Joel Pizzini e as almas do Real

Joel Pizzini e as almas do Real

Rodrigo Fonseca

05 de agosto de 2020 | 12h04

Joel Pizzini, em foto de Izan Petterle, nas filmagens de “500 Almas”, com o câmera Hélcio Nagamine – filme é um dos faróis do debate sobre “filmensaio” do seminário Na Real_Virtual

Rodrigo Fonseca
Envolvido neste momento em uma biopic Zbigniew Ziembinski (1908 – 1978), um dos pilares da reinvenção dos palcos brasileiros nos anos 1940, o diretor Joel Pizzini tem pela frente esta noite o desafio de expandir o conceito de “filmensaio” e “etnopoema” entre os ouvintes do seminário documental Na Real_Virtual. O simpósio online se firma, debate em debate, como “o” evento do cinema nacional deste 2020 de pandemia. A conversa com o diretor de “Mar de Fogo” (concorrente ao Urso de Ouro de curtas em 2015) vai se desenrolar na web a partir das 19h, passando por “Zimba”, seu .doc atual, sobre Ziembinski, mas trafegando com maior ênfase por sua luta em prol da preservação de memórias, num plural nas raias da experimentação de linguagem. Uma experimentação que passa tanto pelo uso de imagens de arquivo como por recursos das artes visuais, na brincadeira com a cor, com a textura, com o Tempo, como se vê em seu aclamado “500 Almas” (2004).
“Sou um autor à procura da família espiritual para realizar um filme só, com roteiro aberto e cujo consolo, e pretensão, é fazer filmes que possam ficar em cartaz toda a vida. As escolhas dos personagens centrais do meu cinema refletem a minha arqueologia afetiva, e reúne figuras/signos, que são atores políticos de um roteiro maior, como eu estivesse a fazer um filme só, sobre uma nação tão original e diversa, que me encanta e desespera, por tantos sobressaltos para se afirmar”, disse Pizzini, que falou do cineasta Mario Peixoto (1908-1992) em sua produção indicada aos prêmios de Berlim, passeando ainda por outros artistas. “No ‘Zimba’, eu faço uma espécie de autorretrato em terceira pessoa do Ziembinski, com a recriação de sua trajetória desde a Polônia, antes de sua fuga, na II Guerra, pro Brasil, com raras imagens de arquivo”.

Cena de “Zimba”, sobre o teatro de Ziembinski

Ao longo das últimas três décadas, Pizzini investiu seu olhar em retratos sobre realizadores como Peixoto, Glauber Rocha (“Anabazys”, feito com Paloma Rocha) e Rogério Sganzerla (“Mr. Sganzerla – Signos de Luz”); sobre pintores como De Chirico (“Enigma de um Dia”); sobre o poeta Manoel de Barros (“Caramujo-Flor”) e sobre o cantor Ney Matogrosso (“Olho Nu”). Mas “500 Almas”, no qual fala da resistência de uma população indígena, é o eixo mais poética de suas digressões sobre a memória. E é ela que vai nortear o Na Real_Virtual desta quarta. Pra se inteirar do que se passou nessa maratona teórica, basta acessar: https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/2020. Nela, sob produção de Márcio Blanco e seu Imaginário Digital, os curadores Bebeto Abrantes e Carlos Alberto Mattos reuniram titãs da não ficção (Maria Augusta Ramos, Petra Costa, João Moreira Salles, Cao Guimarães, Carlos Nader, Walter Carvalho e Belisario Franca já falaram) para comentarem seus processos, suas metodologias e suas poéticas, oferecendo aos ouvintes reflexões, desconstruções, experiências de campo e saudades. Pizzini hoje vai inserir mais uma experiência: a da resiliência de um povo.
“Os Guató foram decretados oficialmente extintos, ressurgiram, conquistaram sua ilha mítica no Pantanal e sobrevivem bravamente até hoje, apesar das atrocidades, das intolerância social e de incontáveis epidemias. Aliás, como diz o cineasta Divino Xavante, a pandemia não é novidade para quem, há 500 anos, vem resistindo a tantas doenças e contaminações legadas pelos colonizadores”, conta Pizzini. Por sua relação sagrada com a vida, a natureza e coexistência respeitosa com o outro, é inspirador conviver com esses saberes milenares dos povos originários que poderiam humanizar a ‘civilização’. Uma civilização que praticamente lavou as mãos e assiste… quando não provoca… o genocídio de nações inteiras. O militar e pacifista Marechal Rondon já alertava, nos anos 1940, sobre os massacres que hoje se acentuam com mais uma epidemia, desta vez mais implacável ainda. Agora, entretanto, os indígenas cineastas narram o seu drama e escancaram para o mundo as feridas abertas ao nosso lado, clamando ajuda internacional”.

O cardápio do Na Real-Virtual para os próximos dias contempla as seguintes questões, filmes e diretores:
Dia 7/8 – Estratégias narrativas – Gabriel Mascaro. Filme: Doméstica
Dia 10/8 – Por um cinema híbrido – Rodrigo Siqueira. Filme: Orestes
Dia 12/8 – Quando o real vira ficção – Marcelo Gomes. Filme: Viajo porque Preciso, Volto porque te Amo
Dia 14/8 – A periferia no centro – Emílio Domingos. Filme: Favela é Moda

p.s.: Três anos depois de conquistar a Palma de Ouro em Cannes com “O Pianista” (2002), pelo qual abocanhou ainda o Oscar de melhor direção, Roman Polanski rodou uma adaptação de “Oliver Twist”, de Charles Dickens (1812-1870), com um orçamento de US$ 60 milhões, transformando a fina prosa sobre menores abandonados em um espetáculo cinematográfico à moda de clássica de requinte narrativo singular. Nesta madrugada, às 1h40, a Globo/ Globoplay exibe o longa-metragem no “Corujão”. No Brasil, Gustavo Pereira dublou o então pequeno Barney Clark, que vive Twist. Já a brilhante atuação de Ben Kingsley como Fagin, lacraia que explora crianças carentes, coube ao gênio Jomeri Pozzoli. Orçada em US$ 60 milhões, a produção só arrecadou US$ 42 milhões nas bilheterias, pelo planeta afora.

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