Fela Kuti em luta pela inclusão

Fela Kuti em luta pela inclusão

Rodrigo Fonseca

25 de março de 2020 | 12h14

Joel Zito Araújo com o escrito Carlos Moore nas andanças do documentário Meu Amigo Fela – @Crédito da foto para Toninho Muricy

Rodrigo Fonseca
Um dos melhores filmes nacionais de 2019 vai ter sessão hoje, às 20h, no Canal Brasil, a fim de dar à espera (necessária) desta quarentena um tom inflamável de resistência ética na luta para debelar a intolerância racial: “Meu amigo Fela”. Sua carreira começou na Europa, no Festival de Roterdã, na Holanda, de onde saiu cravejado de elogios. Entre as muitas pautas de debates que hoje renovam o cinema brasileiro, a discussão sobre a representatividade autoral de artistas negros nas telas do país é uma das mais urgentes e fervorosas, encontrando no diretor mineiro Joel Zito Araújo uma de suas mais ricas e combativas vozes. Laureado com o Prêmio Especial do Júri da mostra de .docs É Tudo Verdade (no Rio de Janeiro e em São Paulo), seu mais recente trabalho em longa metragem investiga o legado do músico nigeriano Fela Kuti (1938-1997). Na música, ele foi um caldeirão multicultural, fervido no calor das ideias de Malcolm X, da urgência de compreensão da identidade africana e da vontade de expressar as raízes de seu continente natal sem o jugo dos colonizadores brancos europeus.
A revisão crítica da vida e da obra de Fela foi construída a partir de uma jornada internacional do cineasta ao lado do escritor Carlos Moore, biógrafo do multinstrumentista por trás de LPs lendários do afrobeat como “Why black man dey suffer”, de 1971. O projeto é uma das vertentes de uma filmografia iniciada por Joel Zito em 1988. A lupa que o cineasta joga sobre os feitos músico integra uma metodologia de pesquisa com foco na diáspora negra e na identidade do legado africano. Metodologia que já rendeu belos filmes como “Filhas do vento” (2004).

“O que eu descobri de Fela foi um herói trágico que traduzia muitas de minhas impressões e críticas sobre a África contemporânea, ainda com tanta submissão colonial, e tantos governantes que só se preocupam com eles mesmos e com suas famílias. E há os militares que, em nome da pátria, só defendem os interesses estrangeiros”, disse Joel. “Há uma classe média colonizada que considera seus países verdadeiras merdas, só tendo olhos submissos para os europeus e norte-americanos. Fela em sua música e em sua vida refletiu sobre isto. Aí eu encontrei o meu jeito de comentar uma parte da África que merece muita crítica. Digamos que peguei uma carona no Fela para expressar também o meu ponto de vista. Mas para a minha surpresa, surgiu um outro filme, exatamente quando consegui dinheiro para fazer ‘Meu Amigo Fela’. Felizmente o filme tinha interesse somente no Fela como ícone pop”.

Em três décadas de cinema, Joel Zito construiu sua trajetória audiovisual com os olhos bem abertos para os exercícios de exclusão do mundo, mas com os pés fincados na realidade de intolerâncias do Brasil. Realidade que ele transforma ora em denúncia explícita (caso do longa “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado”), ora em aulas de lirismo (como “São Paulo abraça Mandela”). Seu próximo longas se chama “O pai da Rita”, que define como algo “meio comédia, meio drama”. “Como profissional de cinema, eu nasci fazendo documentários. Como amante de cinema, eu nasci amando as ficções”, diz o cineasta.

p.s.: Às 23h15 desta quarta, a TV Globo exibe “Rei Arthur – A Lenda da Espada” (2017), de Guy Ritchie, com Charlie Hunnam no papel do portador da Excalibur.

p.s.2: Às 5h20, o Canal Brasil exibe “Roberto Carlos em Ritmo de Aventura” (1967).

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