Jodorowsky leva sua psicomagia à MUBI

Jodorowsky leva sua psicomagia à MUBI

Rodrigo Fonseca

23 de dezembro de 2020 | 11h11

Rodrigo Fonseca
Triando potenciais presentes de Natal para quadrinhófilos, o site francês BDFugue sinalizou o lançamento de “Jodorowsky 90 ans – coffret tome 4”, uma coletânea de trabalhos assinados pelo escritor, cineasta, ator, tarólogo e xamã chileno Alejandro Jodorowsky, que nonagenou em 17 de fevereiro de 2019. Constam desse pacotão “Les Technopères”, “Final Incal”; “Après l’Incal”; “Castaka”; “Les Armes du Méta-Baron”; “Les Larmes d’Or”; e o colossal “Bouncer”. Livrarias de toda a Europa, sobretudo as especializadas em HQs, estão abarrotando suas estantes com seus álbuns best-sellers, sobretudo “The Sons of El Topo”, escrito por ele e ilustrado por José Ladrönn, de carona nas polêmicas desse multiartista em relação à indústria cultural. Recentemente, ele, que esboçou fazer uma adaptação de “Duna” há cerca de quatro décadas, soltou o verbo contra o trailer da atual versão do livro de Frank Herbert (1920–1986), pilotada por Denis Villeneuve, considerando-a mero caça-níqueis. Em novembro, no Brasil, o 7º Festival Internacional Cinema & Transcendência trouxe para a rede CCBB o último longa-metragem dirigido por Jodorowsky, o documentário “Psicomagia – a arte da cura”, sobre uma “ciência xamânica” desenvolvida por ele a partir de uma percepção de paradoxos. “O modo de um indivíduo fazer as pazes com seus desejos é converter seus medos, entre eles a timidez, em potência, celebrando a diferença. Se você tem problema com o próximo, viva como o próximo, para ter uma noção de quem ele é”, disse o cineasta em entrevista ao P de Pop, em Cannes, em 2018, quando passou em revista seus filmes mais consagrados. Sua obra-prima, o western metafísico “El Topo” (1970), acaba de entrar para o streaminguesfera, no menu da MUBI, cuja curadoria humanizada, de âmbito global, é coordenada no Brasil por Juliana Barbieri.
“Existia o faroeste como uma afirmação de conquista, de submissão e de imperialismo. Nos anos 1970, eu acreditei que o gênero poderia ir além disso se tivesse alma”, disse o diretor ao Estadão, carinhoso com os fãs brasileiros que conquistou em sua passagem pelo RJ em 2007.

Na URL www.mubi.com, ele ganhou uma aba pra si, com “El Topo” e “Fando y Lis” (1968). Os dois longas misturam Cabala e Nietzsche em seu recheio, como tudo do realizador. “Eu vejo o cinema contemporâneo fazer da violência e do consumismo um fetiche. Eu filmei para sair dessa prisão da subserviência cultural”, disse o realizador em 2013, ao lançar “A Dança da Realidade” em Cannes.
Sua produtividade recente tem sido alta, com destaque para o filme “Poesia Sem Fim”, de 2016. Mas sua genialidade ainda encontra em “El Topo” um estandarte libertário. Ao ser lançado em Nova York, em 1970, esse longa, já na MUBI, inaugurou a cultura dos midnight movies, as projeções à meia-noite de filmes considerados pouco apropriados para plateias mais de gosto mais conservador. O próprio diretor – um judeu nascido em Tocopilla, no Chile, e radicado em Paris – assumia o papel central, o de um pistoleiro místico. “Nem todo bom quadrinho vive de poesia, assim como nem todo grande filme é onírico. Cabe de tudo, pois o feitiço está na realidade assim como a realidade está nos feitiços – um molda o outro. Mas essa realidade consumista devoradora a que nos agrilhoamos, nas últimas décadas, é uma contingência bruta, pautada por referências midiáticas de Hollywood, que nos leva a associar o desejo à violência física. Vivemos submissos a imagens de ordem”, disse Jodorowsky a este blog, quando lançou “Poesia sem fim” na Croisette, há quatro anos, iniciando a produção do gibi “The Sons of El Topo”. “Eu idealizei esse universo de faroeste mágico a partir da vontade de fazer um filme sem que eu precisasse pedir permissão para contar o que quisesse, com absoluta liberdade de fantasiar. Havia uma cartilha de como se rodar um western, assim como hoje existe uma cartilha de como devemos nos comportar e pensar, a partir dos ditames do capitalismo. Mas o cinema, como arte, tem o dever de furar esses ditames. Passei anos com o desejo de voltar à mística de ‘El Topo’ não apenar por haver algo a ser dito sobre aquele caubói errante, mas por estarmos vivendo hoje tempos crus, carentes de desbunde. Há uma loucura salvadora que trancamos no porão. Mas ela nos assombra, para nos libertar”.

Em 2016, a editora Gryphus lançou no Brasil a coletânea de ensaios “A jornada espiritual de um mestre”, em que Jodorowsky explica a gênese de seu xamanismo, que classifica como “psicomagia” (uma mistura de Freud com signos arcanos). É essa prática xamânica que dá base às páginas da HQ “The Sons of El Topo”, que servirá de base para o novo longa-metragem do diretor, a ser lançado em 2020, no cinquentário de seu personagem mais lendário. Na trama, Caim, filho mais velho do caubói El Topo, pensa em matar o pai, para liberar energias de que o Universo necessita para se expandir espiritualmente, mas desiste de seguir a trilha do ódio. Prefere ir atrás de um irmão, Abel, que não conhece. Começa aí uma jornada regada de magia, sensualidade e chumbo quente.
“Penei para exibir o filme de 1970, talvez por eu ser mais associado a outras artes e não ao universo do cinema mais comercial. Quando ‘El Topo’ ficou pronto, nenhum exibidor viu um pingo de sentido naquilo. Só um amigo meu que era dono de um cinema pornô, o Elgin. Ele me ofereceu a última sessão que tinha. O sucesso da gente, mesmo naquele horário, foi tanto que muitos diretores foram atrás do Elgin querendo exibir trabalhos mais autorais na madrugada. Isso criou um ritual. Cinema é ritual”, conta Jodorowsky no prefácio do quadrinho, que só nasceu pelo impasse de nenhum distribuidor querer apoiar a volta de El Topo aos cinemas. “Mesmo com o sucesso do primeiro filme, a continuação era vista com suspeita, o que me levou a contar sua história em desenhos do meu amigo Ladrönn”.

Aluno do mímico Marcel Marceu (1923-2007) e colega de dramaturgos como Fernando Arrabal (autor de “O arquiteto e o imperador da Assíria”), Jodorowsky brilhou ainda no cinema com longas como “Santa sangre” (1989) e “A Montanha Sagrada”, ganhador de uma menção especial no Festival de Taormina, em 1973. Chegou a ganhar uma láurea honorária pelo conjunto de sua obra no prestigiado Festival de Stiges, na Espanha, em 2006. No mercado editorial do Velho Mundo, lançou livros sobre misticismo e muitos quadrinhos, como “O Incal”, com o mítico Jean “Moebius” Giraud (1938-2012). Mas “El Topo” ainda é seu cartão de visitas nos grandes festivais do mundo, onde é recebido como um ícone de experimentação nas narrativas audiovisuais e literárias.
“Viajei o mundo cartografando ânsias e sentimentos e filtrando esse aprendizado nas artes e no meu contato com o xamanismo. Já trabalhei muito com teatro, no México e na França, ao lado de Arrabal e outros grandes, na busca por uma desconstrução dos cânones do palco, na busca por novas formas de encenação pelas vias da vivência. Mas uma peça raramente se torna um fenômeno mundial, que consegue alcançar vários lugares ao mesmo tempo, como os filmes fazem, ou como os quadrinhos conseguem. E existem mensagens que precisam se propagar rápido pelo mundo, sem concessão ou permissão oficial”, disse Jodorowsky em Cannes. “Escrevo quadrinhos para sobreviver e pelo prazer da invenção. É uma mídia que ainda cultua a fantasia, sem culpa de sonhar e inventar trincheiras de ilusão que libertam. No cinema, eu busco libertar o olhar. Um dia, sonho projetar um filme em uma parede de um terreno baldio qualquer, juntando pessoas que queiram comungar da invenção”.
De certa forma, a MUBI consegue, lindamente, ser esse terreiro.

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