Joia de Petzold e atrizes brasileiras reinam sob domingo alemão

Joia de Petzold e atrizes brasileiras reinam sob domingo alemão

Rodrigo Fonseca

23 de fevereiro de 2020 | 13h01

“Todos os mortos” concorre ao Urso de Ouro (@fotos de divulgação de Hélène Louvart)

Rodrigo Fonseca
Sob nova curadoria em 2020, comandado por Mariette Rissenbeek e Carlo Chartrian, o Festival de Berlim anda vivendo dias de excelência em sua programação, nas mais variadas latitudes e em suas diversas seções, sendo que, na competição, o mais possante filme foi visto neste chuvoso domingo – “Undine”, do alemão Christian Petzold -, seguido de perto por uma virtuosa produção brasileira. Na caça ao Urso de Ouro, “Todos os Mortos”, da dupla Caetano Gotardo e Marco Dutra, é uma minuciosa cartografia da exclusão em meio ao decadentismo de uma aristocracia cafeeira no Brasil do fim dos 1800, início dos 1900. Fala-se de modo muito elogioso sobre a força trágica de seu roteiro, que aborda a realidade da São Paulo no apagar das luzes do século XIX após o fim da escravidão, sob o ponto de vista de diferentes mulheres. Seu elenco traz as atrizes Mawusi Tulani (em estado de graça), Carolina Bianchi, Alaíde Costa, Thaia Perez, Andrea Marquee, Gilda Nomacce e Clarissa Kiste (em seu melhor desempenho). Um prêmio coletivo de interpretação seria justíssimo para elas, uma vez que não se viu nada, em termos de boas interpretações na disputa por láureas, à altura do que essa trupe faz.

Paula Beer em “Undine”

Petzold, contudo ainda dá um olé na concorrência, com seu engenhoso tráfego entre o que é real e o que é onírico ao filosofar sobre a Berlim dos dias de hoje (em relação a uma Berlim mais ancestral) a partir de uma descabelada história de amor. Numa química explosiva, de suar camisas, mãos e testas, Paula Beer e Franz Rogowski ajudam o cineasta a reinventar o mito das sereias. “Undine” – esculpido nas retinas do Berlinale Palast à força da elegante fotografia de Hans Fromm – acompanha a paixão que sacode o cotidiano do escafandrista Christoph (papel de Franz, em atuação exuberante), depois que ele se encanta por uma historiadora contratada para guiar visitas a galerias. A moça, Undine (Paula), saiu machucada de um romance com um homem casado. E embora mergulhe no abraço de Christoph qual uma ninfa das águas, ela não se distancia de seu pretérito imperfeito, o que há de cobrar um preço. Preço esse que Petzold paga com uma envolvente narrativa sobe as dimensões pontiagudas do desejo.

Lotado de gente, o festival segue até dia 1º de março. No dia 29, acontece a entrega de troféus, incluindo uma láurea inédita (o Prêmio dos 70 Anos do Festival), a serem entregues pelo júri presidido pelo ator inglês Jeremy Irons. O diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho (“Bacurau”) é um dos jurados. Até o momento, a grande descoberta das seções paralelas do evento é “Kill It and Leave This Town”, de Mariusz Wilczynski. Trata-se de um arrebatador desenho animado polonês que funde várias histórias em uma cidade fria, na qual o abandono afetivo é o prefeito. Numa sequência de rasgar os nervos, um casal conversa em um necrotério enquanto costura o corpo de uma mulher morta – e o papo é visto do ponto de vista da pele do cadáver. Há ainda o extermínio de microsseres humanos picotados como se fossem sardinhas a serem enlatadas.

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