John Krasinski e o ruído do sucesso

John Krasinski e o ruído do sucesso

Rodrigo Fonseca

03 de março de 2020 | 19h40

Rodrigo Fonseca
Com estreia prevista para 20 de março, “Um Lugar Silencioso: Parte II” (“A Quiet Place Part II”) é esperado pelos exibidores como um potencial fenômeno de bilheteria, capaz de repetir os feitos de seu antecessor, que custou US$ 17 milhões e faturou US$ 340 milhões. Agora ainda tem o reforço de Cillian Murphy (de “Ventos da Liberdade”) para o elenco. O sucesso de John Krasinski na direção impressionou o mercado. Mas o que o primeiro longa-metragem do que pode vir a ser uma franquia tem de tão possante? Bom…
Fotografado a partir de uma mirada feminina (as lentes da dinamarquesa Charlotte Bruus Christensen), “Um lugar silencioso” é um filme de monstro, tendência da moda vide “A forma da água” (Leão de Ouro de 2017), mas é um filme de monstro artaudiano. Autor de “O teatro e seu duplo”, Antonin Artaud (1896-1946) assume o olhar como a metonímia da parte pelo todo: é na troca de olhos que a vida vira o espetáculo da descoberta, da surpresa. Clamava ele: “Restitua ao meu espírito a reunião das forças, a coesão que lhe falta, a constância da tensão, a consistência de sua própria substância. (E tudo isso é tão pouco)”. Operando aqui como astro e diretor, Krasisnki interpreta desta forma que falava Artaud: busca a consistência, mas com seus olhos atonitamente abertos, escancarando cicatrizes de ausências, de castrações afetivas. E faz isso sob a forma de um thriller de horror cuja eficiência que vem lhe garantindo um passaporte para o prestígio como realizador. O mesmo modo Artaud de atuar pode se dizer de seus poucos parceiros de cena, com destaque para a (sempre feérica) atriz inglesa Emily Blunt, de “Sicário” (2015). Na simbiose estética entre Krasinski e Charlotte, uma fotógrafa conhecida pelo tenso “A Caça” (2012), de Thomas Vinterbeg, os enquadramentos potencializam o planisfério que existe sob pálpebras escancaradas, atrás de verdades marejadas. A conexão dos personagens conosco, numa narrativa onde a palavra é murmurada até o limite do inaudível, é a colisão das retinas deles com as nossas. Nesse movimento, discreto, percebe-se em Krasinski mais do que um desejo de surfar no modismo do horror (como tradução de nossas crises morais). Usina de calafrios, o “A quiet place” de 2018 cumpre, com excelência acima da expectativa, as tarefas exigidas pela cartilha de seu gênero: dá medo, faz pular da cadeira, entretém pelo masoquismo do espanto. É 1h30 de inquietação. Mas, se de um lado ele inebria, do outro, ele faz a plateia pensar: sobretudo sobre o isolamento. É o terceiro longa-metragem que Krasinski dirige: embora seja famoso pelo papel de Jim na série “The Office”, ele rodou “Família Hollar”, em 2016, e “Brief interviews with hideous men” (2009), mas o novo longa é o exercício pelo qual ele há de ser lembrado. Há um domínio total das ferramentas do espanto e há a crítica consciente da abnegação. Na trama distópica, produzida por um expert no pop (o subestimado Michael Bay, de “A Rocha”), Emily e Krasinski chefiam uma das poucas famílias que sobrevivem a um massacre promovido por enormes criaturas (de patas aracnídeas) atraídas por barulhos. O silêncio que se sugere no título é a estratégia de mediação entre os cordeiros humanos e os algozes que rapinam suas carnes. Ao criar seus filhos, sobretudo a quase aborrescente Regan (Millicent Simmonds), Evelyn (Emily) e Lee (Krasinski, numa atuação cerebral, precisa) são obrigados a abrir mão das palavras e inventar outras formas de afeto, o que potencializa a dimensão de drama de um filme aparentemente talhado para ser apenas um fliperama. Numa rotina de supressão de verbos, interjeições e até suspiros, a fim de proteger sua cria, Emily e Lee conjugam o verbo sobreviver na desinência do risco, aprendendo a viver com o básico. Essa lógica dá a Um lugar silencioso uma dimensão psicanalítica de estudo sobre a natureza humana, algo próximo de “O Senhor das Moscas” (1963), de Peter Brook. O que Krasinski faz é um debate sobre tolerância… e sobre o lugar do amor como um analgésico contra a brutalidade do mundo. Mas temos um debate regado a litros de adrenalina, e que já dá frutos, apontando para o Amanhã como uma estrada sensorial para o medo, reforçado atualmente com o êxito de “O Homem Invisível”.

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