Joel Zito Araújo na Real_Virtual da resiliência

Joel Zito Araújo na Real_Virtual da resiliência

Rodrigo Fonseca

16 de novembro de 2020 | 12h20

Joel Zito Araújo em sua passagem por Roterdã, em 2019

Rodrigo Fonseca
Contabilizando uma média de 250 ouvintes inscritos, o mais disputado fórum de não ficção da web no país na atualidade, o seminário batizado Na Real_Virtual, envereda esta noite pela luta do #BlackLivesMatter, num pleito contra o racismo, ao receber um consagrado diretor que fez do documentário uma cartografia da resiliência: o mineiro Joel Zito Araújo. Envolvido com a finalização de um longa-metragem de ficção batizado “O Pai da Rita”, situado no universo do samba, em SP, JZA alcançou (uma expressiva) notoriedade global em 2019, com a projeção de seu “Meu Amigo Fela” no Festival de Roterdã, cercado de aplausos e debates calorosos. Antes, há 20 anos cravados, telas do mundo todo foram tocadas por sua estética com “A Negação do Brasil”, uma reflexão sobre estratégias de segregação midiáticas, passando por telenovelas, com depoimentos de mitos como Milton Gonçalves e Nelson Xavier. Esta produção vai servir de motor de arranque para o simpósio documental no qual o realizador será sabatinado nesta segunda. O Na Real acontece online a partir das 19h. A mediação é feita por um dos decanos da crítica latino-americana, Carlos Alberto Mattos, em parceria na curadoria com um dos mais prolíficos documentaristas hoje na ativa, Bebeto Abrantes. As conversas decorrem via https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2. Joel vai passar em revista os movimentos de maior combatividade de sua filmografia, iniciada em 1988. Uma trajetória audiovisual com os olhos bem abertos para as práticas plurais do ódio e com os pés fincados na realidade de violências institucionais. Realidade esta que ele transforma ora em denúncia explícita (caso do longa “Cinderelas, lobos e um príncipe encantado”), ora em aulas de lirismo (como “São Paulo abraça Mandela”). E, no terreiro ficcional, ele fez ainda o premiado “Filhas do Vento” (2004).
“Neste momento, estou em uma vereda diferente, em uma série documental para um grande canal de streaming. Mas o tema não é frontalmente a questão racial, embora o problema do racismo atravesse tudo no Brasil”, diz Joel Zito ao P de Pop, relembrando da importância de seu longa de 2000 para suas pesquisas simbólicas. “O ‘A Negação do Brasil’ me deu régua e compasso. Foi um mergulho intenso de pesquisa e reflexão. Aquele .doc me ajudou a compreender, com uma profundidade que não imaginava, a questão racial brasileira em sua relação com a indústria audiovisual. Acabei virando um especialista no tema. Mas foi também uma compreensão sobre a influência do racismo na questão estética e narrativa. É o meu trabalho de fundação”.

No recorte curatorial desta segunda fornada do Na Real_Virtual (a primeira aconteceu de julho a agosto), a presença de Joel Zito dá continuidade a discussões trazidas pelo cineasta Emílio Domingos (“A Batalha do Passinho”) ao falar das populações negras nas favelas cariocas. Mas vale a ressalva de que o seminário já abordou a microfísica da exclusão, praticada nesta nação, de muitas formas, por meio de muitas outras vozes. “Uma das maiores referências para o cinema negro no Brasil, Joel Zito Araújo expande seu conhecimento e seu engajamento nas questões raciais através de filmes, livros, curadorias e ensino, no Brasil e em países africanos”, diz Carlos Alberto Mattos. “Sua atividade intelectual é ampla e afirmativa, refletindo-se no cinema em obras de forte teor político como ‘A Negação do Brasil’ e ‘Raça’. Um filme menos conhecido de Joel, o ‘Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado’, sobre turismo sexual e relações conjugais internacionais, exprime bem a complexidade com que ele trata assuntos tão delicados. Mesmo quando aborda um ícone da música, como o nigeriano Fela Kuti, em ‘Meu Amigo Fela’, ele o faz pelo viés mais contraditório que articula militância, comportamento e arte. Esse trinômio pode caracterizar bem a filmografia do diretor, que é também um profundo conhecedor do cinema africano”.

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