Johnny Depp ‘rocks’ San Sebastián

Johnny Depp ‘rocks’ San Sebastián

Rodrigo Fonseca

20 de setembro de 2020 | 08h47

O astro de “Piratas do Caribe” produz .doc sobre o cantor e compositor Shane MacGowan, dirigido por Julien Temple

Rodrigo Fonseca
Depois de uma carrancuda passagem pela Berlinale, em fevereiro, no ardor de problemas pessoais em sua separação da atriz Amber Heard e em suas malfadadas apostas em filmes convertidos em fiascos comerciais, Johnny Depp veio a San Sebastián em paz, com uma aura de equilíbrio, a esbanjar carisma, como é peculiar em seu jeitão caloroso de lidar com plateias e jornalistas. Talvez a razão que o levou a Berlim, em fevereiro, o filme “Minamata”, sobre o fotógrafo W. Eugene Smith, tenha sido frustrante, visto o mar de críticas azedas recebidas (injustamente) pela produção. Mas o motivo que o leva ao norte da Espanha é mais relax e doce: ele produziu um dos (mais fortes) concorrentes à Concha de Ouro de 2020, com foco em um de seus amigos mais queridos. “Crock of Gold – A Few Rounds With Shane MacGowans” é um documentário sobre o ás do punk rock de DNA irlandês, que escreveu e cantou algumas das letras mais selvagens da língua inglesa dos últimos 40 anos. Shane bebe (e como) e conversa com o próprio Depp no longa, sob a direção de Julien Temple, realizador britânico que filmou o Rock in Rio em 2011 e rodou “Running Out Of Luck”, com Mick Jagger e Paulo César Peréio nas orlas cariocas dos anos 1980. Veterano diretor de clipes, Temple nos presenteia com uma montagem memorável – com quilos de cenas em animação – ao rever as memórias de Shane nos planos e em mesas de bar. Incluiu na edição cenas do clipe “That Woman’s Got Me Drinking”, que Depp dirigiu em 1994.

“Shane me ligou daquele jeito dele e disse: ‘Johnny, você quer trabalhar comigo num vídeo?’. E eu disse: ‘Puxa. Sim. Mas o que você quer que eu faça?’. E ele: ‘Dirigir’. E eu: ‘Quando?’. Ele respondeu: ‘Segunda’. Era uma sexta. Eu desliguei, fiquei tenso, pensei em como faria, liguei pra um amigo que tinha uma equipe e pensamos numa estrutura dramática em que ele estivesse no balcão de um bar e um homem rolasse como um barril de cana pelos cantos. Esse homem era eu”, lembrou Depp, em resposta ao P de Pop. “Lendo as letras de Shane você tem a dimensão de onde a poética dele chega. É alguém que te leva aos calcanhares do Diabo. E ele te insultar, não se incomode. Um insulto dele é uma bênção”.

Shane em imagem de arquivo de “Crock of Gold”

Avesso a melancolias e caretices, “Crock of Gold” é um daqueles .docs personalistas (o foco é no poeta, canto e compositor por trás do êxito da banda The Pogues) que extrapolam – e muito – os limites de seu biógrafado, fazendo um painel de uma época ou de um modo de ser. Apesar de sua estrutura ser um Frankenstein, a juntar desenho animado, arquivos, entrevistas e filmagens de shows, o longa, em concurso pela Concha de Ouro do evento espanhol, não sai do prumo um segundo que seja. E não há uma só sequência que não termine em risos (dos depoentes e da plateia) ou em doces lagriminhas. Apesar de andar numa maré de insucessos em sua trajetória como ator, Depp, um amigo de longa data (30 anos) do sexagenário MacGowan, sai-se muito bem no posto de produtor, facilitando o acesso de Temple a pessoas e a imagens. Depp aparece várias vezes entornando Catuabas e Praininhas com Shane, arrancando do músico feitos alcoólicos, narcóticos e roqueiros. A cada causo, vemos um balanço da condição suicida de artistas avessos a fórmulas de sucesso óbvio, como Depp um dia foi antes de sua fase Jack Sparrow. Fase essa de que ele mesmo debocha no documentário, que merecia um prêmio de contribuição artística por sua montagem, assinada por Caroline Richards.
“Considerar a si mesmo uma celebridade de Hollywood é um caminho para errar, além de ser algo grotesco. Gosto de Shane por ele ser autêntico. Assim como gostava do (escritor) Hunter Thompson, meu mentor, e de Marlon Brando, que foi um pai pra mim. Dizem que Shane é doido. Dizem que Hunter era doido. Dizem que Marlon era doido. Talvez seja um fato. Mas eles são pessoas autênticas. Shane é alguém que não se compromete com nada, em sua filosofia do ‘Que se dane’, mas não perde o humor nunca, nem sua timidez”, diz Depp, que ainda espinafrou o presidente Donald Trump. “Acredito que ele possa ir ao banheiro sozinho, mas não penso muito nisso. Eu rio do que ele fala. As palavras dele soam como comédia. Mas é uma comédia assustadora”.

Depp rodou um clipe com MacGowan na década de 1990 e um trecho desse vídeo foi resgatado no longa de Temple, indicado à Concha de Ouro

Sempre preocupado em deixar Temple falar na coletiva de San Sebastián, Depp enxerga “Crock of Gold” como uma alternativa para as novas gerações de espectadores conhecerem um tempo no qual aquele tal de roquenrol salvava vidas. No dia a dia de Shane, a loucura de não se render (nem às próprias convicções) é uma atitude política. Uma atitude que o longa encarna ao desafiar tabus narrativos, mostrando o quanto Temple é um gigante como documentarista, e em especial como retratista. Seu olhar se concentrar aqui em tracejar as raízes irlandesas de Shane e completar os pontilhados com uma reflexão sobre o que essa condição de “Irlanda na veia” gera… política e artísticamente. O resultado, na tela, é uma avenida de causos, carraspanas e tratados de resiliência.

“O punk ainda está na alma de Shane. Ele é alguém que já se apresenta pra você com um aviso na testa: ‘não sou fácil’. Encarando essa dificuldade de seu modo feroz de ser, você descobre alguém que desafiou limites”, diz Temple em resposta ao Estadão. “Um dos aspectos da montagem foi valorizar gravações em K7s antigas e rever shows e declarações antigas dele. Shane odeia dar entrevistas, mas fala com Depp, cara a cara, com uma fluidez rara”.

Numa das tomadas mais divertidas de “Crock of Gold”, Shane diz a Depp: “Você é tão bonito que dá até raiva”. E o ator ri, comovido. “É importante para um artista como Shane… ou para um diretor… ou para um ator… passar por momentos em que você se vê nas cordas do ringue, escanteado, pois é um momento em que você precisa buscar um caminho de volta, um recomeço”, disse Depp, num desabafo que emocionou San Sebastián. “Eu gosto de documentários. Em documentários, as pessoas não atuam”.

Antes de receber Depp e Temple, que atrasaram quase 30 minutos, San Sebastián tomou um porre de doer o coco com o dinamarquês Thomas Vinterberg e seu inebriante “Druk”, traduzido mundialmente como “Another Round”. No Brasil, a melhor tradução para este drama etílico seria “Saideira”, não só pela expressão idiomática sugerir uma cana pesada, mas por sintetizar um fim de festa. É nesse tom que o professor de História Martin (Mads Mikkelsen, assombroso em cena) começa sua participação numa narrativa que fala não de bebedeiras, mas da ressaca moral que a vida adulta nos impõe – assim como “Crock of Gold”. Mads e ele rasgaram corações em 2012 com “A Caça”, pelo qual o astro escandinavo saiu com o prêmio de melhor ator de Cannes. O mesmo pode ocorrer aqui. Chancelado com o selo cannoise de 2020, o longa foi aclamado em sua passagem pelo TIFF – Toronto International Film Festival e veio a Donostia (o nome com que San Sebastián é conhecido no dialeto Euskara) para sair devidamente consagrado e, quiçá, premiado. Mads tem um desempenho sublime, mais do que seu habitual. Porém o roteiro escrito por Vinterberg com Tobias Lindholm é tão possante quanto sua atuação. Nele, Martin, em baixa em sua carreira e em seu casamento, recebe o apoio dos amigos, que o desafiam a um experimento: testar, na prática, a máxima de que o corpo humano tem uma carência essencial ao álcool. A cada gole, ele vai se soltando, crescendo, empoderando-se. Mas há um limite para a bebida na contenção de seus demônios. É curioso – e transgressor – o modo como cineasta enquadra o ato de beber. Não se trata de um verbo a ser conjugado na desinência da culpa, como em “Farrapo Humano” (1945), ou do suicídio, caso de “Despedida em Las Vegas” (1995). Beber, em “Druk”, é apenas uma prática de socialização. Cabe a quem bebe tomar conta de seus diabos. Ou soltá-los. É uma postura de coragem de um realizador que desde “Festa de Família” (1998) enverga tabus. Que o júri, chefiado pelo italiano Luca Guadagnino (que dirigiu o poema “Me Chame Pelo Seu Nome”), reconheça sua força e todo o seu encantamento. Vinterberg é dos grandes. E seu novo trabalho é colossal.

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