Joel Zito Araújo nos renova na poética do real

Joel Zito Araújo nos renova na poética do real

Rodrigo Fonseca

03 de julho de 2020 | 11h10

O cineasta mineiro Joel Zito Araújo é hoje um dos mais prestigiados expoentes do documentário brasileiro

Rodrigo Fonseca
Desde janeiro de 2019, quando “Meu Amigo Fela” foi projetado no Festival de Roterdã, a vida de Joel Zito Araújo corre em aceleração máxima e não apenas pela circulação contínua desse seu filmaço pelo mundo, mas por ele ainda ter rodado uma ficção, “O Pai da Rita”, no meio do caminho. E o diretor de joias documentais como “Raça” (de 2013, feito em parceria com Megan Mylan) ainda vem sendo disputado, para fazer palestras, por instituições de respeito como a Casa de Machado de Assis, a Academia Brasileira de Letras (ABL), e por universidades de todo o Brasil e do exterior. Nesta sexta-feira, às 16h, o cineasta – cada vez mais relevante como documentarista, mas sempre reverenciado pelo lírico melodrama “Filhas do Vento”, de 2004 – vai debater fake news com o crítico Fernão Ramos, no contexto das distopias de nosso tempo, no site https://cutt.ly/eiNR85d. A mediação será feita pelo professor da UniCamp Noel Carvalho.

De que maneira, hoje, o documentário pode ser importante na defesa das lutas raciais?
Joel Zito Araújo:
Penso que o cinema, especialmente no formato documental, é o segmento das artes narrativas que mais facilidade tem de apresentar novos modos de olhar o mundo, novos pontos de vista, de forma mais direta. É através dele que uma pessoa branca pode ter acesso ao olhar do outro, de um homem negro, de uma mulher negra, de uma bixa preta e, portanto, compreender o mundo a partir de um lugar de fala diferente do seu, dos seus privilégios ou condicionamentos de classe, raça e gênero. Portanto, para construirmos uma sociedade plural, diversa… mais democrática… é fundamental impulsionar um cinema negro e indígena no Brasil.

Com “A Negação do Brasil” (2000), você entra pra História do Cinema como um cronista da exclusão racial. Mas seu cinema documental parece querer ir além desse tema e debater desconexões e afirmações que vão além de raça. Qual seria hoje a sua busca estética e ética no documentário?
Joel Zito Araújo:
Creio que estou marcado para sempre como um comentador da questão racial brasileira e, agora, mundial. Uso a palavra “marcado” sem nenhuma conotação negativa. Eu me descobri fazendo cinema, e expressando o meu olhar sobre a realidade, lidando com esta angústia que antecedeu minha entrada no cinema: a questão racial. O que eu quero com o “ir além” é mais no sentido de não ficar limitado às fronteiras do Brasil. Neste momento, eu estou particularmente ligado à África, e às conexões do Brasil com a África negra. Mas, seguramente, por mais cosmopolita que eu seja, ou tente ser, eu olho o mundo a partir do meu umbigo que é profundamente ligado ao fato de ser um afro-brasileiro. E isso se amplia especialmente em um momento como este, tão angustiante para todos nós nascidos no Brasil, e com amor pelo país e preocupado com o seu destino. Portanto, do ponto de vista ético, estou ampliando os horizontes, sem abandonar nada. Mas o ponto de vista estético é o mais difícil para eu comentar. Na verdade, gosto de experimentar formas narrativas, não sou fiel a nenhuma delas. Acho que elas têm relação com o que você pretende narrar. Não invisto na construção de um método ou estética característica.

“O Pai da Rita”, a nova ficção de Joel

Como “Meu Amigo Fela” mudou a sua carreira recente ao te abrir frentes em vários países?
Joel Zito Araújo:
“Meu Amigo Fela” tem ampliado minhas possibilidades de fazer documentários. O filme está tendo muita visibilidade internacional. Ganhou quatro importantes prêmios, no Brasil, em Los Angeles, em Burkina Faso e Camarões. Participou de parte dos mais importantes festivais em quatro cantos do mundo. Foi comprado pela televisão norte-americana e pela africana. E assim, meu nome como documentarista consolidou-se em alguns lugares e ampliou-se para outros. Neste momento, estou com projetos documentais importantes para o streaming, no Brasil e para o exterior. E tenho recebido ofertas para dirigir na África do Sul. Ou trabalhar com produtores internacionais de renome. Digamos que “Meu Amigo Fela” deu uma boa oxigenada em minha carreira. E estou muito contente com isto.

Para mais informações acerca do debate deste 3/7/2020:
[Debate ao vivo] “Documentário ou Fake News? – o falseamento do mundo social”

O ciclo de debates “Cinema e audiovisual em um contexto de distopia” propõe três encontros on-line com especialistas em cinema e audiovisual para pensar a atual conjuntura. O último encontro leva o título de “Documentário ou Fake News? – o falseamento do mundo social” e propõe tensionar a relação do real na produção audiovisual contemporânea.

O debate ocorrerá nesta sexta-feira dia 03/07 às 16h pelo link https://cutt.ly/eiNR85d . O evento terá a participação de Fernão Ramos (UNICAMP – Multimeios), Joel Zito de Araújo (Cineasta e Escritor) e a mediação do professor Noel Caravalho (UNICAMP – Multimeios).

Fernão Ramos é pesquisador e professor do Programa de Pós-Graduação de Multimeios- UNICAMP. É autor dos livros: Teoria Contemporânea de Cinema I e II (2005) Mas Afinal… O que é mesmo documentário? (2008), A Imagem-Câmera (2012) e Nova História do Cinema Brasileiro (2018), entre outros.

Joel Zito Araújo é diretor dos filmes Meu Amigo Fela (2019), Raça (2013) e Filhas do Vento (2004), entre uma dezena de outros. Joel dirigiu o documentário e escreveu o livro homônimo A negação do Brasil: o negro na telenovela brasileira (2000) e também é autor do O Negro na TV Pública (2010) e outros artigos.

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