Qualquer lugar é meu quintal”.

Para pesquisadores musicais, a melodia de Aragão preservou sua potência após quatro décadas de criações. “Projetado a partir do berço do pagode de raiz do bloco Cacique de Ramos, Jorge Aragão foi além em sua obra autoral assimétrica, com harmonias elaboradas e surpreendentes soluções melódicas”, avalia o crítico Tárik de Souza, mais prestigiado resenhista de MPB na imprensa nacional.

É o respeito à tradição do samba – e a admiração por nomes hoje saudosos como Roberto Ribeiro – que assegura a depuração formal das letras de Aragão. “Olhando para o passado, a gente está sempre com a mão no futuro”, defende o cantor. “Tem uma garotada hoje aí cantando Beth Carvalho, Zeca Pagodinho, Arlindo Cruz, num sinal de reconhecimento às nossas raízes. E quando essa turma nova me sai com alguma mistura de samba com rock ou com funk, pode estar certo que é coisa de produtor, e não decisão de artista”.